Teoria

TEORIA

Mészàros: um crítico do capital em deriva estratégica

Gilson Dantas

Brasília

sábado 23 de maio de 2015| Edição do dia

I Mészàros, autor de Para além do capital, tem contribuído, nas últimas décadas, com bons argumentos contra o que ele chama “o sistema metabólico do capital”. Neolukacsiano, filósofo e crítico de primeira linha da opressão capitalista, tem o mérito de ter contribuído, no pensamento acadêmico em seus tempos mais sombrios, época de ofensiva do capital contra o trabalho, com debate instigante e para o qual ele procurou se referenciar pelo marxismo.

Alguns dos seus fundamentos críticos continuam atuais, especialmente sua defesa, contra certa opinião reinante, da centralidade da classe trabalhadora como sujeito da mudança histórica, de que o novo poder político tem que ser de massa, de que hoje é mais aguda que nunca a disjuntiva socialismo ou barbárie, também sua argumentação e diagnóstico do complexo militar industrial como elemento-chave dos gastos parasitários do capitalismo, sua crítica ao “socialismo de mercado” etc.

Por outro lado o pensamento estratégico de Mészàros padece de vários problemas e um deles, determinante quando se pensa no poder político do proletariado, será aqui mencionado.

Mészàros, em que pese sua linguagem abstrato-rebuscada, mas termina se alinhando à de lideres de massa como Lula, E Morales e Chávez, também à ideia de superação da ferramenta partido e na defesa de uma transição revolucionária duvidosa.

No processo de “superação do capital”, na travessia do capitalismo para uma sociedade revolucionária e pós-revolucionária, Mészàros considera que podemos fazê-lo por meio de lideranças “radicais”, que é como ele caracterizava Chávez. O mesmo Mészàros aparece como forte crítico do parlamento, naquele processo, mas, por outro, propõe que a transição se dê através de um amálgama entre o parlamento e o poder popular extra-parlamentar. O que é coerente com sua ilusão com processos tipo chavismo ou lulismo, portanto, com coisas do tipo bonapartismo ou frentepopulismo. Esse pensamento de transitar ao socialismo pela via mista de parlamento&órgãos de massa era típica do último K Kautski, devidamente criticado por Lenin no seu livro O anti-Kautski.

Mészàros diz com todas as letras que “a participação no processo eleitoral não é uma questão de manobra tática” (seria então estratégica?) e que é necessário uma “renovação radical do sistema parlamentar com base na compreensão crítica de suas reais funções históricas originais”. Sua estratégia, portanto, seria transitar “para além do capital” através de um tipo de amálgama entre o parlamento “revitalizado” e a força extraparlamentar, que ao lado do “movimento político radical, também pode ser ativo através do parlamento”.

Sabemos que toda teoria termina sendo funcional a alguma prática. Nesse caso a gramática teórica de Mészàros termina desaguando naquela prática nada radical, de ressuscitar o parlamento e/ou transitar com ele na revolução.

Nessa medida nos lembra de alguma forma um dos seus mestres, Lukács, que para além do seu linguajar complexo, terminava, na política, adotando uma estratégia frentepopulista. Nenhum dos dois tampouco concebe nada parecido com aquilo que Marx chamava de ditadura das maiorias proletárias contra a burguesia e suas forças reacionárias. Tampouco qualquer dos dois promoveu qualquer debate sério sobre o papel dos sovietes, dos comitês de fábrica, de formas de democracia de base para a tomada do poder e instauração do novo tipo de Estado, Estado em desconstrução.

Mészàros rejeita qualquer “Estado político autoritário” na transição e fala em abolir imediatamente o tripé Estado-assalariamento-capital, o que sugere um tipo sofisticado de autonomismo, mas por outro parece ceder à deriva estratégica de preservar e “revitalizar” o parlamento no centro do poder político. Ele quer parlamento e forças extra-parlamentares convivendo lado a lado: eis seu Estado de transição. Como ele não se ocupa de detalhar como seria a estratégia para a tomada do poder, muito menos com que elementos se constrói esse novo Estado que varreria o capital, o debate fica em aberto.

Provavelmente, será por conta desse seu, digamos, “buraco negro” estratégico, que Mészàros dedica 24 das 134 páginas do seu livro A crise estrutural do capital para embelezar e incensar não apenas Chávez mas também o “libertador” Simon Bolívar (deixando de lado a opinião de Marx sobre Bolivar). Mas não se ocupa de que papel teria uma estratégia soviética, por exemplo; ao contrário, ele tem textos de puro elogio ao MST ou ao zapatismo, cujos limites estratégicos Mészàros jamais soube problematizar. Sua adesão pouco crítica ao Forum Social Mundial, lado a lado, com sua não-crítica à cooptação “bolivariana” dos movimentos sociais, também dizem algo. Quando escreveu sobre Cuba, em 2004, foi todo elogios e zero críticas à burocracia castrista.

Fiquemos com sua fórmula estratégica: no A crise estrutural ele propõe claramente, à la Kautski, “complementar a política parlamentar-institucionalizada com a ampliação de áreas e formas de ação extraparlamentar”. E comparemos com o argumento de Lenin, que tem claro que enquanto existirem classes, a democracia será de classe: “Mil barreiras impedem as massas trabalhadoras de participar de um parlamento burguês (e, aliás, na democracia burguesa nunca é ele, e sim a Bolsa e os bancos que resolvem as questões capitais) e os trabalhadores veem, sabem e sentem maravilhosamente que o parlamento burguês é um organismo estranho a seus interesses, um instrumento de opressão da burguesia contra os proletários, a instituição de uma classe hostil, de uma minoria de exploradores. Os sovietes são a organização direta dos trabalhadores e das massas exploradas, facilitando-lhes a possibilidade de organizarem e governarem o Estado, por si mesmos. A vanguarda dos trabalhadores e dos explorados, o proletariado das cidades, tem a vantagem de ser mais unida graças às grandes empresas, tem mais facilidade para eleger e vigiar seus eleitos”, diz Lenin. E acrescenta: dessa forma se cria um aparato mais barato, mais accessível aos trabalhadores e aos camponeses.

Termina havendo, de parte de Mészàros, algo assim como uma fetichização da democracia (burguesa) e uma dificuldade de recuperar a noção de democracia dos produtores, proletária, uma vez que ele finca pé na ideia de “revitalizar” o parlamento e voltar ao parlamento (burguês, naturalmente) “das origens”. Deixa de lado o Marx que descreve a Comuna de Paris como uma “instituição não parlamentar, mas operária e que acumulava as funções dos poderes Executivo e Legislativo”. Como imaginar, hoje, um programa revolucionário sem sovietes e sem controle operário? Uma coisa, necessária, é utilizar o espaço parlamentar, com bancadas operárias de esquerda, a outra, meszarista, é imaginar uma estratégia que resgate o parlamento em um processo revolucionário onde a reação da burguesia e seus aliados será encarniçada contra os órgãos de democracia de massa, e vai recorrer a todos os meios, inclusive a qualquer tipo de parlamento “revitalizado”, para se restaurar contra a revolução.

No fundo, portanto, estamos diante de um debate de estratégias, que Mészàros, lamentavelmente, e para além dos seus acertos teóricos em outros pontos, tenta resolver dentro dos marcos da fetichização da democracia burguesa.

Referências:
Entrevista de Mészàros (Democracia por subtração) a Marcos Nobre, da Unicamp, em 2002.
A revolução proletária e o renegado Kautski (O anti-Kautski), 1919, Lenin.
A crise estrutural do capital, 2009, Mészàros.
Cuba: os próximos 45 anos? M Review de janeiro 2004.
Para além do capital, 2005, Mészàros.




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