Política

OBAMA NA ARGENTINA

Mensagem de Obama ao Brasil: guiem-se pelo exemplo de Macri

Depois de 10 anos, um presidente norteamericano chegou à Argentina. Após sua viagem histórica a Cuba (onde um presidente ianque não pisava desde 1928) Obama chegou ao país vizinho no marco de um novo governo e um contexto de fortes crises em países da região, como Brasil e Venezuela.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quinta-feira 24 de março de 2016| Edição do dia

Cuba e Argentina são duas escalas diferentes de uma viagem com destino único: reconquistar a primazia dos interesses norteamericanos na região.

Depois de conseguir acordos comerciais importantes para a comitiva de multinacionais que o acompanharam a Cuba (servindo-se da submissão da burocracia do Partido Comunista Cubano, que trata de avançar com segurança na restauração do capitalismo e na liquidação das conquistas da Revolução na ilha), Obama fez sua corte de gerentes e empresários encontrarem os CEOs do gabinete de Mauricio Macri, mostrando que traz consigo monopólios suficientes para fazer negócios em toda a América do Sul.

Do ponto de vista político, Obama quer aproveitar o giro à direita na superestrutura da América Latina e o fim de ciclo dos governos ditos “progressistas” para recuperar o terreno perdido na última década, na qual enquanto a política externa dos Estados Unidos esteve concentrada no Oriente Médio, a região que considerava historicamente como seu “pátio traseiro” se abria para novos parceiros comerciais, principalmente a China. Ainda que o Peru, o Chile e a Colômbia se encontrem alinhados ao imperialismo ianque, o triunfo da direita nas eleições legislativas na Venezuela, a derrota de Evo Morales no plebiscito na Bolívia, a crise brasileira e a vitória de Mauricio Macri nas presidenciais argentinas marcam a oportunidade para reordenar a região ao tom do Consenso de Washington nos anos 80.

A aposta imperialista de que esta “nova direita” se consolide como opção nas revoltas águas regionais fica exemplificada na menção que fez ao Brasil durante encontro com o presidente argentino.

Gestos nada sutis acerca de para onde o Brasil deve rumar

Com um discurso muito cauteloso e que em momento algum incluiu as palavras impeachment, corrupção, Lava-Jato e golpe, ambos chefes de Estado confirmaram ter conversado sobre a situação política brasileira e limitaram-se a dizer que esperam que a crise "se resolva de forma efetiva" e "o mais rápido possível". Sair fortalecido, na boca de Obama, significa abrir suas fronteiras a novas entregas, seguindo exemplo do “novo líder da região” para o chefe imperial, Mauricio Macri.

"O Brasil é um país grande, é amigo dos nossos dois países. A boa notícia – e o presidente Macri apontou isso – é que a democracia dele está madura. Acho que os sistemas de leis e estruturas são fortes o suficiente para que isso seja resolvido de forma que o Brasil prospere e seja o líder mundial que é", disse Obama. "Precisamos de um Brasil forte e eficiente para nossa própria economia e para a paz mundial", acrescentou.

A crise brasileira apresenta um cenário “auspicioso” para Washington: envolve níveis quase depressivos na economia, um estado de liquefação das tradicionais alianças dos partidos burgueses em profunda crise de representatividade, um “Partido Judiciário” que faz o jogo do impeachment tomando parte primordial no golpe institucional, rasgando a Constituição dos próprios capitalistas e se arrogando prerrogativas que não possui, e um partido que exerceu o papel de contenção de massas que é o PT aplica ajustes duríssimos contra os trabalhadores e assimila todos os métodos corruptos de governo dos capitalistas, abrindo caminho ao fortalecimento da direita sobre a qual Obama quer apoiar-se para “reinstalar bases” no país.

A menção ao Brasil feita por Obama reflete a vontade de que siga os passos do “novo líder regional que emerge”, como mencionou na coletiva de imprensa ao se referir a Macri. "A Argentina está reassumindo sua tradicional liderança na região e em todo o mundo", destacou Obama, sinalizando sugestivamente a velocidade com que Macri fez “reformas econômicas para ligar-se ao mercado estrangeiro”.

Neste sentido é claro que a visita “vem por mais” do que conhecer a virtude de Obama com o tango: busca promover o governo de Macri como um exemplo para terminar de erodir os governos posneoliberais em decadência.

A burguesia brasileira replicou este pequeno comentário de Obama através de seu “Partido midiático”, porque não considera suficiente a submissão dos governos do PT ao imperialismo, como a recente entrega do pré-Sal às petroleiras estrangeiras por parte de Dilma. Quer relações “macristas”, como pede o chefe ianque. Não por menos: os EUA é o segundo maior parceiro comercial brasileiro, chegando a ter (junto à Argentina, terceiro maior sócio) um intercâmbio comercial de 100 bilhões de dólares em 2014.

Mas o exemplo da Argentina para refletir a complexa situação nacional não fornece apenas sugestões de saídas nefastas, como é a referência à Macri. Há exemplos que devem ser profundamente apropriados pelos trabalhadores e jovens do Brasil. Trata-se da Frente de Esquerda, integrada pelo PTS, que está na linha de frente da resistência à entrega dos recursos do país aos fundos abutres, e cujos parlamentares, como o deputado Nicolás del Caño, estão lutando no parlamento para acabar com o privilégio dos políticos da burguesia, defendendo que todos ganhem como uma professora. Estão colocando seus mandatos a serviço da luta de classes, e neste dia 24M estarão nas ruas para repudiar a presença de Obama no dia do 40º aniversário do golpe militar planejado desde Washington.

É olhando para esse exemplo que a juventude e os trabalhadores de nosso país devem colocar suas forças, e não em figuras como Sergio Moro, ou instituições como o Ministério Público e o STF, cujos métodos reacionários e que colocam em curso um golpe institucional no país parecem ser os únicos possíveis, na cabeça da esquerda como PSOLe PSTU, para combater o governo ajustador do PT. Este ceticismo tremendo na classe trabalhadora e na juventude tem como complemento fortalecer a política da direita que busca novos laços com o imperialismo. Pelo contrário, é necessário um movimento nacional contra os ajustes e a impunidade, que avance para impor pela força da mobilização uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, e questione todo o regime político e suas regras, que possa punir os corruptos, eleger os juízes, decidir os salários dos políticos e impor a revogabilidade de todos os mandatos de políticos e do judiciário, rompendo todos os acordos de subordinação com o imperialismo.




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