Gênero e sexualidade

Médica manda paciente comer Secreção após queixas de complicação em lipoaspiração

Médica ainda é investigada por lipoescultura realizada em outra mulher que morreu 6 dias após o procedimento. A objetificação do corpo da mulher já é tratada com naturalidade há tempos, os padrões do que é ser uma mulher bonita e atraente já nos atravessa a subjetividade também há décadas, fazendo com que nos questionemos sobre nossos corpos, nossos valores e condutas sociais. O que precisa cada vez mais fazer parte de nossos questionamentos é a causa real de tais imposições sociais.

sexta-feira 27 de julho| Edição do dia

Com perfuração no intestino e internada há mais de uma semana no Hospital Cardoso Fontes, no Rio de Janeiro, uma paciente da médica Geysa Leal Correa relatou sofrer complicações após realizar um procedimento de lipoaspiração. O hospital não informou o estado da paciente.

Em conversas com Geysa por mensagens de celular, a paciente reclamou que permanecia com volume significativo de secreção mesmo tomando corretamente os medicamentos prescritos.

A paciente afirma: “Falei para ela que estava saindo uma secreção. Eu estava muito inchada, ela me receitou vários antibióticos, vários remédios. Voltei para casa com o alívio de algumas horas, mas logo depois começou a doer de novo, começou a inchar de novo”. E continua em outra mensagem: “Eu comi uma sopa no dia anterior que continha tomate e agrião. Estava saindo muita secreção e nessa secreção saiu agrião e tomate. Mandei as fotos para ela.”

Respondendo aos questionamentos a médica enviou uma mensagem de áudio rindo e dizendo para a paciente "provar" a secreção. Disse:

“Amore, eu acho que você devia comer pra ver se é verdade, pra ver se é tomate, se é cenoura, porque isso aí pra mim, é gordura. Me desculpe, mas não fale besteira que quanto mais besteira você pensar, pior você vai ficar estressada. E me estressar à toa". Complementou: “Como assim comida? Desculpa, está doida? Eu quero que você venha aqui primeiro. Eu preciso ver isso. Comida? Impossível sair comida. Se eu tivesse perfurado alguma coisa, você já tinha morrido. Então, deixa eu ver primeiro antes de você ficar falando besteira. É agrião, daqui a pouco é uma salada de fruta, uma sopa. Se você quiser, você come para provar, pra ver se é uma coisa ou outra. Eu estou brincando, desculpa. Isso é uma falta de respeito com você. Desculpa”.

Nesta quinta-feira (26), a clínica da médica em Niterói foi interditada e a mesma prestou depoimento na 77ª DP durante a tarde. A chegada dela à delegacia foi bastante tumultuada.

Além desse tremendo absurdo a médica também está sendo investigada pelo procedimento estético que fez em Adriana Ferreira Pinto. A mulher de 41 anos fez uma lipoescultura no dia 16 desse mês, no consultório de Geysa e morreu seis dias depois. Na clínica não há Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e nem ambulância.

Geysa Leal não é membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Além disso, o Conselho Federal de Medicina considera cirurgião plástico quem fez residência na área ou tenha realizado a prova de títulos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Geysa no entanto, é registrada apenas na Sociedade de Medicina e Cirurgia Plástica e Estética, que não é reconhecida pela Associação Médica Brasileira.

Nos últimos dez dias três mulheres morreram no Rio de Janeiro em decorrência de complicações após procedimentos estéticos. Tais fatos escancaram o quanto as mulheres estão submetidas aos estereótipos de beleza e aos padrões estéticos que nos são impostos pela indústria cultural, que age a serviço do capitalismo e sua doentia necessidade de nos colocar em prateleiras como mercadorias prontas para consumo.

É um verdadeiro bombardeio: revistas, internet, televisão, filmes e séries, outdoors e redes sociais vomitando o corpo perfeito: bumbum durinho, medidas de modelo, seios empinados, lábios carnudos, tudo em cima. E nessa corrida rumo a inserção nesse padrão estético, muitas morrem ou sofrem consequências devastadoras.

Um levantamento divulgado este ano pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica aponta que em comparação com o ano de 2014, as intervenções de reconstrução aumentaram 23% e as estéticas 8%. A aplicação de botox e os procedimentos de preenchimentos em geral tiveram o escandaloso aumento de 390% de 2016 pra cá.

A objetificação do corpo da mulher já é tratada com naturalidade há tempos, os padrões do que é ser uma mulher bonita e atraente já nos atravessa a subjetividade também há décadas, fazendo com que nos questionemos sobre nossos corpos, nossos valores e condutas sociais. O que precisa cada vez mais fazer parte de nossos questionamentos é a causa real de tais imposições sociais.

A indústria cultural portanto, é uma das ferramentas mais eficazes de sustentação dos ideias burgueses e da perpetuação do machismo e de todos os reflexos do patriarcado. Compreender esta lógica nos faz mais críticas em relação ao que nos é apresentado como padrão estético, nos torna mais consequentes sobre nossa imagem e menos influenciadas por todo bombardeio que quer nos impor padrões que não refletem o que de fato somos. Este certamente já é o início de um caminho rumo a verdadeira emancipação nossa, das mulheres, em conjunto com toda a classe trabalhadora, para que possamos lutar ombro a ombro pelo fim do machismo, que somente será erradicado por completo quando de fato destruirmos o capitalismo através da verdadeira emancipação de toda a classe trabalhadora.




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