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CONTROLE OPERÁRIO

Mecano Fabril: O que fazer se a fábrica fechar por incompetência do patrão? Ocupar a fábrica e botar ela pra funcionar sob controle dos trabalhadores

A Mecano Fabril, importante autopeças de Osasco, que lucrou milhões nos últimos anos, assumiu um discurso de crise financeira profunda para demitir, retirar direitos, precarizar o trabalho e atrasar salários. Nós do Esquerda Diário temos apoiado ativamente os trabalhadores e trabalhadoras desta autopeças com panfletagens e denúncias.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

sábado 7 de maio de 2016| Edição do dia

Com muita humildade queremos apresentar nossa visão dos rumos possíveis da luta e quais suas possibilidades para que numa experiência e luta comuns possamos ajudar os trabalhadores a saírem vitoriosos e com seus direitos, salários e empregos garantidos.

Se a fábrica fechar, ocupar...

A empresa lucrou milhões, a Prefeitura e a Câmara dos Vereadores de Osasco retiram impostos e cederam benefícios. Como assim não tem dinheiro? Quem causou essa crise foi o próprio patrão, ele tem responsabilidade sobre os problemas financeiros da Mecano. Os operários trabalharam, o justo é receberem seus salários.
E se a fábrica fechar? Nós do Esquerda Diário acreditamos que a única saída para os trabalhadores seria seguir os exemplos da Mabe de Campinas e Hortolândia e da Mardel em Ribeirão Pires.

Ocupar a fábrica e impedir a retirada das máquinas seria a única garantia de que os direitos seriam pagos. Não devemos confiar na justiça que sempre defende os ricos, como vimos na última negociação. Mesmo que nossos direitos fossem pagos por via judicial esse processo poderia se arrastar por longos anos e nós trabalhadores, que dependemos de nossos salários, não podemos ficar esperando por tanto tempo.

... e colocar para produzir sobre controle operário.

Acreditamos que nem só a ocupação da fábrica seria o suficiente. O mínimo numa luta como essa é garantir o pagamento de nossos direitos, em caso do fechamento da fábrica, mas não devemos nos contentar com o mínimo.

Para garantir empregos e salários, portanto, propomos que os trabalhadores, sendo necessário ocupar a fábrica em caso de fechamento, se preparem para colocar ela para produzir sob controle operário, ou seja, que os próprios trabalhadores assumam a gestão da fábrica.

Temos que romper com algumas amarras. Primeiro entender que o patrão não é dono da fábrica porque ele trabalhou muito para consegui-la e portanto tem o direito de ser o dono, de nos explorar e atrasar nossos salários e direitos. Não, a riqueza dele é fruto da exploração de nosso trabalho, de nosso sangue e suor. Pois pensemos, quem faz as peças, quem move as máquinas, quem está no chão da fábrica todo dia, os operários ou o patrão? Basta colocarmos a questão para vermos que quem produz toda a riqueza somos nós trabalhadores e não o patrão.
Depois temos que ver os exemplos reais de fábricas que estão sob controle operário para entendermos que sim, é possível a gestão operária, dos trabalhadores, sobre a produção.

Zanon, exemplo de fábrica ocupada e que produz sem patrão

O grande exemplo de uma fábrica que funciona sem patrão hoje se dá em nossa vizinha Argentina. Lá, numa fábrica de cerâmica chamada Zanon, localizada na província de Neuquen, acontece o controle operário da produção, a fábrica funciona sem patrão.

Depois de um momento de crescimento econômico durante a década de 90, em que a fábrica lucrou muito, com a crise Argentina de 2001 a planta começou a apresentar sinais de falência e o patrão não queria pagar os direitos dos trabalhadores.

Contra essa medida do patrão e para garantir seus direitos os trabalhadores ocuparam a fábrica e a colocaram para produzir sob seu controle, mostrando assim que é possível que os próprios operários possam gerir os negócios, controlar a fábrica, pois como são eles (nós) que produzem não precisam de nenhum chefe ou dono para lhes dizer o que, quanto e como produzir.

Em 2009 os trabalhadores conquistaram outra grande vitória, conseguindo a expropriação da fábrica, o que fez com que efetivamente a sua propriedade passasse para as mãos dos operários.

Toda luta dos operários de Zanon foi documentada no filme FaSinPat (Fábrica sem patrões, na sigla em espanhol).

Algumas questões:

1) E como garantir crédito, matérias-primas, consumidores para o escoamento da produção?

Uma dúvida muito legitima que pode surgir entre os companheiros é: “mas se ocupamos a fábrica e a colocamos para produzir sob nosso controle os bancos, as fornecedoras de matérias-primas, as empresas que compram a produção vão nos boicotar, o que vamos fazer?”

Duas respostas são necessárias a essa questão:

a) Seguir o exemplo dos secundaristas, por um amplo movimento de ocupações de fábricas

Já diz a sabedoria popular, “a união faz a força”. Uma das questões centrais para que a luta da Mecano saia vitoriosa é ela buscar ser exemplo para todas as outras fábricas e trabalhadores que estão em situação parecida, não só em Osasco e região, mas também por todo Brasil.

Os companheiros da Mecano podem e devem se pensar como possíveis iniciadores de um movimento mais amplo de ocupações de fábricas, como resposta a onda de fechamentos, falências e consequente desemprego a que leva a crise econômica que atravessamos. Devemos fazer com que os patrões paguem pela crise que causaram e não nós trabalhadores. Vejamos o exemplo da Mabe de Campinas, em que a ocupação dos trabalhadores levou a uma ampla solidariedade nacional à sua luta.
Vejamos também o exemplo das ocupações de escolas que se deram no final do ano passado em São Paulo e se repetem hoje no Rio de Janeiro. Em São Paulo, assim como no Rio, a partir da ocupação de duas escolas pioneiras (E.E. Diadema e E.E. Fernão Dias) começou um amplo movimento de ocupações de escolas que chegou a envolver mais de 200 escolas em todo o estado. O que permitiu que essas primeiras escolas ocupadas fossem o estopim de um amplo movimento? O fato de que os ataques eram gerais a toda educação.

b) Exigir a estatização da fábrica sob controle dos trabalhadores

Outro elemento para garantirmos o credito, o fornecimento de matéria-prima, o escoamento da produção, é que exijamos dos governos que estatizem a fábrica, ou seja, que assumam a propriedade da empresa, mantendo seu gerenciamento e controle nas mãos dos trabalhadores.

É necessário lutar também pela estatização, pela propriedade estatal da fábrica, sob nosso controle, pois uma fábrica do estado terá aceso a crédito nos bancos estatais e terá muito maior facilidade de estabelecer contato com fornecedores e compradores dos produtos.

2)Como organizar a produção?

Parte da educação que nós trabalhadores recebemos é que é necessário um patrão, um chefe, para organizar a produção, para dizer o que cada um deve fazer, para garantir que cada um faça sua parte bem feito.

O exemplo de Zanon mostra que não precisa ser assim. Lá os trabalhadores organizam a produção de forma democrática em assembleias, onde é decidido o que, como e quanto produzir. Os diferentes postos de trabalho são rotativos, cada trabalhador ocupando um posto por um determinado período e depois desse tempo ocupando outro posto, para que todos tenham a possibilidade de conhecer a fábrica como um todo.

Ou seja, assim como de forma democrática, em assembleia, decidimos se vamos fazer greve ou não, se aceitamos a proposta da patrão para voltar ou não, decidimos também em assembleias como produzir, o quanto, o que iremos fabricar.
Os que trabalham todo dia não precisam de ninguém mandando, dizendo como e o que fazer. Sabem isso por sua própria experiência.

Essas são apenas algumas propostas que nós do Esquerda Diário gostaríamos de debater com os companheiros da Mecano como resposta a crise da empresa que é parte da crise da industria no país. Nos propomos também a nos reunir com os companheiros para debater e explicar cada um dos pontos propostos.




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