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USP | "Me foi negado muitas coisas nessa vida, mas minha dignidade nunca será uma delas", denuncia trabalhadora da USP

Em agosto de 2021 uma trabalhadora da USP foi demitida sumariamente pela reitoria da universidade após um longo processo de adoecimento mental no local de trabalho.

sexta-feira 19 de novembro | Edição do dia

O Sintusp, Sindicato dos Trabalhadores da USP lançou um manifesto em defesa da trabalhadora que pode ser conferido aqui.

Reproduzimos seu comovente relato:

“Lembro como se fosse hoje, quando entrei na USP, como funcionária. Foram 2 anos de espera, fiz a prova do concurso grávida da minha filha. A lembrança do meu primeiro dia ainda está na minha mente. Entrando pelos corredores. Tinha medo de falar com as pessoas e não ser compreendida, afinal. Era uma jovem mulher de 25 anos, com apenas o 2º Grau completo (Ensino Médio) entrando na referência de ensino universitário do Brasil e da América Latina. Meus primeiros anos foram lindos, trabalhava com o que mais gostava na época, Tecnologia da Informação. Minha chefe imediata e outros analistas, naquele tempo, me ensinaram tanto. Não tenho como agradecer tanto aprendizado. Tinha um trabalho estratégico, Gestão de Custo em Telecom, eu abria os arquivos enormes, com as contas de todas as dezenas de milhares de ramais, linhas diretas, links de alta e baixa velocidade e as corrigia. No setor onde trabalhava, economizava para os cofres na USP cerca de 500 mil reais/mês. Além de ter feito parte da Equipe Técnica que fez a licitação dos serviços de telefonia da USP. Um edital de 150 milhões. Por toda essa contribuição, eu fui promovida duas vezes, no período da implementação do plano de carreira da USP, gestão Rodas.

Nessa mesma gestão, o CCE foi extinto do dia pra noite, o DI/RUSP absorvido pelo STI. Essa mudança não mexeu apenas comigo, naquela época, muitos funcionários adoeceram, pela forma que a Reitoria tratou o caso. O setor que tanto gostava foi extinto e o trabalho descontinuado.

Tentei me adequar à nova realidade, mas estava passando por uma separação de um casamento de 8 anos naquele período. Já começava meu adoecimento mental. Pedi transferência para a PRCEU em uma das suas unidades. Lá fazia um trabalho que me agradava muito, mas ainda não estava bem, desenvolvi uma dependência de álcool e usava drogas que prejudicavam meu desenvolvimento nas tarefas mais básicas, como ser mãe, e uma boa funcionária. Minha depressão foi se aprofundando de tal maneira, que passei a ter surtos psicóticos. Tive um desses surtos no meio do expediente, tive que ser resgatada pelos meus familiares. Fiquei muito tempo com adoecida. Nesse tempo fui transferida novamente. Eu tentava procurar médicos, psiquiatras, tratamentos, remédios, mas não conseguia melhorar.

Nessa mesma época, minha filha transicionou (hoje ela é uma adolescente trans saudável), foi uma batalha, pois tinha que dar suporte à ela, sem ter suporte para mim mesma. Ainda fiquei lutando contra o alcoolismo e a depressão por muito tempo. Nesse período que acumulei as faltas e atrasos. Soube quando li meu prontuário que tenho transtorno de personalidade limítrofe. De acordo com algumas literaturas, é uma condição para o resto da vida. Apesar de toda essa turbulência, nunca deixei de entregar o meu melhor nos trabalhos que me propus a fazer. Acúmulo elogios de todas as chefias que fui subordinada, incluindo a própria Profa. Maria Aparecida que me parabenizou pelo meu trabalho realizado durante a pandemia, a mesma que já havia me demitido por justa causa, sem que eu soubesse no momento que fez o elogio.

Antes de entrar na USP, eu já trabalhei de operadora de telemarketing, atendente de lanchonete, recepcionista, telefonista, técnica de suporte, até ambulante na rua vendendo brincos eu trabalhei. Não admito ser mandada embora dessa distinta Universidade com o título de preguiçosa. Essa é a última coisa que sou. Me foi negado muitas coisas nessa vida, mas minha dignidade nunca será uma delas.”

Nós do Esquerda Diário, juntamente com o Grupo de Mulheres Pão e Rosas, o Quilombo Vermelho e o Movimento Nossa Classe nos somamos à campanha pela sua reintegração imediata e colocamos nossas formas em sua defesa.




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