Cultura

TRIBUNA ABERTA

Mc Diguinho e a cultura do estupro

Após inúmeras manifestações de repúdio a música "Surubinha de Leve", de Mc Diguinho, as plataformas de streaming - Spotify, Deazer, Youtube - decidiram remover a música de seus portais. Não bastasse o repúdio a letra da canção, a resposta de seu autor ainda gerou mais revolta nas redes sociais, e expôs o centro da questão a naturalização de práticas de violência a mulher.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

sábado 20 de janeiro| Edição do dia

Nos últimos dias as redes sociais se encheram de manifestações contrárias a nova música de Mc Diguinho, o funk intitulado Surubinha de leve traz em si uma clara apologia ao estupro nos versos
“Taca a bebida
Depois taca a pica
E abandona na rua”
A polêmica foi tanta que no dia de ontem as plataformas de streaming Spotify, Deazer, e também o Youtube, decidiram retirar a música de seus portais, e o Mc Diguinho utilizou seu twitter para responder dizendo “Se a minha música faz apologia ao estupro, prazer sou o mais novo estuprador”. Para além do quão grave o Mc se reivindicar um estuprador, de forma irônica, é o fato de ele dizer que sua música relata sua realidade, porque, de fato, a letra relata uma realidade que acontece não apenas em locais periféricos onde nasce o funk, mas também em milhares de festas elitistas onde os homens embebedam a menina para poder pegá-la, o que sim, configura estupro.

É evidente que precisamos falar sobre a questão machista da música desde a forma como ele utiliza o termo “piranha”, até a apologia de estupro em si. Mas é importante não fazer uma análise elitista da letra, dando espaço para críticas oportunista quanto ao funk. O funk, enquanto gênero musical, se caracteriza pelas letras com linguagem explícita no tocante ao sexo, o que de forma nenhuma significa identificar ao funk posturas machistas. É importante defender o funk contra a criminalização que alguns setores querem promover.
O que se coloca mais central para a discussão é a naturalização do estupro a ponto de que em muitos locais para além dos círculos que discutem questões feministas: embebedar uma mulher para poder transar com ela não é estupro, ou então que quando a mulher aceita ficar bêbada ela aceita o que pode acontecer depois, numa clara culpabilização da vítima.
Ainda é preciso fazer textos dizendo que a culpa não é da mulher, e que situações como essa configuram estupro, sim, pois não se trata de algo que acontece apenas nos bailes que o Mc Diguinho frequenta, mas acontecem dentro de um sistema que se utiliza do machismo para continuar gerando lucro fazendo crer que a mulher é inferior a ponto de poder ser estuprada, e que por isso merece ganhar menos que os homens. O ato de embebedar uma mulher para transar com ela acontece em uma sociedade que há pouquíssimo tempo atrás interpretava que sexo anal não consentido não configurava estupro e que até hoje tenta desacreditar mulheres que foram estupradas ou violentadas dentro do casamento a prestar queixa em suas delegacias, inclusive nas tais delegacias da mulher. O que deve ser discutido é porque músicas como essa dizem tanto da realidade em que vivemos, como o sistema capitalista representado por grandes empresários e políticos coniventes se aproveita e se alimenta do machismo cotidiano, o que deve ser discutido é como só se pode vencer e derrotar completamente uma realidade que permite Mc Diguinhos bater no peito dizendo que são estupradores, sim, tendo como estratégia derrotar completamente o sistema capitalista que está intrínseca e inseparavelmente ao machismo, e todos os tipos de opressão que o ajuda a exercer sua exploração.




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