OPINIÃO

Mataram o ’Neguinho’?

Era sexta-feira, por volta de 5:45h da manhã, começando mais um dia de trabalho normal. Enquanto me troco no vestiário, dois colegas conversam entre si: mataram mesmo o neguinho? Mataram mano.

quarta-feira 9 de setembro de 2015| Edição do dia

E quando esses supérfluos têm coragem e paixão o suficiente para rebelar-se expressamente contra a sociedade, respondendo com a guerra aberta à guerra encoberta que a burguesia lhe move, atira-se ao roubo, à pilhagem e ao assassinato.”
A situação da classe operária na Inglaterra
– Friedrich Engels

Era sexta-feira, por volta de 5:45h da manhã, começando mais um dia de trabalho normal. Enquanto me troco no vestiário, dois colegas conversam entre si: mataram mesmo o neguinho? Mataram mano. Um terceiro pergunta: quem era esse moleque? E o outro responde: ele se trocava aqui no nosso corredor, ficava deitado ali (aponta para o banco de pedra) ouvindo funk, não lembra? Saiu faz uns dois meses. Não tenho tempo de me informar melhor, vou para o meu posto com o assunto na cabeça. Mais algumas conversas e vou descobrindo a história: morreu baleado pela polícia, numa tentativa de assalto, era cabaço, logo na primeira vez. Fico inquieto, não consigo lembrar quem era até a hora do almoço, quando uma colega mostra a foto no celular: reconheço seu rosto e a tristeza domina subitamente, seguro o choro. Um menino de 19 anos, negro, mais baixo e mais magro que eu, de boné e sem camisa, sorri com seu filho no colo.

Agora tudo faz sentido, lembro que eu mesmo fui um dos que o acalmou dois meses antes, quando subiu ao vestiário xingando geral e dizendo que ia pedir as contas. Estava bravo, se sentindo humilhado, pois o encarregado gritou com ele e de fato o humilhou na frente de várias pessoas. É um encarregado folgado, subiu de posto faz pouco tempo e o poder tomou conta da mente, todo mundo reclama dele. Agente acalma o neguinho e ele volta ao trabalho. Nesse mesmo dia, ainda pegamos ônibus junto, conversamos mais sobre o que aconteceu com ele, falei que era assédio moral, que não podia ficar acontecendo assim etc. Era um jovem inteligente, revoltado com o mundo, nos conhecemos e nos demos bem naquele dia. Dois dias depois, foi demitido e não tivemos mais contato.

De longe da para ver melhor

Como será sua família? Provavelmente não tem pai, será que sua mãe trabalha? Além do filho pequeno, será que tem irmãos? Quantas privações e humilhações sua família passou nesses dois meses desde que foi demitido? Quantas e quantas vezes essa história não deve ter se repetido? Alguns dados e um pouco de leitura ajudam a ver como o caso dele não é pontual. A própria Secretaria de Segurança Pública tem dados de que em 2014 a PM matou uma média de 2 pessoas por dia em São Paulo. Além disso, segundo o IBGE, em abril o desemprego teve o maior crescimento anual desde 2002, sendo que entre os jovens de 18 a 24 anos é o maior crescimento, chegando a 16,2% de desempregados.

No livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de 1845, Engels explica como o desemprego é um constante fator de desestabilização na vida dos trabalhadores: “O operário sabe que, se hoje possui alguma coisa, não depende dele conservá-la amanhã; sabe que o menor suspiro, o mais simples capricho do patrão, qualquer conjuntura comercial desfavorável podem lançá-lo no turbilhão do qual momentaneamente escapou e no qual é difícil, quase impossível, manter-se à tona. Sabe que se hoje tem meios para sobreviver, pode não os ter amanhã.” , depois ele explica como muitos são condenados a viver boa parte do tempo na condição de desempregado, tratados como “supérfluos” para a economia, tentam sobreviver vendendo coisas nas ruas. Em seguida, Engels mostra o movimento que atinge esses trabalhadores, “E quando esses supérfluos têm coragem e paixão o suficiente para rebelar-se expressamente contra a sociedade, respondendo com a guerra aberta à guerra encoberta que a burguesia lhe move, atira-se ao roubo, à pilhagem e ao assassinato.”.

Em busca da vingança definitiva

A sexta-feira que relatei foi há cerca de um mês, mas ainda tenho o rosto do neguinho na mente. Cada vez que lembro dele sinto dor e raiva. Nem tivemos tempo de ficar amigos, não sei porque sua morte me incomoda tanto, talvez seja porque eu vi nos seus olhos como era um jovem cheio de vida, que se interessou pelas coisas que falei. Talvez seja porque eu sei que, no final das contas, a sociedade que deixa um pai ver seu filho sem alimento é que é a verdadeira culpada, ele não queria roubar, trabalhava na mesma empresa que eu, só queria ser respeitado feito gente no seu local de trabalho! Se eu ainda pudesse conversar com ele diria que a minha vida se dedica a vinga-lo, assim como a todos os outros que foram tomados pelo desespero, humilhação e privações e empurrados para a morte certa. A única vingança definitiva que posso buscar é a completa transformação dessa sociedade, para que todos possam trabalhar com dignidade, alimentar suas famílias e viver uma vida inteira!




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