Sociedade

CHACINA DE SEM-TERRAS NO PARÁ

Massacre dos sem-terra no Pará foi uma festa para a polícia

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, uma testemunha, sobrevivente do massacre feito pela polícia que deixou dez sem-terras mortos em Pau d'Arco, no Pará, conta como os policiais executaram friamente por duas horas os camponeses rendidos e depois comemoraram e deram risadas. A testemunha confirma que não houve nenhum confronto, mas sim um massacre. “Eram todos agriculturores lutando por um pedaço de terra”, disse uma parente de uma das vítimas durante o enterro.

Fernando Pardal

@fepardal

sábado 27 de maio| Edição do dia

(Foto: Avener Prado/FolhaPress)

A Folha afirmou ter obtido com anonimato e exclusividade o testemunho do sobrevivente, que foi encaminhado ao serviço de proteção às testemunhas. Seu depoimento contradiz completamente a versão oficial da Secretaria de Segurança Pública, e que foi repetido como se fosse a absoluta verdade pelos meios midiáticos durante os últimos dias, de que os policiais teriam reagido a disparos feitos contra eles, e no confronto teriam morrido os dez sem-terra. Nenhum policial, contudo, foi ferido.

O sobrevivente diz que eles possuíam armas no acampamento (quem não teria sabendo que o que a polícia fez ali não é nenhuma “exceção”, mas sim a regra da atuação do Estado brasileiro nas zonas de conflito no campo), mas não houve resistência. Todos os indícios comprovam seu testemunho, indicando ausência de qualquer conflito, como concordou o presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Darci Frigo, que foi até a região do crime.

O sobrevivente contou em detalhes a ação policial. Eles chegaram ao local, a fazenda Santa Lúcia, por volta das 7h. Os 28 camponeses que estavam no local se dispersaram correndo, permanecendo em um matagal cobertos por uma lona para se proteger da chuva. Quando os policiais os localizara, começaram a disparar em sua direção. Ele correu e conseguiu se esconder a aproximadamente 70 metros do local, e tudo o que pôde fazer dali foi ouvir o brutal massacre de seus companheiros. Eram xingamentos e agressões, seguidos pelos disparos que executavam a pessoa rendida pela polícia. Ele afirmou que às vezes os policiais perguntavam, antes da execução: “Vira pra cá, vagabundo! Cadê os outros?” Foram duas horas dessa tortura, ouvindo as vítimas do massacre serem executadas, uma após a outra. No fim de tudo, com os dez já executados, ele ouviu “gritos e gargalhadas, como se estivessem festejando”.

Há outros sobreviventes, pelo menos três, sendo um ferido com um tiro na nádega. A solicitação de proteção feita à Polícia Federal pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual sequer havia sido respondida, de acordo com a Folha, até sexta-feira, 26, mesmo sendo evidente o risco de vida que correm. O homem ferido e sua mulher prestaram depoimentos também à polícia, mas à reportagem do jornal Folha a Secretaria de Segurança Pública (a mesma que repete a versão dos policiais à exaustão) disse que o conteúdo do depoimento é sigiloso. Vale lembrar que os corpos das vítimas foram removidos do local pela polícia civil e militar antes de qualquer perícia, numa clara tentativa de inviabilizar a investigação sobre os crimes.

A 21 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, no mesmo estado do Pará, onde 21 sem-terras foram brutalmente executados, a brutalidade do Estado brasileiro a serviço dos latifundiários e do agronegócio segue viva e impune. Não podemos nos calar.




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