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BOLÍVIA

Massacre de Senkata: “Queriam levar os corpos para fazê-los desaparecer”

Dia 19 de janeiro completou-se dois meses do massacre de Senkata. As provas indicam que o Governo golpista de Jeanine Áñez buscou ocultar o uso de armas de guerra por parte das forças repressivas, e que quiseram evitar que sobreviva registros dos assassinados.

terça-feira 21 de janeiro| Edição do dia

O caixão branco ficou no meio da avenida, com um dos jovens mortos no massacre de Senkata dentro. O cortejo fúnebre foi reprimido com balas e gases quando chegava na Plaza Murillo [espaço onde ficam os principais edifícios públicos] de La Paz, quem carregava o caixão tiveram que o abandonar e essa imagem recorreu o mundo como símbolo do selvagem terrorismo estatal que o Governo golpista empregou contra o povo indígena na Bolívia. O jovem morto era Antonio Ronal Quispe Ticona, de 24 anos, que em 19 de novembro saiu para trabalhar para levantar pedidos de entrega pela zona de Senkata. Quando começaram a metralhar de um helicóptero a multidão, Ronal protegeu com seu corpo as pessoas feridas que estavam no chão e foi atingido por uma bala. A família descobriu pela difusão de sua foto nas redes sociais. Seu corpo junto aos demais foi levado à igreja de Senkata, e ali mesmo se realizou a autópsia. A família Quispe Ticona não foi permitida de presenciar o procedimento, mas um parente entrou e filmou.

Segundo o que pode observar, os médicos manipularam o projétil extraído do cadáver. E assim denunciou para a delegação argentina de organismos de direitos humanos que viajou em dezembro e a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos). A família jamais recebeu notificação de algum tribunal ou procuradoria que tenha investigado o assassinato.

Mercedes Quispe Ticona tem 36 anos, vive em Buenos Aires e é enfermeira. “Como irmã mais velha de Ronal eu era sua segunda mãe, ele sempre foi meu bebê.

Quando ele era pequeno eu o levava ao jardim e à escola… agora somos dois homens e três mulheres, antes éramos seis”. Ela viveu a repressão do cortejo fúnebre e a filmou. É uma das provas que levou à CIDH quando recolheu testemunhos das vítimas do massacre em El Alto. “Na Bolívia há pessoas desaparecidas, só espero que as evidências delas não desapareçam”, expressa no diálogo com o Esquerda Diário. Seu temor é tal que pede para não mencionar os nomes dos familiares que estão lá. “Com o Governo corrupto de lá não se pode fazer nada, estão grampeando ligações, hackeando celulares e baixando dados”, explica.
Faz dois meses que começou um matadouro onde as vítimas da repressão do Governo de Áñez foram invisibilizadas, ignoradas e difamadas, onde nada funcionava, não havia médicos nem advogados a quem recorrer e só se podia colocar suas esperanças de ser escutados pela imprensa estrangeira. De volta a Argentina, Mercedes segue exigindo justiça com a mesma veemência.

“Foi iniciativa minha que estudará, ele sonhava com ser militar”, disse sem reparar no paradoxo. “Minha mãe é costureira, meu pai es taxista. Minha irmã e eu temos nossas famílias. Minha irmã menor estuda, e o irmão menor de Ronal eu trouxe para estudar aqui”. O outro irmão trabalha igual a Ronal, que era empregado em uma discoteca. “Quando aconteceu seu assassinato estava aqui, me mandaram uma foto, eu o reconheci e viajei em seguida com meu irmãozinho menor. Antes vivíamos na parte de baixo, na cidade, mas depois nos mudamos para El Alto. Ele almoçou com minha mãe, e disse que teria que cobrar seu salário e se foi, mas nunca voltou”, lembra com a voz partida pela dor.

“Quando eles estavam chorando um senhor se aproximou da minha família e disse a eles que esse jovem havia salvado sua vida, segundo indicou o projétil estava indo em sua direção e meu irmão o protegeu. Nós ficamos muito impactados”. Ronal tentou ajudar esse homem, ferido por uma granada de gás, e foi nesse momento quando foi atingido pelo disparo mortal.

Assim que chegou a La Paz, Mercedes foi caminhando até Senkata, queriam chegar ao velório que se realizava na capela da paróquia de São Francisco de Assis. “Não se podia ir de carro, estava tudo bloqueado. Na avenida 6 de Março os militares estavam colocados para impedir que filmassemos. Com meu irmão menor tivemos medo, rezamos, era incrível o que ocorria em nosso país.

Ao chegar na igreja havia sete caixões, aí nos comentaram sobre a autópsia que foi a tarde, tenho os vídeos com tudo o que fizeram. Me senti muito impotente, como trabalho com saúde sei que não tinham nenhum elemento para realizá-la. Queriam levar os corpos para fazê-los desaparecer, como tantos outros”. Segundo pode reconstruir esta jornalista, os projéteis que mostraram aos familiares das vítimas eram pequenos e os sobreviventes haviam coletado capsúlas de fuzís Fal, de maior tamanho e de uso militar.

Por que retiveram o corpo?

Supostamente enviaram ao Governo, mas se iam a fazer esse trabalho teriam que ter o necessário, nem luvas eles levaram, pegaram tudo no momento, não eram profissionais. No vídeo dá para ver que na parte do cérebro começam a apalpar o objeto que entrou. Se dão conta de que tamanho era, e depois eles viram e tapam a câmera. O que o legista escreveu depois no certificado médico não coincidia com os fatos. E por cima valia só 24 horas, você vai acreditar em mim se eu disser que não encontrei nem um advogado civil. Quando tive um, trabalhou a portas fechadas e me disse que o sistema estava manipulado, o computador redigia sozinho. Não se podia colocar os dados da persona falecida, era para faze-los desaparecer. Esperamos três horas para conseguir.

O que você fez depois?

Fui filmar à luz do dia tudo o que aconteceu na avenida, as marcas dos projéteis vistas pelas pessoas nas defensas de cimento, que demonstravam que as balas vieram de cima, que fuzilaram do helicóptero. Toda a avenida parecia como si estivéssemos em guerra. Você não pode dizer que uma menina de 12 anos era terrorista, as senhoras de saia não carregam armas.

O que aconteceu durante o funeral que não poderia acontecer?

Cada família queria levar seus parentes para então enterrá-los, vinham da igreja de São Francisco com os vizinhos e os intimidaram, eles jogaram gás, queriam remover os caixões. Foi um dia traumático porque eu estava acima assinando os papéis da funerária, e me avisaram que minha família não estava. Então me disseram que os levaram numa ambulância. Nesse momento vejo na rua as pessoa correndo, no meio disso me fui buscar minha família, uma moto estava me seguindo, comecei a correr, não sei de onde tirei a força. Alguns caixões caíram na rua, entre eles o branco que aparece nas imagens, que levava meu irmão, outros subiram num tanque.

Aconteceu que havia pessoas infiltradas na procissão, que terminaram agredindo os vizinhos, havia crianças e gente de terceira idade que acompanhava às famílias. Não se importaram com nada. Minha mãe no final estava com o caixão, meu pai tinha um golpe na cabeça. E meu irmãozinho encontrei num hospital, estava inconsciente.

O que ocorreu nos hospitais?

Vieram buscar os feridos perguntando se estavam na marcha. Eu perguntei de que marcha falavam, e se foram. Se ele não estivesse lá, certamente o levariam embora e o faria desaparecer. Por isso os feridos se escapavam do hospital, para que não os levassem embora. Se você pensa diferente todos dizem que é do partido de Evo Morales, do MAS. Nós não tínhamos nada a ver com a política. Eles tinham capacetes e coletes à prova de balas, mas não usavam uniforme. E alguns médicos não queriam atender os feridos porque diziam que eram do MAS.

Por que escolheram um caixão branco?

Os solteiros costumam ter o branco, Ronal não tinha família própria, nós que choramos por ele.

Qual é a sua expectativa?

Que uma organização internacional intervenha porque nossa política não funciona lá. Está tudo mal. Uma presidenta transitória só devia trazer paz e eleições para pacificar. Mas começou a fazer decretos, a dar ordens para nos matar, nem sequer aos animais se tratam dessa maneira. Quero que se faça justiça para todos os familiares, para as pessoas que foram levadas para dentro do quartel de Senkata e desapareceram. Havia uma testemunha mulher, eu tenho ela filmada, espero que esteja bem. Com tudo o que vi, não confio em nada, por isso pus nas mãos da CIDH todas as provas. Minha família está lá à deriva, sem garantias de nada.

Evo Morales poderia pacificar o país?

Nunca fui do seu partido, como jovem creio que viria bem uma pessoa que proponha outra coisa. Que haja um partido novo, eu fui embora quando foi o golpe de (Gonzalo) Sánchez de Lozada porque meus pais não tinham trabalho e eu queria continuar estudando, assim não quero nem Mesa (que é desse mesmo partido), nem o MAS. Ainda menos este grupo que está agora adentro, todos cometeram seus erros. Fui embora mas meu país nunca saiu de meu coração.




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