Teoria

A REVOLUÇÃO E O NEGRO

Marxismo e movimento negro: ruídos de comunicação?

Qual foi a relação do marxismo com o movimento negro no Brasil? Por que capitalismo e racismo se realimentam mutuamente? Confiram essas e outras questões em novo livro sobre o tema.

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 12 de fevereiro de 2016| Edição do dia

O capitalismo é inseparável da opressão racial, tanto que o racismo se converteu em uma necessidade e, portanto, um elemento estrutural desse modo de produção desde seus primórdios. O racismo não ficou para trás, por exemplo, vinculado apenas àquele momento mais explicitamente escravagista [tráfico, comércio e exploração direta, como sistema] dos países capitalistas; na verdade, por mais que a ideologia dominante veicule o contrário, estamos diante de um problema candente também nos dias de hoje. A esse respeito queremos nos remeter para um livro recém-lançado que, na nossa perspectiva, coloca muito bem, de forma classista e contemporânea, a questão negra A revolução e o negro, das Edições Iskra.

Partimos do ponto de vista de que extinguir o racismo é inviável nos marcos de uma sociedade produtora de mercadorias. Há graus de espoliação na sociedade burguesa e precisamente os oprimidos em geral captam com mais sensibilidade o reino do preconceito racista no nosso mundo. Negros, imigrantes, mulheres, povos oprimidos, os setores mais fragilizados [a exemplo de idosos e crianças] compõem uma multidão, nos marcos da opressão, que, adotando uma perspectiva de classe, podem e devem tomar posição de combate contra o racismo.

Ao mesmo tempo, é nessa esfera, da luta política dos trabalhadores contra o jugo do capital, que se coloca a ferramenta teórica do marxismo. Por sua condição de teoria da revolução proletária, o mais lógico a se esperar seria o alinhamento do marxismo com a luta contra o racismo. Sempre.

E foi precisamente o que ocorreu com o marxismo clássico, de Lenin e Trotski, de Rosa Luxemburgo, século passado, quando as forças revolucionárias que cerraram fileiras na defesa do oprimido, também levantaram como sua a bandeira do oprimido como gênero, pela cor da pele, pela nacionalidade etc.

No entanto, é forçoso reconhecer que, historicamente, houve uma descontinuidade em relação àquele marxismo verdadeiramente revolucionário. Um ruído e um desvio: a relação do marxismo, ao ser stalinizado [deformado e mutilado] trouxe marcas – muitas das quais continuam - que devem ser denunciadas e discutidas abertamente para que se possa avançar na necessária relação marxismo/movimento negro, uma posição que, em determinado momento histórico se desvaneceu, se deformou em outra perspectiva onde se perdia o elemento classista nos marcos da luta antirracista.

Tanto foi assim, historicamente, citando aquele livro:

“hoje em dia, em vários setores do movimento negro, o marxismo é associado a uma posição mecânica em relação à questão negra. Em grande medida isso se dá porque as direções stalinistas traíram os processos de luta de classes em países onde houve luta contra opressão imperialista e situações revolucionárias.

O stalinismo afastou o povo negro do marxismo, contribuindo assim para que aqueles que honestamente dedicaram suas vidas ao combate ao racismo, na grande maioria das vezes o fizessem completamente órfãos de uma estratégia, programa e direção revolucionários e, portanto, sob a condução de direções que traíram, desviaram e derrotaram toda a disposição de luta contra o racismo que se expressaram genuinamente em vários países ao longo da história. Muitas destas lutas foram orientadas por visões de mundo diferentes, algumas vezes tributárias da ideologia dominante no sentido de negarem a centralidade do combate entre as classes para combater o racismo.

O continente africano foi dominado pela espoliação colonial durante séculos, e as lutas anticoloniais resultaram na conquista da independência politica, mas não conseguiram avançar até a tomada do poder politico pelo proletariado africano, mantendo estes países sob o jugo da exploração capitalista apesar de todo o heroísmo que demonstraram as massas africanas na luta pela sua libertação. Neste momento, permeado pela abertura de uma nova etapa da luta de classes internacional no pós-segunda guerra mundial, pela divisão mundial entre os blocos de países ligados aos Estados Unidos e à URSS, o stalinismo sai fortalecido e ganha peso na direção de processos de luta anticolonial. Sua estratégia, ao contrário de transformar a URSS em uma alavanca para o desencadeamento de processos revolucionários em escala internacional e mundial, buscava acordos de convivência com os Estados Unidos e a burguesia imperialista, selados nos acordos de Yalta e Potsdam. Essa estratégia cobrou um preço altíssimo. Eva Guerrero e Gustavo Dunga apontam:

As lutas anticoloniais do segundo pós-guerra conduziram à independência formal de toda África. Era a época da decadência dos impérios britânicos, francês e belga e a emergência indisputável da nova potencia EUA. Mas as revoluções anticoloniais ficaram congeladas por estar dirigidas por nacionalistas burgueses (Egito, Argélia e Sudão) ou por direções stalinistas como as de Moçambique e Angola e retrocederam até chegar à situação atual na qual estes países são novamente -semicolônias imperialistas e afundam sob a exploração direta dos monopólios imperialistas, sob o fardo das dividas externas, sob a imposição de ditaduras sangrentas que garantem essa rapina (como na Nigéria), guerras tribais alimentadas por distintas potencias imperialistas (Ruanda, Libéria, etc)(1).

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi tributário durante décadas da teoria da democracia racial, negando-se a entender as demandas negras como parte fundamental de um programa para a revolução brasileira. Em um país como o Brasil, onde a questão negra e a escravização a que foram submetidos os negros tem um peso determinante na formação econômica, social, politica e cultural do país, a burguesia brasileira teve que lançar mão da teoria da democracia racial (e a estratégia de conciliação de classes embutida nesta teoria) para manter sua dominação negando a existência do racismo como um aspecto estruturante de toda a sociedade.

Até a década de 1960 o PCB dirigia a maioria dos sindicatos, mas já havia consolidado sua aliança estratégica com a burguesia nacional. Acabou por trair completamente o processo revolucionário de 1964, no qual os negros estavam à frente dos processos mais avançados da luta de classes, como a luta pela terra levada adiante pelas Ligas Camponesas e a rebelião dos marinheiros, enorme exemplo de independência de classe e auto-organização, semanas antes do golpe militar”.

Hoje se coloca a imperiosa necessidade da superação daquele grave desvio e degradação do marxismo revolucionário, que assumiu, na verdade, uma forma ou uma ideologia de colaboração de classes, no formato stalinista. A superação deve ser levada adiante na luta e no balanço das experiências políticas recentes, vividas. Na análise daquele livro acima citado:

“No Brasil, enquanto escrevemos esse artigo as negras e negros fazem uma profunda experiência com 13 anos de governo do PT e veem cair a máscara de um partido que se propôs a ser o porta-voz dos setores oprimidos, aprovando em 2010 o Estatuto da Igualdade Racial, mas que mantém neste país a completa desigualdade entre negros e brancos, onde os primeiros ocupam a esmagadora maioria dos trabalhos precários, das estatísticas das chacinas policiais e das prisões. Enquanto os haitianos fogem da morte e da fome buscando abrigo no Brasil, o governo brasileiro lidera desde 2004 a vergonhosa ocupação militar realizada pelas tropas da ONU neste país, colocando como uma tarefa fundamental dos negros brasileiros a solidariedade incondicional a todos os imigrantes haitianos e exigindo a imediata retirada das tropas brasileiras e da ONU do Haiti.

Felizmente neste processo de experiência vem se forjando uma vanguarda de trabalhadores negros que estão encabeçando distintos processos de luta, como a greve dos garis no ano de 2013, combatendo com os métodos da luta de classes a condição precária a que são submetidos os negros no país do mito da democracia racial”.

Atualmente, como está bem formulado naquele livro, “Travar um combate consequente contra o racismo significa batalhar para que as organizações da classe operária e seus sindicatos assumam as demandas dos negros como parte integrante e fundamental de seu programa de reivindicações, superar a separação que ocorreu historicamente entre as demandas econômicas e as demandas políticas e priorizar a defesa dos setores mais oprimidos dentro da própria classe operária.

Parte deste combate passa por superar a divisão no seio da própria classe trabalhadora entre brancos e negros e, para isso, assumir um programa que levante a igualdade de direitos e salários entre trabalhadores brancos e negros, a efetivação dos trabalhadores terceirizados sem a necessidade de concurso público, assim como a igualdade de todos os direitos civis, o fim das chacinas policiais, o fim da perseguição religiosa e cultura de matrizes negras.

Este combate é parte de uma estratégia para que os trabalhadores assumam em suas mãos a defesa de todos os setores oprimidos da sociedade, pois são a única classe capaz de usar sua localização estratégica, centros nervosos da produção e circulação de mercadorias, para arrancar das mãos da burguesia o poder.

Uma estratégia revolucionária passa por construir um programa de completa independência de classe frente à burguesia nacional e internacional e a todas as suas instituições, que tenha como objetivo a tomada do poder politico, para que seja o proletariado, organizado no poder, o sujeito da organização de uma nova sociedade, sob os escombros da atual”.

Precisamente. Assim como estas, outras ideias-força compõem o livro aqui citado. Enfatizamos sua leitura que permitirá ao leitor confirmar por conta própria como o marxismo pode ser uma ferramenta fundamental para entender profundamente o continente africano.

O livro traz um texto especificamente sobre a África, continente que estará sempre presente nos demais documentos. Por outro lado, os artigos do livro combinam análises mais gerais e abrangentes, como “Imperialismo e África” e “Quando surgiu o preconceito contra o negro”, com discussões mais focadas em desafios importantes da luta de classes, como aquele de uma posição classista e antirracista em relação à II Guerra (Por que os negros devem se opor à guerra).

Recomendamos enfaticamente a leitura do livro [do qual extraímos as citações acima], até como forma de armarmos o combate prático, político, mas também ideológico, contra as posições da patronal e da elite burguesa que seguem com sua lenda urbana da igualdade racial nos marcos do capitalismo.

Referências do livro, das Edições Iskra: A revolução e o negro [Textos do trotskismo sobre a questão negra], CLR James, Leon Trotski, G Breitman, São Paulo, 2015,

1.- Eva Guerrero e Gustavo Dunga, La cuestión em Estados Unidos hoy. Revista Estratégia Internacional n° 6.




Tópicos relacionados

História do povo negro   /    Movimento Negro   /    Teoria   /    Negr@s

Comentários

Comentar