Teoria

INCÊNDIO EM SANTOS

Marxismo, capitalismo e devastação ambiental

À guisa de breve reflexão teórica em torno do desastre ambiental dos tanques de combustíveis da Ultracargo em Santos

Gilson Dantas

Brasília

sábado 11 de abril de 2015| Edição do dia

FOTO: EFE

O grave problema da devastação e contaminação ambiental provocado pelo incêndio nos tanques de combustíveis da Ultracargo, em Santos, nos remete a uma reflexão sobre a questão ambiental.

Naturalmente a grande mídia tende a encarar esse desastre como um problema puramente técnico-científico; como se fosse um desastre na esfera técnico-industrial, criado por alguma disfunção ou falha essencialmente técnico-industrial.

Não é essa a maneira como o marxismo encara problemas como esse.

A abordagem marxista parte do pressuposto de que problemas ambientais derivam do sistema social. É desta esfera, das relações sociais e da sociedade com a natureza que é engendrado um problema da gravidade ambiental do que está ocorrendo em Santos. Neste caso, ele emerge das relações intrínsecas à forma de produção capitalista, sendo característica fundante deste sistema, a de que o trabalhador é assalariado do capital e, portanto, não é sujeito da produção; esta, dentro da lógica capitalista, é apropriada pela classe possuidora e voltada fundamentalmente para o lucro.

Este elemento de fratura social estabelece uma conflituosa relação metabólica entre sociedade e natureza. Nos marcos da qual o objetivo da produção, da técnica, passa longe de qualquer critério cientifico que busque harmonizar a relação entre a sociedade e a natureza.

Marx vê a ciência e o desenvolvimento da técnica como um avanço e um ganho para o ser humano, no entanto, dialeticamente, não vê a ciência nas mãos do capital como solução do ponto de vista da sociedade (em sua relação com a natureza) e sim como algo subordinado ao objetivo – hoje mais claramente destrutivo que nunca – do capital.

Para o capitalista, o funcionamento da fábrica, o armazenamento de combustíveis, como nos tanques em Santos, não passa de mera aplicação racional e científica do conhecimento. Marx não concebe essa neutralidade científica nos marcos do capital. Na sua obra os Grundisse (Elementos fundamentais para a crítica da economia política) ele argumenta sem meias palavras que:

Quanto mais um país como os Estados Unidos da América, por exemplo, partir da grande indústria como base para o seu desenvolvimento, tanto mais rápido será o processo de destruição. Nesse sentido, a produção capitalista somente desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social na mesma medida em que destrói as fontes de toda a riqueza: a terra e os trabalhadores.

O mesmo capital que constrói, também destrói e devasta – de forma ecocida e, portanto, desumana – uma vez que age invariavelmente em função do seu objetivo central, o de valorizar-se. É da sua natureza: seu objetivo é a acumulação e não o progresso ou ganhos científicos para os trabalhadores. Estes são meios para o lucro. O planejamento daqueles tanques de combustível, a estrutura toda integra essa lógica. Também é assim com a medicina, com a engenharia e com tudo que é tocado pelo capital.

Ali, onde não existe a democracia do trabalho, do chão de fábrica, do governo dos trabalhadores, sempre vão ser selecionadas da ciência e da tecnologia aquelas opções que permitam maior acumulação do capital, a seleção será a mais conveniente para o sistema de exploração. Será um desenvolvimento onde a tecnologia será sociomorfa, será variável dependente do lucro. E não da saúde ambiental, coletiva e social.

É certo que ciência e tecnologia revolucionaram a vida, transformaram radicalmente nossa relação com a natureza, no entanto, sendo a produção, a socialização e a formatação da tecnologia subordinados ao capital e não aos produtores, à classe operária, não existe a menor perspectiva de desenvolvimento sustentável. Nem nada parecido com “capitalismo verde” ou “ecológico”.

Pretender conciliar ambientalismo com capitalismo é imaginar uma coisa que jamais existiu: um capitalismo não-predatório, capaz de um desenvolvimento auto-sustentável em relação aos recursos ambientais. Ou um capitalismo que não seja produtivista (produção pela produção), que não persiga o valor de troca, a acumulação do capital. Marx considerava que na perspectiva comunista, de uma sociedade controlada pelos produtores, “a propriedade privada do planeta nas mãos de indivíduos isolados parecerá tão absurda como a propriedade privada de um homem nas mãos de outro. Nem sequer toda a sociedade, uma nação, mais ainda, todas as sociedades contemporâneas juntas são proprietárias da Terra. Somente são seus possuidores, dela usufruem, e devem melhorá-la, como boni patres familias, para as gerações futuras”.

É impossível entender a crise ambiental sem partir da compreensão da dinâmica econômica e social da sociedade capitalista. É como imaginar, no argumento de Guillermo Foladori, o absurdo de que numa sociedade de pombos um grupo deles se encarregasse de tirar as asas dos que nascem para deixá-los impossibilitados de acessar os meios de vida. Ou como se um grupo de gatos se encarregasse de mutilar as garras de outros grupos, deixando-os indefesos frente ao meio ambiente; nesta imagem, as relações sociais se sobrepõem às relações ecológicas; no caso da sociedade humana, a conclusão é que não se pode imaginar ecologia humana que nao seja ecologia política.

A linha de raciocínio essencial de Marx, portanto, nada tem a ver com qualquer tipo de pensamento ecocida, da produção pela produção e nem com qualquer espécie de lógica instrumental antropocêntrica. Esta lógica é típica da burocracia, da cultura burguesa.

A verdade é justamente outra: o pensamento sociológico de Karl Marx é coerente com a ideia de relações ambientalmente integradas entre a sociedade e a natureza. Para isso, ele demonstra em sua obra, que a alienação dos homens em relação à natureza deriva das relações de alienação dos homens entre si. A ecologia não pode ser analisada fora deste marco.

Portanto, desastres ambientais graves, como o do incêndio dos tanques de combustíveis no litoral de São Paulo neste momento, jamais poderão ser entendidos por fora da lógica de que a produção deve ser controlada e planejada pelos próprios trabalhadores, a partir da expropriação dos meios de produção.




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