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Marxismo, Gênero e Questões raciais: A importância do pensamento de Mariátegui

No III Seminário promovido pelo Grupo de Estudos História e Marxismo da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) com o tema “Marxismo, Gênero e Questões Raciais” a palestrante Danilla Aguiar – colaboradora do Esquerda Diário – a partir das elaborações teóricas do marxista peruano José Carlos Mariátegui chamou atenção para o pouco contato acadêmico com os autores latino-americanos em geral e marxistas em particular.

segunda-feira 17 de outubro| Edição do dia

Numa instituição como a universidade o eurocêntrismo é moeda comum e isso afasta autores malditos como os marxistas revolucionários latino-americanos, neste caso Mariátegui até o próprio Trotsky, os quais de fato acabam sendo banidos na academia.

Isto também é possível porque as visões hegemônicas no marxismo durante o século passado também foram eurocêntricas seja na sua versão stalisnista como na socialdemocrata.

O evento que trouxe a luz diversos autores no campo do marxismo sobre as temáticas de Gênero e Questões Raciais, no seu dia segundo dia, organizou uma mesa composta por três palestrantes, Danilla Aguiar, também integrante de Práxis. Grupo de Estudos sobre Estado e Luta de Classes na América Latina da UFCG que discorreu sobre a relação entre os conceitos raça e classe a partir da perspectiva do teórico peruano José Carlos Mariátegui, Nívia Pereira professora de Serviço Social na Universidade Federal de Paraíba (UFPB) que focou sua exposição na questão de gênero, mais precisamente sobre o feminismo materialista e Élio Chaves, professor de História na UFPB que expôs sobre marxismo negro e africanista. Importante ressaltar na fala dos três o destaque para a relevância dos estudos marxistas como resistência coletiva ante o momento político que vivemos no Brasil.

Em sua fala, Danilla Aguiar apontou para a colonialidade do poder que existe, levando em consideração a visão eurocêntrica com seu viés de dependência financeira e teórica, inclusive e principalmente pela falta de estudo dos teóricos latino-americanos nas nossas universidades e muito menos os marxistas revolucionários.

Dando continuidade a sua exposição, a palestrante apresentou o peruano José Carlos Mariátegui (1894 a 1930) como importante teórico marxista latino-americano, periodista e militante, referência no estudo socioeconômicos do Peru e da especificidade do socialismo latino-americano do ponto de vista marxista.

Danilla, em sua fala, traçou aspectos da vida de Mariátegui e a construção de sua perspectiva teórico-política, como o exílio na Itália entre 1918 e 1923, momento crucial no sentido de marcar sua dialética nacional e internacional, pois teve contato com o sindicalismo revolucionário e movimento operário nas organizações sindicais e partidárias. Nesse período mantém contato com o marxismo e participou do Congresso de Livorno, em janeiro de 1921, quando foi fundado o Partido Comunista Italiano.

Ao retornar do exílio, Mariátegui participou da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) junto com Raúl Haya de la Torre, em quanto está se apresentava como uma frente única anti-imperialista, quando de la Torre pretende transformar esta frente única num partido ele se desvinculou, visto que era contrário aos acordos que a mesma fez com frações da burguesia. Desta forma fundou o Partido Socialista Peruano (PSP) em 1928 que se filiará a Internacional Comunista (IC) e funda também a Central General dos Trabalhadores de Péru (CGT-P). Mariátegui lança a Revista Amauta, que significa sábio ou mestre em quíchua, tendo em vista sua preocupação com a difusão cultural e envolvimento político das massas.

Em seus Sete Ensaios de interpretação da realidade peruana analisou a formação econômico-social do pais, em termos leninistas realiza uma análise concreto da situação concreta e estuda o desenvolvimento econômico, político e a questão agrária do Peru, marcada pela presença dos povos originários, contribuindo para a crítica marxista ao conceito eurocêntrico de raça. Mariátegui segue uma terceira via no trato da questão indigenista ao defender a resistência das comunidades e o acesso à terra, considerando que os demais debates de sua época giravam em torno de duas correntes teóricas, o da direita ilustrada, a qual centrava o debate indigenista sob o viés da moralização e catequização dos índios, bem como do oficialismo que representava uma política indígena governamental e discursivamente “progressista” que logo se transformou em repressão.

Sendo assim, Danilla Aguiar conclui sua fala apontando para as inúmeras contribuições de Mariátegui na análise da formação econômico-social latino-americana ao aliar socialismo e indigenismo, representando uma defesa de hegemonia da classe trabalhadora mas incorporando ao conjunto dos setores explorados e subalternos da sociedade peruana, incorporando a questão “indígena” na suas demandas no marco do que constituiria uma aliança operário-camponesa-indígena. Mariátegui também deixa um legado sobre educação, política e cultura impulsionando a unidade latino-americana no combate ao imperialismo numa perspectiva socialista.

Dando continuidade ao evento, Nívia Pereira (UFPB) discorreu sobre a importância do materialismo nos estudos do feminismo no Brasil, tendo em vista as raízes significativas da escravatura na economia e política. Nessa perspectiva, a palestrante apontou para a abordagem dialética das relações sociais da questão de raça, ligando-a com a escravidão, patriarcalismo e capitalismo, indicando também que a resistência da classe trabalhadora tem cor e sexo, principalmente da mulher negra.

A mesma encerrou sua palestra apontando a contribuição do marxismo na análise do patriarcado, da dicotomia entre esfera pública e privada burguesa e da importância do recorte de gênero, de raça e de classe social, enfatizando que o rompimento do patriarcado só poderá ser feito a partir de uma teoria social crítica.

O terceiro palestrante, Élio Chaves (UFPB) dissertou acerca do marxismo negro e africanista, ressaltando a perspectiva teórica e militante de Amílcar Lopes Cabral (1924 a 1973), marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, que trouxe contribuições na análise da luta de classes sob a perspectiva colonialista bem como na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde através da do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), partido que fundou e liderou.

Esse evento, como outros que têm sido realizados pelo Grupo de Estudos História e Marxismo, com a participação de Praxis. Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Estado e Luta de Classes na América Latina, bem como pelo Esquerda Diário na Universidade Federal de Campina Grande, são fundamentais desde uma visão ofensiva do marxismo apresentando um vasto leque de teóricos marxistas que escreveram e debateram os mais variados temas, destacando a atualidade, relevância e vigorosidade do pensamento inspirado em Karl Marx e Friedrich Engels num momento de crise orgânica do capitalismo mundial e no Brasil.

Especialmente nessa conjuntura de crescimento da direita no ambiente político e acadêmico. Mas quando se abrem grandes perspectivas para as lutas sociais anticapitalistas, como as da juventude, é muito importante retomar estas contribuições trazendo para a análise do cenário político atual e de como intervir na luta de classes, no sentido de construir uma sociedade nova sem explorados, nem exploradores, e para isso a necessidade da construção de partidos revolucionários a nível nacional e internacional, que para nós é a IV Internacional.




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