200 anos de Karl Marx /

Marx: um comunista para o nosso tempo? [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 5 de março| Edição do dia

Portanto, o que é o comunismo? Um movimento “do real”.
Mas, ao mesmo tempo, um objetivo consciente. O objetivo de conduzir, conscientemente, esse movimento elementar e da luta de classes para adiante, como consciência social.

Ou seja, o primeiro grande texto de Marx, precisamente o Manifesto do Partido Comunista, já é portador de uma grande chave: a obra de conduzir a sociedade ao comunismo somente pode ser realizada através do partido. De uma vanguarda proletária comunista. E da democracia proletária.

Por isso Marx e Engels foram homens de partido. Dedicaram seu tempo à militância revolucionária como o centro de suas vidas.

Absolutamente não acreditavam no movimento “espontâneo” das massas, na ruptura “espontânea” da ideologia dominante, ou que cada luta, por maior e mais ampla que fosse – mesmo uma greve geral maciça - por si só, pudesse abrir a perspectiva da vitória comunista.

Em outras palavras: a luta pela fraternidade entre os homens, contra a desigualdade, é uma luta de poder, é a luta contra um poder que a isso se opõe.

Poder que sempre vai procurar se opor, até o fim, à vitória dos trabalhadores; não se detém, usa suas forças repressivas, seu Estado; por isso mesmo tem que ser contido e neutralizado pelo poder da classe trabalhadora, poder político, poder de Estado. No caso, um Estado de novo tipo, que começa a se extinguir desde o primeiro dia [já que os trabalhadores vão se ocupar da função de gestores de empresas, escolas, hospitais, etc. até então função do Estado burguês].

O comportamento da classe dominante – do seu tempo e também histórico – já impunha a Marx a convicção de que a revolução social, proletária, não tem como ser pacífica. A utopia pacifista jamais fez parte do repertório do marxismo de Marx ou de Engels.

Marx, portanto, é a consciência de que não vamos a lugar algum, em termos emancipatórios, automaticamente; isto é, Marx não era anarquista, nem espontaneísta e nem acreditava em saída pelas instituições burguesas, transformando-as.

E, naturalmente, tampouco existiu um meio Marx, isto é, um Marx economista, um Marx antropólogo, ou historiador, um Marx fraturado, especialista de uma “caixinha” do conhecimento: toda a sua tensão intelectual estava a serviço da causa da revolução proletária.

O marxismo é a teoria da revolução proletária, caso se pretenda uma síntese.

No nosso tempo, a universidade vai proceder àquela operação de fatiar e desmembrar Marx, mas aí já é outra coisa e obedece ao interesse da burguesia, de domesticar Marx, cortar sua juba e seus caninos, torná-lo impotente.

Mas não sejamos ingênuos: com o rótulo de “marxista” se pode fazer qualquer coisa e se pode inventar qualquer coisa: só para dar um exemplo, o genocida Stálin se declarava discípulo de Marx, de Lenin e assim também procede todo tipo de burocrata político ou sindical moderno. O peso de Marx no pensamento social e político contemporâneo já é tão forte e presente que, por um lado, toda ditadura burguesa começa proibindo os livros marxistas, por outro, qualquer burocrata sindical de esquerda se declara simpático a Marx. Mesmo que não entenda lhufas de Marx. Mesmo que sua prática seja a de tutelar e desviar as lutas revolucionárias da classe trabalhadora. São pelegos, no final de contas, com verniz “de esquerda” [que não podem ignorar Marx].

Mas a ideia de Marx – e sugiro que sempre se pesquise Marx na fonte primária – vai na contramão de todo tipo de fraude “marxiana”: em simples palavras, para Marx, jamais teremos o progresso da humanidade pelas mãos da classe capitalista, pelas mãos da colaboração capital-trabalho; e o novo poder, o único poder político que pode colocar a técnica e a ciência a serviço dos seres humanos, de todos nós, é o da classe trabalhadora.

Aliás, a ideia comunista se baseia exatamente, e materialmente, nisso: a ciência e a tecnologia, a tecnificação [não poluidora das águas, do solo e do ar] estará a serviço da saúde pública, a serviço de ocupar menos força de trabalho nas fábricas e da promoção de uma nova situação – impossível no capitalismo – isto é: na qual todos trabalhem menos para que todos trabalhem, para que ninguém fique sem trabalho.

O objetivo comunista é o de poucas horas de trabalho, muitas de lazer e também de que o próprio trabalho seja um prazer, uma forma, finalmente, de lazer; um meio de libertação, não mais de opressão, muito menos de exploração.

É o objetivo do marxismo. Do Manifesto Comunista. De todo partido que não seja comunista apenas no palavreado enquanto leva adiante a prática de conciliação de classes.

E se alguém imagina que a ideia marxista de construção de uma vanguarda comunista, de correntes revolucionárias e de classe no movimento operário, na perspectiva da revolução proletária já não é mais atual, melhor repensar.

Na verdade, a proposta de Marx [também de Lenin, Rosa, Gramsci, Trotski etc] é ainda mais atual hoje. Mais decisiva e mais crítica, diante do grande capital destruindo o planeta e a vida das massas por todo lado e de todas as formas.
E, em especial, tais frações revolucionárias são fundamentais para o enfrentamento da maior trava atual à revolução proletária: a burocracia operária. Uma camada que desenvolveu interesses próprios, de casta que vive de “defender a classe” e que, na verdade, se consolidou dentro do movimento operário, como quinta coluna da burguesia. E que não pode ser vencida sem que frações comunistas proletárias sejam desenvolvidas em cada oposição sindical, nos setores de serviços e da produção capitalista que sejam decisivos para a revolução.

À guisa de conclusão, com a palavra, novamente Matías:

“O antagonismo que se expressa na luta da classe trabalhadora por se libertar do trabalho como imposição, isto é, o ´movimento real´ do comunismo, não conduz inevitavelmente, não leva automaticamente, pelo contrário, à conquista do comunismo como sociedade livre de classes, Estado, exploração ou opressão.
Para isto é necessária uma organização política com a estratégia consciente da revolução social. Um partido revolucionário que, combatendo na luta de classes como parte do ´movimento real´, lute pela conquista do poder dos trabalhadores como condição para avançar ao objetivo do comunismo. Por isso Marx e Engels não se dedicaram à militância em geral, mas à militância revolucionária. [...]

No século XX, o papel da vanguarda comunista será mais importante ainda.
O surgimento de uma nova etapa do capitalismo, o imperialismo, lançou novas bases materiais para os setores conciliadores com a burguesia dentro do movimento operário. Surgiu uma ´aristocracia operária´ nos países que oprimiam outras nações e se desenvolveu, de forma estendida, uma burocracia que se torna obstáculo adicional no desenvolvimento do “movimento real” em um sentido revolucionário.
Diante dessa nova situação, será Lenin, dirigente da Revolução Russa de 1917, quem desenvolverá mais essa questão, propondo a necessidade de conformar partidos revolucionários da classe operária, independentes política e organizativamente daquelas correntes reformistas e também das ´centristas´ que oscilam entre os reformistas e os revolucionários”.

É nosso dever moral contribuir para a vitória dessa perspectiva.

Brasília 05-03-18
Referência: texto de Matías Maiello que integra o livro a sair brevemente intitulado Marx, o homem e seu pensamento, pela ISRKA/Centelha.
[Crédito de imagem modificada: www.handelszeitung.ch]




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