KARL MARX: 200 ANOS /

Marx: um comunista para o nosso tempo? [Parte I]

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 23 de fevereiro| Edição do dia

Quando se pensa em Marx, não é incomum que alguém possa conceber Marx [e Engels] como salvadores ou redentores da humanidade, apenas de um novo tipo e, naturalmente, diferentes de qualquer tipo de guru religioso ou pacifista tipo Gandhi ou outros utopistas que se ocuparam de “mudar o mundo”.

Também certos doutores da universidade, ora deixam Marx refém dos departamentos de economia, daí ele vira um “economista”, torna-se exclusivamente o autor da “crítica da economia política” [O capital], ou então fica, nos departamentos de ciências sociais ou literatura, na condição de um intelectual crítico da ordem capitalista, um grande pensador, decerto.

Por sua vez, para muitos jovens não iniciados no conteúdo do marxismo, Marx é imaginado como um sonhador. Muita gente assistiu ao belo e inspirador filme O jovem Marx [2017] e saiu estimulado nessa direção: sensibilizado por Marx – e seu parceiro Engels – na condição de um jovem, Marx, envolvido com as lutas de seu tempo, de enorme talento e sensibilidade, um grande homem. Mas muita gente pode pensar: um grande homem para o seu tempo.

É uma maneira de ver, embora limitada.

Mas não capta a perenidade do pensamento e do programa marxista enquanto exista o capitalismo.

Marx não foi o primeiro a falar de classes sociais. Mas será o primeiro que, de forma consciente, vai entender que a humanidade está fraturada em classes sociais – exploradores e explorados – e vai entendê-lo de forma consequente, levando esse raciocínio até o fim, em perspectiva emancipatória, comunista.

Ou seja, por esse diagnóstico, portanto, por conta dos interesses consolidados de uma classe dominante que vive na absoluta zona de conforto, desfrutando do trabalho alheio, jamais a humanidade poderá se por de acordo; jamais poderá viver qualquer coisa parecida com a fraternidade entre os homens e as nações pura e simplesmente através do gesto de “boa vontade” entre os homens. Há um muro entre os homens: uma muralha de interesses, de parte dos donos dos meios de produção.

Por isso, no citado filme, em uma das cenas finais, Marx e Engels levantam a verdadeira bandeira de luta: trabalhadores de todos os países, uní-vos!
Ele não diz: unam-se todos! Sabe – e isto é o Manifesto Comunista – que o gênero humano está antagonizado entre si, e que apenas os trabalhadores podem reunificar a humanidade. Reunificá-la impondo uma transição contra a classe dominante, uma democracia dos trabalhadores contra a burguesia, uma vez que esta não aceita – seria o fim da sua apropriação privada da riqueza produzida pelos trabalhadores – que homens e mulheres se unam e se ponham de acordo entre si.

Desde este ponto de partida, Marx já se coloca no plano da única perspectiva capaz de permitir a emancipação dos homens e mulheres. Rompe com todo utopismo e, desde muito cedo, com qualquer perspectiva de “felicidade depois da morte”, ou de qualquer libertador que chegue e salve os homens. Pelo contrário: o sujeito da emancipação é a classe trabalhadora; esta é a ideia que ele e Engels amadurecem em seus estudos e que consolidam através do engajamento político e histórico de ambos.

Qualquer abordagem de Marx que passe por fora disso apenas está falando em nome de Marx, mas para defender outra coisa, muito provavelmente a conciliação de classes, o anti-Marx. A verdade é que paz, fim da desigualdade, da guerra, fraternidade entre os homens, são aspirações seculares. Fonte de inspiração de todo tipo de utopista, de religiões, filosofias e doutrinarismos. Mas isso não é Marx.

Assentado no materialismo histórico, Marx vai mostrar que agora, com a indústria [possibilidade da abundância] e com a emergência da classe trabalhadora, esta possibilidade passa a estar inscrita no movimento do real; a partir da luta de classes.
Ele viveu a luta de classes em seu tempo e teorizou sobre ela, captando o surgimento histórico do novo sujeito, a nova classe com potencial revolucionário; portador da possibilidade de libertar-se – da escravidão assalariada –e, através de sua luta, emancipar a toda a humanidade.

Adiante do seu tempo, ele foi sensível e captou essa possibilidade, vibrando com as greves proletárias de Lyon, da Silésia, com a entrada em cena, de armas na mão, do proletariado de Paris e outras capitais, na “primavera dos povos” e, finalmente, pouco mais de vinte anos depois, seu “assalto ao céu” na Comuna de Paris de 1871. Apaixonado pela causa do proletariado, fundido às suas lutas em seu tempo e à sua perspectiva histórica, ele escreveu O capital [a mais arrasadora crítica aos fundamentos da sociedade capitalista], fundou e militou na I Internacional, com Engels e seus companheiros.

No entanto, se Marx captou um movimento histórico que se desenvolvia, já no seu tempo, a céu aberto – um tempo em que ainda se gestavam as condições para a revolução proletária que eclodirá no século seguinte – e defendeu a revolução proletária como o ponto de partida da humanidade para o objetivo comunista, isso não quer dizer que ele tenha sido entendido por todos os que passaram a falar em seu nome e em nome da sua obra dali em diante.

A II Internacional, por exemplo, de Kautski e Bernstein, degenerou e capitulou catastroficamente diante do inimigo de classe, a burguesia alemã.

Dessa forma ficava parecendo que Marx não tinha razão.
Ele tinha e tem, no entanto.

Sua teoria da revolução proletária era tão real, e uma interpretação tão fiel da realidade, que pouco mais de uma geração depois da sua morte, seguindo sua teoria, eclodia e triunfava a Revolução Russa. E, apesar do caminho cheio de derrotas proletárias, mas em seguida da II Guerra mundial foram vitoriosas também várias outras revoluções. Isto é, vários países tiveram o capital expropriado, a burguesia foi afastada e em seu lugar entrou a economia planificada.

No entanto, essas direções revolucionárias não abraçavam o objetivo estratégico de Marx, do proletariado como o sujeito revolucionário. Por conta disso, à exceção da revolução proletária de Lenin e Trotski, as demais foram revoluções que já nasceram burocratizadas, com suas lideranças políticas se negando a desenvolver até o fim a ideia-chave do Manifesto Comunista.

Acontece que a emancipação dos trabalhadores não poderia ser obra de nenhum “César e de nenhum tribuno”, de nenhuma casta política e sim dos próprios trabalhadores. Esse é o objetivo do Manifesto de Marx e Engels.

Aquelas revoluções que nasceram degeneradas [em relação ao programa de Marx] ou que foram traídas [caso do stalinismo, que assassinou todos os leninistas ao seu alcance], abraçaram outra perspectiva: de revoluções nacionais [não internacionalistas] e onde a dinâmica revolucionária inicial era travada pelas próprias lideranças burocráticas, as quais, falando em nome de Marx, usurpavam o poder político dos trabalhadores, impediam o desenvolvimento da democracia proletária, dos sovietes, conselhos de fábrica.

Da primeira delas, a revolução de massas chinesa de 1949 até a última, a do Vietnã, nos anos 1970, todas elas – cada uma do seu jeito, cada qual com sua história nacional - rasgou o Manifesto Comunista; também rasgaram outro livro-chave de Marx, A guerra civil na França, onde a tese marxista ali presente é a de que onde a revolução vá ao poder, deve, imediatamente, começar a desconstruir o Estado burguês, desenvolvendo o poder das massas, do proletariado, executando sua ditadura democrática contra a burguesia.

Em vez disso, tivemos uma sequência de vitórias que viraram derrotas, em cada uma delas com uma ditadura burocrática travando o permanentismo da revolução.
É preciso entender que nada disso é Marx. Nem Lenin, Rosa, Gramsci, muito menos Trotski, líder e teórico principal da IV Internacional.

E aqui entramos no outro aspecto da teoria da Marx [desenvolvido depois de Marx por Lenin, Trotski e seus companheiros]: se bem que o comunismo nasce das contradições da própria sociedade capitalista realmente existente, das lutas incessantes da classe trabalhadora contra sua exploração, por menos horas de trabalho, por melhores condições de trabalho etc, mas esta luta de classes não conduz automaticamente os trabalhadores ao poder e nem à consciência comunista. Não se avança para o objetivo do comunismo em piloto automático. Como explica M. Maiello em um dos textos da antologia deste livro:

“O comunismo é, portanto, para Marx e Engels, duas coisas: por um lado, um ´movimento real´ que se desenvolve ´à vista de todos´ e, por outro lado, um objetivo, o de uma nova sociedade conformada por “uma associação de homens livres que trabalhem com meios de produção] coletivos e empreguem, conscientemente, suas múltiplas forças de trabalho individuais como força de trabalho social”.
[Crédito de imagem: www.wsws.org][Imagem de Marx: www.handelszeitung.ch]
[Fim da parte I de II; continua na próxima semana]




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