Marx e o ato de escrever

Afonso Machado

Campinas

quinta-feira 31 de janeiro| Edição do dia

Neste país tragado pelas trevas da ignorância, gente como Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Charles Darwin, Sigmund Freud e Karl Marx são os bandidos da vez. No caso deste último autor, encontramos um cartaz de Procurado aonde se lê: “ Procura-se vivo ou morto Karl Marx: pensador comunista, agitador político e corruptor da juventude “. Nem Sócrates sofreu tamanha perseguição na Grécia antiga! Os adeptos do pensamento de Marx, que encontram-se hoje na linha de tiro da cultura, conseguem compreender bem, inclusive com bom humor , porque os inquisidores ficam tão pirados, tão enfurecidos diante do legado do fundador do materialismo histórico( as atitudes dos conservadores formam um quadro trágico, mas por serem também ridículas não deixam de apresentar um teor cômico).

A obra de Marx é um grande esforço histórico-filosófico em que realiza-se uma anatomia da trajetória do capitalismo, expondo seus mecanismos predatórios e desumanos à luz do sol, deixando sem explicações o intelectual conservador que sempre tenta justificar o que não é justo. Segundo a perspectiva política do materialismo histórico, escrever não é uma caça por títulos acadêmicos, uma subida de degraus na escada da cultura para se chegar ao topo da autoridade intelectual ou ainda a busca por prestígio literário através de tantos concursos, prêmios e chazinhos da tarde. Para o marxismo não basta que a escrita interprete a realidade. É preciso que ela participe ao mesmo tempo da transformação política da sociedade. Obviamente que quem cutuca com o verbo um formigueiro tem que estar pronto para lidar com a fúria das formigas. Tanto é assim que ser marginalizado é um risco que todo escritor de esquerda está sujeito neste país.

Desde a sua juventude Marx fez da pena e do tinteiro seus principais instrumentos de trabalho e interferência sobre a realidade política. A postura anticlerical e a decifração materialista da história, formam o equipamento básico da sua trajetória como pensador: dos primeiros exames a respeito da influência do processo econômico no pensamento filosófico até a composição da sua obra prima O Capital, uma verdadeira epopeia da civilização burguesa. Trata-se de um intelectual revolucionário que exigia dos trabalhadores estudo, leitura. Marx não escondia que era doutor em filosofia e não poupava líderes operários com comentários violentos quando estes faziam da sua ignorância teórica uma justificativa moral: “ gente pobre “ não poderia se dedicar com afinco ao estudo da filosofia, da história, da literatura, da economia... Tudo isto seriam “coisas de intelectuais”, que nasceram em berço de ouro. É como se a crítica, a atividade intelectual , fossem elementos que não possuem serventia para o proletariado e que lutar pelo bem comum nada teria a ver com a necessidade de estudar. Marx rebatia esta visão profundamente equivocada ao afirmar que levantar os trabalhadores sem dispor de uma concepção de história com bases científicas( sem uma doutrina concreta da sociedade) é incorrer em uma propaganda vazia e inescrupulosa. Tanto um líder operário quanto um escritor de esquerda, não bancam o apostolo que tenta simplesmente converter com belas e evasivas palavras um trabalhador carente do entendimento crítico da realidade. A eficácia política da palavra está em proporcionar uma análise objetiva dos fatos com impacto estético(e Marx sabia muito bem como fazer isso).

Obviamente que não é com a leitura de um romance ou de uma obra filosófica que a consciência de classe ganha as ruas. São necessárias circunstâncias históricas excepcionais para chacoalhar as massas; e a história ensina que quando tais circunstâncias eclodem, elas existem independentemente da vontade das lideranças políticas/do Partido e do próprio escritor progressista. Então por que escrever? Porque este é um ato em que a representação do movimento histórico( das tendências que no passado levaram a certas transformações sociais e das tendências que podem levar a transformação do presente) torna-se uma inestimável arma ideológica para a instrução, para a reflexão e formação dos leitores da classe trabalhadora. Vale salientar, mais uma vez, que em épocas marcadas pela agitação social uma obra literária contestadora adquire projeção política.

O trabalho do escritor de esquerda não é nada fácil, exige paciência histórica e pode trazer custos terríveis. Marx que o diga: perseguido politicamente, passando o maior aperto com sua família em Londres(viviam num quarto empoeirado com moveis quebrados, se alimentando com uma quantidade racionada de batatas e pães e não raramente sem grana para pagar o padeiro, penhorando cassacos e sapatos, enfrentando doenças etc) o autor conseguiu neste período dramático de sua vida(trata-se do início da segunda metade do século XIX ) dar continuidade de modo independente às suas pesquisas sobre economia e história e desenvolver seus escritos jornalísticos.

Rigor científico e habilidade literária devem ser combinados para construirmos, custe o que custar, as narrativas das lutas sociais. Tanto no plano ficcional quanto no histórico, o marxismo orienta a maneira de expor os acontecimentos narrados: a exatidão e o vigor estético do texto são uma construção que envolve a relação externa entre os fatos, que são dispostos em uma determinada ordem(é uma necessidade da narrativa em sua qualidade artística) e a descoberta das causas internas dos mesmos fatos( é a exposição que explica/interpreta as determinações históricas dos acontecimentos). Isto jamais poderá ser uma receita mas um caminho, um método que orienta a investigação do processo histórico, dos problemas sociais e os muitos modos de expressa-los.

Cavar espaços de atuação intelectual nos meios universitários, editorais e jornalísticos corresponde a uma clara necessidade de produção e divulgação da escrita como arma da crítica. Aqueles que buscam glórias e pompas estudam/pesquisam através do pente que passeia pelos seus lindos cabelos diante de um espelho gigantesco. Aqueles que estudam/pesquisam para contribuir com as lutas da classe trabalhadora, não olham para si no espelho da história.




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