Teoria

Karl Marx e Walter Benjamin

Marx e Benjamin fazem recomendações políticas, estéticas e históricas aos trabalhadores brasileiros

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 4 de junho| Edição do dia

Um fascista acertou covardemente com uma pedra a cabeça de um operário. Naquela manhã sem sol, o corpo tombou na calçada e o sangue começou a escorrer pelo bueiro junto com várias imagens que o trabalhador tinha na cabeça. A tentativa de assassinato deu-se há três dias ou talvez há três anos, quem sabe há três décadas? Felizmente o operário sobreviveu mas passou a sofrer de uma terrível amnésia histórica: sua consciência de classe, as experiências políticas dos trabalhadores das gerações anteriores, parecem fazer parte do conteúdo das imagens que rolaram junto com o sangue para fora da sua cabeça.

Um fato bíblico poderia sugerir uma situação inversa: foi Davi quem nocauteou Golias com uma pedra. Se pegarmos esta conhecidíssima imagem da cultura judaica e fizermos uma apropriação materialista, vislumbraremos a possibilidade real, histórica, do oprimido lutar e vencer o opressor. Curiosamente Karl Marx e Walter Benjamin são dois grandes pensadores de origem judaica, que podem contribuir para que o operário possa rememorar seu passado e agir no presente: estética e história não se separam na montagem das imagens dialéticas que agem sobre a consciência dos oprimidos que não possuem memória histórica.

Tanto numa obra literária quanto numa assembleia de trabalhadores, personagens que realizam a ação possuem uma fala. Mas se este personagem não possui memória histórica qual é o conteúdo da sua fala? Como ele poderia inflamar uma categoria de trabalhadores sem rememorar o sentido da longa luta daqueles que falaram(gritaram!) antes dele? Suas exclamações e interrogações tendem a se voltar para ilusões nacionalistas. Suas reivindicações são adulteradas por ideologias reacionárias. Sua ignorância histórica acarreta no desejo de que as forças armadas tomem o poder e instalem uma ditadura. Sua falta de sensibilidade estética o conduz à linguagem empobrecida do que existe de pior na cultura de massa. Resumindo: a extrema direita poderá vencer no Brasil de 2018.

Como podemos ver o movimento dos trabalhadores depende além de uma direção política revolucionária, de memória histórica e logo da produção de imagens que interpretam a própria história . Ao debruçar-se sobre as implicações políticas do sistema de produção econômica, Marx narra uma história cujo tema central é a violenta disputa entre classes sociais gerada no útero do trabalho. A organização econômica é expressa nas tensões sociais que se aplicam de modo específico da vida religiosa, jurídica, política, artística e ideológica em geral(que por sua vez desempenham um papel ativo sobre a base econômica). É dessa contradição entre o econômico e a vida social em todos os períodos da história das civilizações, que surgem as imagens dialéticas destinadas aos olhos dos trabalhadores de hoje. Marx e Benjamin, mesmo em suas diferenças filosóficas, nos legam técnicas e temas para “conjurarmos os mortos “.

Metaforicamente falando, os mortos salvam os vivos e os vivos salvam os mortos na história da luta de classes: escrevendo, pintando, encenando, contando ou filmando o militante comunista do presente ilumina o passado soterrado. Este mesmo passado age sobre o presente através de encontros com acontecimentos revolucionários de diferentes épocas, com personagens revolucionários de diversos períodos. Esta criação de constelações no “ céu da história “, tal como Benjamin explica, interrompe/arranca a narrativa histórica daquele cortejo das classes dominantes que caminham sobre as cabeças das classes dominadas. Ocorre na rebelião contra as vitórias das classes dominantes do passado, a reabilitação da memória dos oprimidos. O oprimido dos nossos dias compreende quem foi o opressor ontem e quem é o opressor hoje.

A narrativa linear, que na perspectiva historicista expressa o conformismo social, é subvertida pelas combinações de imagens que provocam choques na consciência do leitor, ouvinte e espectador. A rememoração efetiva-se com a construção de constelações revolucionárias: são imagens subversivas que pertencem agora ao proletariado, ou seja, a classe que herda o sofrimento do passado e poderá colocar fim às catástrofes mascaradas pela ideia de progresso. Em certo sentido isto contrasta com a maneira como Marx interpreta o processo histórico: para ele existe o progresso econômico cujo movimento dialético passa pelo conflito entre forças produtivas e relações de produção. A burguesia, por exemplo, trouxe conquistas revolucionárias e legou um profundo desenvolvimento da base material: cabe ao proletariado apropriar-se destas conquistas históricas. Para Marx existe uma marcha da história, uma caminhada na direção do comunismo. Benjamin por sua vez interpreta a história de modo pessimista. Não haveria uma progressão mas um acúmulo de catástrofes: gerações de oprimidos encontram-se sob os escombros do tempo. Bem, esteticamente falando, estas diferenças tornam estes autores incompatíveis entre si?

Enquanto pensador dialético Marx reconhece conquistas históricas(nos âmbitos tecnológico/econômico e político) sem deixar de prestar atenção e denunciar as condições de vida dos oprimidos ao longo da história. Ele era um homem europeu do século XIX que acreditava no progresso da humanidade, mergulhando no estudo da interdependência entre o econômico e o histórico. Já Benjamin faz uma apreensão particularíssima do materialismo histórico, realizando uma crítica em que os documentos da cultura são ao mesmo tempo encarados como documentos de barbárie. Ele era um homem europeu do século XX que ao observar o horror promovido pelo fascismo(os fascistas estetizavam a política e faziam do avanço tecnológico um meio para promover a morte, a repressão e a destruição) passou a duvidar da ideia de progresso. Todavia, a utilização que os comunistas de hoje podem fazer da obra de ambos os autores não envolve incompatibilidade teórica.

Ao defender a unidade entre forma e conteúdo, Marx traz uma interpretação materialista e dialética da história em que a luta de classes está não apenas cravada nos enredos que compõem a trajetória dos povos, mas constitui formas específicas de conteúdos específicos; logo a história não é formalista, não é estilhaçada e possui sim um sentido: é a Revolução socialista que colocará fim à exploração do homem pelo homem e anunciará a trilha em direção ao comunismo. Mas como o operário de hoje encara os operários que lutaram e tombaram antes dele? Recuando mais no tempo e no espaço, como este mesmo operário encara os escravos nas colônias, os servos medievais ou ainda os escravos e camponeses do mundo antigo? Seriam estes personagens apenas instrumentos de processos/momentos “ necessários “ da história? É precisamente aqui que a crítica de Benjamin intervém, inclusive em termos de composição estética do conhecimento histórico.

A interrupção da narrativa linear do processo histórico permite cortes, rupturas formais em que a montagem dinâmica da memória dos oprimidos, possibilita uma solidariedade histórica entre gerações unidas pela mesma condição de explorados. Estes saltos dialéticos, esta maneira moderna de apropriar-se de imagens/informações para realizar combinações revolucionárias, não contradizem o sentido da história defendido por Marx: a Revolução socialista coloca-se como o fim da opressão. Marx mostrou que a luta de classes envolve o processo fundamental da história. Benjamin trouxe mobilidade estética ao conceito de luta de classes.

Diferenças na maneira de se produzir o conhecimento histórico existem entre ambos os autores. Não é pra menos: enquanto que para Marx uma importante referência na elaboração de narrativas estava na escrita de autores como Balzac, Benjamin estudava os mecanismos de ruptura estética e descontinuidade presentes no cinema e na arte moderna; são autores que viveram em épocas diferentes. Poderíamos enumerar outras diferenças, inclusive as de natureza mais propriamente historiográfica e filosófica, nas referências intelectuais de Marx e Benjamin. Mas apesar de todas elas, não deixamos de estar no terreno do materialismo histórico.
Para que hoje possamos lutar contra a extrema direita e os liberais de plantão, precisamos ir ao encontro daqueles operários que perderam a memória: devemos resgatar aquelas imagens reprimidas no fundo da história e utiliza-las na luta política.

"La Liberté guidant le peuple", Eugène Delacroix




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