Teoria

MARX E EPICURO

Marx, Epicuro e a concepção marxista de natureza e dialética [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

sábado 27 de junho de 2015| Edição do dia

Examinamos, na primeira parte desta nota, o resgate que Marx faz de Epicuro, um filósofo grego que teve a característica de pensar a natureza de forma embrionariamente dialética e expurgada da divindade, da teleologia.

Para Farrington, com Epicuro, “o Propósito faz a sua aparição no curso da história. Não é um traço metafísico, mas um traço adquirido historicamente, do homem”. Portanto passa ao largo do determinismo. E esta será a confluência Marx-Epicuro naquelas pesquisas acadêmicas de Marx, de 1839 a 1841.

Lembremos que Epicuro, ao contrário de Demócrito, vai conceber o átomo como portador da possibilidade de auto movimento. Seu movimento não seria apenas inercial, não se “resolveria” apenas pela queda em linha reta; e portanto não tem apenas um caráter determinado mecanicamente, dogmaticamente. Esta é uma dimensão epicurista chave que Marx vai valorizar. Na esfera social corresponderia à vontade, à autoconsciência individual.

Só que mesmo neste item Marx vai além, ao argumentar que negar o movimento da queda retilínea é “negação”, mas ainda continua fazendo falta o movimento que afirme o átomo; em sua tese Marx menciona a contradição do átomo que, por um lado nega sua existência em relação ao outro (não se deixa “resolver” na reta) mas “por outro lado para tornar tal negação positiva”, sua tendência deverá ser a de, consequentemente, colocar-se “em relação com alguma coisa”, na esfera da pluralidade dos átomos (hoje a física fala de repulsão e atração dos átomos).

Naquele momento Marx, depois de valorizar o elemento não-mecanicista de Epicuro (a possibilidade do auto movimento) justamente vai postular o limite necessário do auto movimento, isto é, onde se cruzam o movimento errático, de “iniciativa” daquele átomo, com as leis tendenciais daquela esfera do real. O argumento de Marx neste sentido é o de que a individualidade se realiza em sua imediaticidade “se se põe em relação com outra realidade que não é ela mesma” (Dal Pra,37).

Isto é, o primeiro movimento, repulsão, de ser “outro para o outro” (se usarmos uma linguagem hegeliana), vem a ser a primeira forma de autoconsciência. Mas este momento não pode ser congelado ou absolutizado. E Epicuro, à sua maneira, termina “congelando” este movimento, sendo aqui criticado por Marx por sua maneira “atomística” de pensar o átomo, já que nele “todas as determinações assumem a forma de individualidade isolada” (Dal Pra, 38). Por conta disso, seu impulso dialético inicial e original fica fraturado (atado aos marcos do que seria a individualidade abstrata), sua autoconsciência “é concebida unicamente na esfera do individual” (Marx). Isto impede sua realização, seu desenvolvimento na esfera do universal, única condição – no caso dos homens - para o domínio da natureza, para a consciência social. Nem por isso Epicuro deixa de ser um grande avanço: lembremos que ele se localiza na contramão do misticismo, da superstição dominantes (mesmo os estoicos iam por essa via, na base da negação da individualidade). No momento de sua tese, Marx já se dá conta de que o próprio Hegel só entende o individuo como realização do Espírito “universal”.

Epicuro, segue outra via, mais avançada neste item, mas, por sua vez, não consegue ser dialético até o final.

Mas o destaque de Marx é para aquele nível em que o filósofo grego é dialético e por isso mesmo Marx destaca a potencial “energia prática” da filosofia de Epicuro e compara tal perspectiva filosófica com a atitude de Prometeu, que toma o fogo dos céus em suas mãos e “se dedica a construir casas e se estabelece na terra” (Marx).

Marx está combatendo a especulação pela especulação, típica do idealismo e também dos hegelianos de seu tempo que não se apropriam da dialética do mundo e capitulam ao mundo especulativo da dialética vazia, indeterminada. Resgatando o momento dialético da autoconsciência epicurista, pela vida da dialética hegeliana,

Marx está lançando as bases para a concepção materialista da história onde a subjetividade consciente dos homens, do sujeito histórico classe trabalhadora, finalmente se levante, não mais para justificar filosoficamente o velho mundo, mas para derrubá-lo, substituindo-o pelo mundo da emancipação humana contra a velha ordem desumana.

Ainda naquela esfera, da dialética e dos gregos, convém não esquecer que a maior influência de Marx, pouco a pouco, já não será Epicuro mas Aristóteles. Ele chegou a comentar (em carta a F.Lassale, no final da década dos 1850) que, dentre os antigos, em termos de filosofia pura, ele preferia Aristóteles e Heráclito ao “mais fácil”

Epicuro. E é inegável que na esfera da dialética antiga Aristóteles é o que prevalece, para Marx.

Aristóteles, citado largamente no O Capital, será chave para Marx em outras dimensões, como também para Engels, que o nomeia no Anti-Dühring como o “mais universal dos filósofos gregos”, em especial na esfera da dialética; para Marx, no O Capital, é Aristóteles o “maior pensador da Antiguidade”.

De Epicuro a Aristóteles, passando pelo materialismo de Feuerbach e, especialmente, pela grande revolução da dialética hegeliana, eis o pensamento de Marx em construção.

No entanto será justamente Marx quem descobrirá um Epicuro que nem Hegel enxergava, avesso à teologia e ao positivismo.

Como Epicuro, Marx vai entender que Prometeu – para citar uma imagem muito significativa para Marx – pode desacorrentar-se, lutando contra os deuses; e que seu combate é justo e necessário. Como Epicuro (mas não como Hegel e os idealistas em geral), Marx irá arrancar o destino dos homens das mãos do Espírito Absoluto ou de qualquer tipo de desígnio externo aos homens, entendendo que “no país da razão” não existem deuses.

No caso particular de Hegel, convém lembrar que ele, procurando definir seu objetivo ao formular sua Filosofia da natureza, escreveu que “O objetivo destas conferências [sobre a filosofia da natureza] é transmitir uma imagem da natureza, a fim de (...) encontrar nesta externalidade apenas um espírito de nós mesmos, ver na natureza um livre reflexo do espírito: entender Deus” (citado por Foster, à p. 370).

Com Epicuro, o jovem Marx vai em direção contrária e irá compreender plenamente o pensamento de Epicuro de que “é preciso aceitar o acaso e não Deus como a multidão acredita”. Para Epicuro o que importava não era o Absoluto (como em Hegel) e nem a imortalidade (caso dos teólogos) e sim que somos mortais e como mortais, donos da nossa finitude. A morte é imortal, dizia Epicuro.

Foster compreende esta dimensão ao argumentar que (19): “O materialismo epicurista enfatizava a mortalidade do mundo, o caráter transitório de toda a vida e existência.
Os seus princípios mais fundamentais eram de que nada vem do nada e nada sendo destruído pode ser reduzido ao nada. Toda a existência material era interdependente, emanando dos átomos (e revertendo a eles) – organizada em padrões infindáveis para produzir novas realidades. A profundidade do materialismo de Epicuro, para Marx, revelava-se pelo fato de que dentro desta filosofia – e no conceito do próprio átomo – ´a morte da natureza (...) tornou-se a sua substância imortal”, [no argumento de Marx citado por Foster ]. O argumento de Epicuro compilado por Lucrécio, é o de que a vida, mortal, é que é tragada pela imortalidade, pela morte; ou como sinaliza Lucrécio repercutindo as palavras de Epicuro, “quando a morte, a mortal, houver colhido a sua vida mortal”.

Daí na filosofia de Epicuro não haver necessidade das causais finais aristotélicas; em vez disso, a ênfase re¬caía nos arranjos em constante mudança na natureza em si, concebida como “mortal e transitória (mors immortalis)”.

Marx era fascinado por essa ideia da morte imortal e de que o que importa para os vivos é a vida. Ele se dava conta da importância de Epicuro ao arrancar o acaso da esfera da superstição; a contingência é parte integrante da natureza (como o auto movimento oblíquo do átomo na sua teoria atomística), assim como a liberdade de ação dos homens, que pode e deve ser tomada – por meio das devidas mediações, de classe – para além de desígnio ou determinismo de qualquer natureza. Para além dos deuses. Daí a sua tão conhecida máxima de que o verdadeiro ímpio não é o que nega os deuses da multidão, mas sim o que segue a multidão atrás dos deuses.

E, podemos argumentar hoje, depois da experiência da Comuna de Paris e, sobretudo, da Revolução Russa, que para a classe trabalhadora, a verdadeira consciência não é a que simplesmente nega o mundo (capitalista) como ele é, mas sim a que constrói, através da consciência revolucionária, a superação deste mundo através do novo sujeito histórico politicamente ativo, a classe trabalhadora que, à semelhança de Prometeu, quebra as correntes que a aprisionam aos donos do poder de Estado.

G Dantas
Referências:
A ecologia de Marx, J Bellamy Foster, 2005.
La dialéctica en Marx, Barcelona, 1971.
Diferença da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro, Marx, Lisboa, 1972.
O tema deste artigo, assim como outros tópicos sobre ecologia e marxismo, consta do livro Natureza atormentada, marxismo e classe trabalhadora, que pode ser conseguido com Lúcia através do email centelhaculturallivros@gmail.com.




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