Teoria

98 DE ROSA LUXEMBURGO

Mariutti: "A produção teórica de Rosa estava subordinada à luta contra o capital"

Entrevistamos o professor de história econômica Eduardo Mariutti do Instituto de Economia da Unicamp para nos contar melhor sobre a grande revolucionária Rosa Luxemburgo. Acompanhe mais sobre essa grande figura em nossos textos.

terça-feira 17 de janeiro de 2017| Edição do dia

Esquerda Diário: Como se poderia apreciar o vasto legado marxista deixado por Rosa Luxemburgo nos diversos campos em que escreveu?

Mariutti: O que impressiona na obra de Rosa Luxemburgo é o modo como ela conseguia construir uma visão articulada que conseguia integrar praticamente todas as dimensões da realidade social sempre fundamentada ou referida à problemas concretos. O seu faro antropológico era particularmente notável. Suas análises sobre as formas de vida mal batizadas de “pré-capitalistas” (pois eram, na realidade não-capitalistas) são muito acuradas. Isto aparece em diversos momentos de sua obra. Na parte final de A Acumulação de Capital e em algumas passagens de Anticrítica ela mostra como existe uma incompatibilidade fundamental entre o capitalismo violentamente exportado pela Europa e as formas de vida social a ele incorporadas. A sua análise da penetração britânica na Índia deixa isto bem claro: como, ao contrário dos outros conquistadores, o capital – corporificado nos ingleses – teve de destruir a comunidade e as formas familiares aldeãs para se apropriar da terra, do trabalho e de suas forças produtivas. O mesmo ocorre em sua interpretação sobre o domínio francês sobre a Argélia. Já em Introdução à Política Econômica (livro muito citado, mas muito pouco lido e conhecido) ela mostra como o comércio a serviço do capital é radicalmente distinto das formas de comércio pretéritas, que sempre estiveram entrelaçadas e a serviço de valores distintos da acumulação pela acumulação. A análise comparativa que ela faz entre diversas sociedades “camponesas” é, em termos gerais, muito rica. No capítulo 5 ela mostra como, na realidade, as sociedades não capitalistas eram extremamente variadas – ela, inclusive, conhecia os costumes de algumas tribos pré-colombianas no Brasil- e culturalmente complexas, adiantando um tema que só passou a ser estudado de forma mais sistemática muito depois de Polanyi (que, ao seu modo, levantou o problema em A Grande Transformação), particularmente por Marshall Sahlins, Pierre Clastres e, no caso da antropologia marxista, Claude Meillaissoux.Esse me parece representar o seu grande legado: mostrar como a sociedade da mercadoria é inerentemente violenta, pois é incapaz de conviver com formas de sociabilidade estranhas a ela. E que, portanto, a crítica à sociedade capitalista não pode se circunscrever ao terreno do que hoje chamamos de economia, mas deve incidir sobre o conjunto de práticas, visões de mundo e formas simbólicas que fazem parte do processo de acumulação e valorização do capital.

ED: Luxemburgo enfrentou longos períodos no cárcere e a perseguição da burguesia imperialista, mas também os ataques e calúnias dentro do movimento socialista reformista, parte de uma luta contra todos os estereótipos estabelecidos para uma mulher na época. Como encarar este aspecto da personalidade de Rosa?

Mariutti: Rosa era uma figura muito peculiar. O que a movia era uma paixão pela liberdade e uma clara consciência prática do conjunto de violências silenciosas que marcavam – e ainda marcam, sob novas roupagens – a sociedade que vivia. Afinal, tratava-se de uma judia polonesa, com uma nítida deficiência física (claudicava, sequela de uma doença na infância) que emigrou para a Alemanha. Além disto, era uma pacifista radical que defendia abertamente a insubordinação por parte dos trabalhadores. Como ela era uma excelente oradora e nunca refugava (combatia qualquer um, de Lênin a Kaustky) era alvo fácil de intrigas de covardes e de burocratas em geral. Uma pessoa fantástica, que nunca abriu mão das suas convicções e da crítica incessante a tudo que julgava injusto.

ED: Um dos lemas favoritos de Rosa era "no início, era a ação". Isso sintetiza um pouco o percurso político de Rosa e a luta política apaixonada que dentro da socialdemocracia alemã contra aqueles que queriam deturpar o marxismo. Que pode nos falar disso?

Mariutti: Como já adiantei, Rosa era uma apaixonada pela liberdade que, a despeito da sua erudição e qualidade como teórica, sempre teve como horizonte os problemas sociais concretos que saltavam à sua vista. Tal como Marx, a sua produção “teórica” estava subordinada à luta contra o capital e todas as demais formas de exploração e de violência social remanescentes. Ela jamais sucumbiu à formalização e a esterilidade do marxismo academicista, pois entendia o materialismo como uma forma essencialmente crítica de combinação entre ação e análise social que, inclusive, tinha de incidir sob si mesmo. Ao acentuar o caráter reflexivo do marxismo, ela arranjou inimigos dentro da esquerda pretensamente radical, que tendia a pautar a sua ação por princípios abstratos decantados das leituras canônicas de O Capital. Era a compreensão de que a crítica radial deve ser incessante e apta a desnudar todas as formas de violência – cristalizadas nas máquinas burocráticas – que a inclinava a uma postura tida muitas vezes como iconoclasta e, por alguns, “histérica”. Isso sempre lhe custou muito caro. As críticas a ela se dividem em dois blocos que, a princípio, são antagônicos: ela é denegrida tanto pelo seu “ecletismo” quanto pelo seu excesso de ortodoxia. No primeiro caso, a acusação mais grosseira incide mais diretamente na dimensão “teórica”: a sua ignorância da dialética a impede de captar o rigor formal dos conceitos marxianos, e é isso que a leva a perscrutar outros domínios (a sociologia, a antropologia, etc.) e, sobretudo, recorrer à ilustrações “históricas” desprovidas de mediações adequadas. É a crítica do marxista de gabinete, encastelado na burocracia partidária ou, hoje em dia, na universidade. A segunda linha crítica, que se julga mais engajada, a acusa pelo voluntarismo ingênuo (ou “idealismo revolucionário”), fundado em uma suposta compaixão romântica pelas massas, fruto talvez de influências do anarquismo (ela lia Bakunin). Este é, geralmente, o julgamento do soldado do partido, geralmente sob comando dos ideólogos oficiais. A crítica diametralmente oposta, isto é, de excesso de ortodoxia, brota tanto da academia quanto da militância: o problema está em seu fatalismo que, supostamente, emana da sua filiação à teoria do colapso inexorável do capitalismo (que, costuma-se aduzir, consiste em mais uma evidência da falta de dialética e do desconhecimento da arquitetura do pensamento marxiano), na qual se ancora a sua fé na ação espontânea das massas. Percebeu o problema?

ED: Rosa deixou importantes estudos sobre economia política, em especial no livro "A acumulação do capital". Recentes dados sobre concentração de riqueza nos mostram a absurda desigualdade que vivemos hoje, com 8 bilionários tendo a mesma riqueza da metade da população. Como você vê o livro a acumulação de capital de Rosa nesse contexto?

Mariutti: A Acumulação de Capital é um livro importantíssimo, mas que não costuma ser lido nos termos em que a autora propõe a crítica. Neste livro ela levanta um problema peculiar: como pensar a relação do capital com as relações sociais e os modos de produção estranhos a ele. É neste sentido que, por exemplo, ela faz a crítica aos esquemas de reprodução do volume II de O Capital. E é por esta via que ela amplia radicalmente o alcance da discussão sobre o imperialismo: o imperialismo não envolve apenas as exportações de capital, mas também as contradições do capitalismo e é exatamente por isso que as formas de sociabilidade que resistem ao capital precisam ser impiedosamente destruídas. Logo, o problema é muito mais importante do que a lógica redistributiva que está na base de formulações como a dessa pergunta. O capital concentra renda, é evidente. Ficar nesse terreno é permanecer na inútil retórica keynesiana. Mas ele faz muito mais do que isso: ele tende invadir e ajustar à sua lógica suicida – a acumulação pela acumulação – todas as dimensões da vida social: a vida amorosa, as comunidades, a arte, a vida familiar, etc. Em suma: o capital luta incessantemente contra a vida social e, é nesse sentido que, como diz Rosa, ele tende a se autodestruir. Logo, o colapso não é “econômico”, no sentido economicista do termo, mas sim um colapso da vida social. É a partir dai que se pode aproximar o legado de Rosa à questão ambiental e, por exemplo, ao problema do imperialismo que pode, depois da generalização das armas nucleares, efetivamente exterminar a humanidade. Basta abrir o jornal: a rivalidade geopolítica se intensifica, acompanhada de xenofobia e agravamento das tensões sociais.

ED: Rosa Luxemburgo sempre foi uma mulher de partido. Militou desde o Partido Socialista da Polônia até a socialdemocracia alemã, posteriormente a agrupação Spartakus e inspirada pela Revolução Russa, em 1918 ela inclusive deu origem ao Partido Comunista Alemão com Karl Liebknecht, em íntima aproximação com Lênin e Trotsky. O que isso nos diz sobre Rosa?

Mariutti: Essa é uma questão muito importante e difícil de ser respondida. Rosa sempre foi uma militante e, é claro, tinha clara consciência de que, de algum modo, a luta social precisava ter alguma organização. O problema teórico e prático: como manter o espírito de crítica radical inspirado nos problemas da grande massa de explorados e desqualificados socialmente e construir um aparato institucional suficientemente democrático e plural capaz de acomodar visões a princípio muito contrastantes sobre o diagnóstico da realidade e o prognóstico. Como fica claro na própria pergunta, ela sempre participou das organizações de luta, tanto como militante, professora e polemista. Neste campo, é clássico o seu ataque à Bernstein no Congresso do SPD em 1898, que acabou redundando em um interessante livro, chamado Reforma ou Revolução?, onde, inclusive, ela percebe com mais clareza o novo papel que militarismo (ela ainda não usa a palavra imperialismo) desempenhava no capitalismo. Rosa ganhou no discurso mas...perdeu na prática. A tendência reformista era verbalmente condenada nas diversas resoluções do SPD mas, na prática, o Partido tendia ao reformismo, nas mãos do que a própria Rosa qualificou depois como "pragmáticos". Aqui aparece o problema que sempre a torturou: como organizar a luta sem que os procedimentos institucionais-burocráticos ganhem uma vida própria e confinem a luta à preservação das próprias máquinas partidárias. Rosa foi claramente uma aliada de Lênin, mas que não era condescendente.Como é notório, em “Questões de Organização da social democracia Russa” (1904), Rosa proferiu uma dura crítica à proposta de Lênin para a organização do partido bolchevique: ao propor uma estrutura centralizada, baseada na rígida especialização de funções e no sigilo, composta por revolucionários profissionais e disciplinados, Lênin estaria negando o papel criativo das massas na revolução (o socialismo, para ela, só pode ser construído pela experiência prática das massas, partindo da experiência concreta dos oprimidos, como já falei) e, simultaneamente, reforçando um subjetivismo elitista (“subjetivismo” em um sentido preciso: a crença ingênua de que uma liderança poderia compreender e dirigir a revolução). Esta tensão sempre marcou o seu pensamento e sua vida. Este é mais um traço importante de sua obra, com claras implicações para o nosso presente imediato.

ED: Vivemos num país um profundo período de crise econômica, mas também política e social. Como o pensamento de Rosa pode nos ajudar a analisar a situação brasileira?

Mariutti: Como para qualquer outra realidade concreta, o pensamento de Rosa possibilita apenas uma primeira abordagem, isto é, permite a formulação do problema em termos gerais. E é a partir perspectiva que se deve partir, mas a análise e as formas de ação precisam ser constantemente balizadas pelas mudanças de conjuntura e pelos resultados obtidos. Não existem fórmulas prontas.

ED: Trotsky escreveu em 1932 que era "imprescindível resgatar a memória de Rosa Luxemburgo para transmitir à jovens gerações de trabalhadores, em toda sua grande e força inspiradora, esta imagem bela, heróica e trágica".
Qual seria, na sua opinião, o principal ponto deste resgate?

Mariutti: Um ponto é central: a íntima relação entre capital e violência. Mas isto exige desdobramentos. O mais imediato: o capitalismo é um sistema de exploração que sempre teve uma elevada capacidade de ocultar as diversas formas de coerção – políticas e simbólicas – que engendra para poder operar, criando a ilusão de que a violência é uma herança pré-capitalista que será abolida pelo próprio desenvolvimento (sic.) capitalista. Aqui repousa uma ilusão, que Rosa ajuda a desmascarar: conceber o capitalismo como o indutor do “progresso material” (o fetiche do desenvolvimento das forças produtivas) e o portador de aspecto civilizatório em um sentido bastante preciso: de substituir o conflito violento pelas formas sublimadas de competição racional, travadas no mercado e no jogo político “democrático”. Este duplo pressuposto está na base da sobreposição fantasiosa entre capitalismo, progresso, modernidade e civilização, a qual se encontra profundamente arraigada nas ciências sociais e nas práticas e instituições que lhes correspondem. Para Rosa, esta imagem não condiz com a realidade do capital. A força motriz da sociedade de mercado é a acumulação incessante de capital, que só pode se sustentar mediante a mercadorização sistemática do Homem e da Natureza que, entretanto, só contam enquanto suportes do processo de valorização do capital. É a partir desse quadro de referências que, com as devidas mediações, as demais questões devem ser formuladas. Logo, é fundamental abandonar de vez qualquer ilusão de que existe algo de civilizatório no capitalismo e, portanto, retomar a luta pela sua superação em todos os planos. A obra e a vida de Rosa Luxemburgo, a meu ver, simbolizam esse esforço.




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