Marielle Franco e o clã Bolsonaro: a ferida aberta do golpe institucional sangra

sexta-feira 25 de janeiro| Edição do dia

Nesse artigo, retomamos as principais hipóteses levantadas a partir das investigações, que nas mãos do Estado e da polícia nesses 300 dias do seu assassinato se mostram incapazes de dar uma resposta rápida e efetiva ao que aconteceu com Marielle. As suspeitas de envolvimento da família Bolsonaro podem esgarçar ainda mais a ferida deixada aberta pelo golpe institucional e balançar as bases de um governo que vivia o auge de sua lua de mel.

Marielle Franco e seu motorista Anderson foram assassinados no dia 14 de março de 2018, no Estácio, região central da capital carioca. Ela que era então vereadora do PSOL, estava no carro após sair de um debate na Casa das Pretas, localizada na Lapa, que começou a ser seguido por um Cobalt, até ter o seu carro emparelhado por um outro veículo, do qual foram realizados 13 disparos. Apenas uma assessora que estava no carro sobreviveu com ferimentos. Marielle era sujeito de apresentar na Câmara carioca algumas das denúncias da recém implementada Intervenção Federal, explicitando que a operação vinha aumentando ainda mais a quantidade de corpos negros que antes já eram produzidas pela Polícia Militar.

A intervenção federal foi uma "carta na manga" de Temer, um conveniente impedimento de manter a agenda da reforma da previdência, já que seu governo vinha tão impopular e a reforma precisaria, como mínimo, do alinhamento de 2/3 do Congresso, além obviamente de um alto poder de controle das massas, que naquele momento e também hoje são avessas à ideia de não poder se aposentar. O decreto que salvou Temer de viver uma crise presidencial ainda maior levou a que o RJ vivesse recordes de assassinatos de jovens pelas mãos do Estado, além de impor às trabalhadoras e trabalhadores do RJ um clima de medo e degradação social ainda mais profundo, no estado que enfrenta uma das maiores crises sociais no país.

Para os que ainda não conseguiam visualizar os efeitos concretos do golpe institucional, a morte de Marielle foi um duro recado, uma enorme ferida que se abriu no peito de cada ativista, mulher, negra, de esquerda. Não apenas porque seu assassinato aconteceu sem qualquer problema visível - ela foi morta em uma região movimentada, por volta de 20h, em um assassinato premeditado e planejado sem que ninguém interceptasse ou impedisse o plano de ocorrer - mas também porque no momento imediatamente posterior à sua morte, ficou claro que o estado carioca e o governo federal não teriam qualquer intenção de levar adiante uma investigação séria. Sua companheira viúva, Mônica Bergamo, contou à imprensa que a polícia apenas solicitou a senha do celular de Marielle cinco meses depois do assassinado, revelando, entre outros amadorismos, a total falta de seriedade na investigação do caso.

Essa é a postura de um Estado que se sabe responsável, que sabe que ao investigar estaria expondo a si mesmo, revelando seus segredos mais cruéis, de que é um Estado que sistematicamente persegue e assassina lutadores. A ONG Global Witness, que contabiliza os assassinatos a ativistas em todo o mundo, coloca o Brasil como primeiro no ranking com 57 mortes de ativistas em 2017 (primeiro ano do golpe), um número oficial subestimado frente às denúncias do mesmo ano, que falam de 197 ativistas assassinados, dentre eles famílias indígenas inteiras.

Veja abaixo os rumos tortuosos que percorre a investigação.

Há hoje duas hipóteses não contrapostas, 1 – envolvimento de milícias (com distintos suspeitos, agora os mais fortes são os do Escritório do Crime, havendo suspeitas de estarem atrapalhando a investigação, sumiço de provas) 2 – envolvimento de políticos cariocas.

Fatos

1 - Hipótese de que a morte da vereadora teria sido motivada por ela contrariar interesses de milicianos envolvidos em disputas de territórios na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Essa linha de investigação se baseava no depoimento de uma testemunha que relacionou o crime ao assassinato de um assessor informal do vereador Marcello Siciliano (PHS), também da Câmara do Rio. Essa denúncia foi publicada no jornal O Globo. Leia ela aqui.. Segundo o jornal, "o miliciano Orlando de Oliveira Araújo, o Orlando da Curicica, [teria sido] apontado por uma testemunha como um dos mandantes da execução da vereadora". Ele também foi denunciado pelo Ministério Público do Rio pela morte de Carlos Alexandre Pereira Maria, o Alexandre Cabeça, assessor informal de Marcello Sicialiano.

Com 60 dias de investigação, Jungmann dizia que a investigação estava chegando a etapa final.

2 - Em junho, porém, a revista Veja e O Globo noticiou que o promotor Homero Freitas Filho, coordenador da força-tarefa criada pelo Ministério Público do Rio para acompanhar o caso, tinha dúvidas sobre a validade do depoimento da testemunha em questão.

Depois disso MP e Polícia Cívil colocaram sigilo sobre as investigações, enquanto cresciam as especulações sobre envolvimento de políticos.

3 – Em agosto, Marcelo Freixo (PSOL), concedeu uma entrevista para a Veja, na qual disse que não descarta a possibilidade dos deputados do MDB: Edson Alertassi, Jorge Picciani e Paulo Melo estarem envolvidos com a morte de Marielle. Nas palavras dele "É assustador, mas não posso eliminar nenhuma possibilidade. (...) Quem matou mandou um recado. E, se continuar solto vai matar mais gente."

Os 3 deputados estão presos desde o ano passado, acusados de envolvimento com uma máfia de empresários de ônibus e a Delegacia de Homicídios tem uma lista de pessoas que visitaram os deputados nos últimos meses.

Apenas ao fim desse mês de agosto a polícia decide investigar o celular de Marielle.

4 – Paralelamente, também em agosto investigação descobre o ESCRITÓRIO DO CRIME.

A polícia chegou a essa hipótese a partir do interrogatório de um integrante da quadrilha. Dados de antenas de celulares, cruzados com um aparelho usado pelo suspeito, indicaram que ele estava no bairro do Estácio, onde aconteceu o crime, no dia e hora do assassinato. Além disso, o carro usado pelos assassinos foi flagrado enquanto passava pelo Itanhangá, onde fica a Favela Rio das Pedras, um dos redutos dos matadores. Essa hipótese foi levantada pelo Globo e retomada pelo canal Metrópoles

5 - Um dos depoimentos foi no dia 15 de setembro e o depoente não teve o nome revelado. O outro foi no dia 22 de agosto e é do ex-policial militar Orlando de Oliveira Araújo, o Orlando de Curicica, que está preso na penitenciária federal de Mossoró, Rio Grande do Norte, desde junho.

Orlando é apontado pela Polícia Civil do Rio como um dos principais suspeitos pela morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, Orlando afirmou a procuradores ter sofrido pressão da Polícia Civil do Rio para assumir que matou Marielle e Anderson, como poder ser lido na reportagem do G1.

6 - Houve suspeita de perda de provas e notícias de que imagens de câmeras de segurança, que poderiam ser cruciais à solução do bárbaro crime político, teriam desaparecido sob a custódia da Delegacia de Homicídios da Capital, como reportou o jornal O Globo.

7 - Uma força-tarefa do Ministério Público e da Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu na terça-feira (22), cinco suspeitos de integrar uma milícia que age em grilagem de terras, dentre os quais, dois suspeitos de envolvimento na morte de Marielle que haviam sido interrogados há alguns meses, quando a Polícia Civil passa a relacionar milicianos à morte da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes. A relação com Flávio Bolsonaro (filho do presidente eleito Jair Bolsonaro) oi feita imediatamente pela imprensa, que descobriu que o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que implica Fabrício de Queiroz (ex-assessor de Bolsonaro na ALERJ),cita também a mãe e esposa dos suspeito de integrar milícia, pois ela também trabalhava como assessora de F. Bolsonaro.

Raimunda Veras Magalhães é mãe do ex-capitão Adriano, que além dessa relação com Bolsonaro, foi homenageado pelo senador com uma moção de louvor na Assembleia Legislativa. O major Ronald foi homenageado em 2004 também por Flávio Bolsonaro na Alerj.

Todos esses fatos reafirmam: o Estado é responsável pela morte de Marielle e pela ausência de justiça e verdade sobre seu assassinato.

Exigimos verdade e justiça. Que sejam presos todos os envolvidos nesse terrível crime político e que os políticos citados sejam retirados de seus cargos até o final das investigações. Os passos da verdade desse caso são tortuosos, confusos e muitas vezes, aparentam ser intencionados por fins políticos, o que nos leva a questionar se é realmente possível que algo de verdade possa vir da investigação sobre a morte de Marielle.

Para conquistar justiça, não é possível confiar nas forças do Estado. Exigimos que o Estado dê as condições para uma investigação independente, liberando as provas já obtidas e garantindo segurança das comissões indicadas pelos movimentos sociais, sindicatos e grupos de advogados ativistas para que investiguem em segurança. Todo esse programa e a verdadeira justiça à Marielle só podem ser obtidas a partir de um enorme movimento, que envolva os sindicatos e entidades estudantis, que se mostre mais forte do que a repressão estatal. A justiça a Marielle será conquistada nas ruas. Não esqueceremos.

Marielle presente!

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