Mundo Operário

ESTADO ASSASSINO

Marcia: "Aqui no Rio, o governador implementa terrorismo e abate"

Essa é uma serie com 4 relatos de mães que tiveram seus filhos assassinados pelo estado, Marcia, Glaucia, Janaína e Laura.

quarta-feira 10 de abril| Edição do dia

Imagem: Domingos Peixoto/ O Globo

Quando uma mãe conta sua dor, o estado transforma em descaso,
engano, bala perdida, mas a polícia é treinada para odiar e matar
negros e pobres. A polícia é inimiga da classe trabalhadora e
enquanto for protegida por esse estado racista, seguirá sendo.

É necessário extinguir todas os tipos de polícia e suas tropas
especiais!

Mãe: Marcia de Oliveira Silva Jacintho Filho: Hanry Silva Gomes de Siqueira, 16 anos Executado em: 21 de novembro de 2002

Eu até colocava um pouco de fé no ministro da Justiça, mas me
desmotivei totalmente. Esse pacote é lamentável, e a maioria da
população não esperava esse posicionamento dele. Parecia um
homem tão coerente e digno, mas nos decepcionou. Aqui no Rio, o
governador implementa terrorismo e abate. Pode executar 15
numa casa, deixar as paredes todas furadas, matar sete, dez, não
tem problema, porque é legítimo e legal. O fato de estar envolvido,
ou mesmo que não esteja, não importa, mata. Essa situação ficou
agora muito mais difícil. Mas aqui tem mães muito corajosas e eu
acredito que ao nível nacional o nosso movimento continuará e
nós não vamos desistir.

Eu passei em 2002 um dos piores momentos da minha vida. Eu
cheguei do hospital com a minha neta de três anos, que teve muita
febre, e percebi que o meu filho tinha passado em casa, almoçado,
tomado banho e ido para o curso. Então, eu comecei a preparar o
jantar para que, depois, ele fosse à escola à noite. Por volta das
seis da tarde, eu escutei um tiro. A hora começou a passar e, como
meu filho não chegava, comecei a pensar que ele tinha ido direto
para a escola. Então, fiquei tranquila. Como estava muito cansada
depois de passar o dia todo com a minha neta no hospital, eu
cochilei.

Eu sempre escutava quando o meu filho chegava da escola. Meu
esposo acordou por volta das cinco da manhã para ir trabalhar e
falou para mim: "Amor, o Ri não está em casa". Como isso nunca
tinha acontecido, eu dei um pulo da cama e já muito tensa e
preocupada. Meu esposo foi trabalhar e eu saí batendo de porta
em porta dos amigos dele perguntando. Perguntava, perguntava e
nada. Na rua, um amigo meu falou: Olha, eu não quero colocar a
senhora em pânico, mas um amigo falou que ontem chegaram dois
baleados no Hospital Salgado Filho. Um era daqui e estava de
bermuda preta. E o meu filho estava de bermuda preta naquele
dia.

Quando eu abri a porta da minha casa, eu tive um sentimento de
mãe de que acabou, tudo acabou. Foi um pavor, porque meu filho
nunca dormiu fora de casa. Nós tínhamos uma vida muito regrada,
ele foi criado no Evangelho. Meu filho não fumava, não bebia, não
frequentava baile, nada disso. Nunca repetiu um ano. O desejo
dele era ser um jogador para poder me ajudar financeiramente e
sairmos do morro. Esse Estado assassino não deixou isso
acontecer. E lá no IML estava o meu filho com um único tiro no
peito, que transpassou o coração e o pulmão, ceifando sua vida.
Em meio aos trâmites do enterro, eu vim para casa sem saber o
que fazer.

Eu sempre gostei de ver filmes policiais, investigativos. Comecei a
lembrar que eu tinha um tio inspetor de polícia que foi morto. Eu
só tinha perguntas, o que houve, por que aconteceu? Foi quando
eu comecei a ver os peritos no local do crime, e o perito falou que
a responsabilidade da perícia é falar pelas vítimas que morrem sem
testemunha. Eu me levantei e comecei a procurar ali, aqui. Fui até
um vereador, mas não tive muito êxito. No Ministério Público, fui
desanimada também. E então fui à Comissão de Direitos Humanos
da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e lá
sim eu tive acesso ao inquérito.

Quando eu comecei a ler aqueles depoimentos dos policiais, o que
eles falaram, implantaram arma e droga, seis, sete elementos,
troca de tiros intensa. Aquilo juntou dor e revolta, mas começou a
me alimentar e me levantar de tal maneira por justiça para
esclarecer e fazer aquilo que a perícia me falou. Eu seria a perita.
Eu seria a luz da justiça. Eu pedi para o rapaz que trouxe a sandália
e a chave do meu filho, que estava num local cheio de sangue, que
me levasse até lá. Eu comprei um filme e pilhas para a minha
máquina fotográfica e falei: Agora, eu vou começar a ser detetive
e investigar.

Com poucas noções, baseada no que eu assistia nos filmes, na
intuição do coração de mãe e muita garra dentro da alma fui então
quebrar o álibi desses assassinos. Voltei a estudar para conhecer
os trâmites judiciais, fiz o primeiro período de Direito, busquei o
conhecimento suficiente para atuar como assistente de acusação e
ser a luz da justiça. Em 99% eu atuei nesse caso. Eu fui advogada,
perita, só não fui juiz nem júri. Eles têm a carteirinha, mas eu fiz
tudo na prática. Fui eu que levei os peritos ao local onde a
execução de fato aconteceu. O local que os policiais deram era
totalmente diferente, mas ninguém foi lá para fazer nada.
No local onde o crime de fato aconteceu, eu fiz como os peritos e
acompanhei todo o trajeto. Ali, durante mais de um ano, eu fui
fazendo as minhas investigações. Quando vinha policiais na
comunidade, eu pegava o número da viatura. Comecei a
acompanhar o caso de perto. Só que com sete meses da morte, o
delegado disse que não tinha mais o que fazer. Eu senti um
corporativismo. Então, eu parti para a luta. Fui para a mídia, fui até
Brasília.

Apenas depois de dois anos e nove meses, foi feita uma perícia
naquele local. Tinha uma cápsula e um vestígio na pedra que
poderia ser de sangue do meu filho. Parecia que não ia dar em
nada. Eu comecei a levar outras testemunhas principais ao MP e
passei a ter acesso direto ao promotor que cuidava do caso. Os
policiais falaram que o tiro foi debaixo para cima, mas o gesto que
o promotor fazia é que como se fosse de cima para baixo. Foi
então quebrado o álibi dos policias. E na verdade o tiro foi à
queima-roupa. O MP pediu então que os policiais fossem
indiciados.

Aí começou a minha saga no fórum. A vida das vítimas eles
investigam, mas a dos policiais, não. Ninguém investigou a vida dos
dois que assumiram o boletim de ocorrência. O Marcos Alvares da
Silva já tinha sido condenado e nunca foi preso. Enquanto
aguardava julgamento do meu caso, ele foi promovido. O outro,
Paulo Roberto Pachaíne, respondia a um processo de tentativa de
homicídio depois de um porre em Taboraí. A arma que eles
apresentaram como se fosse do meu filho era da Comarca de
Taboraí. Que coincidência uma arma da comarca estar no alto do
morro na mão de traficantes, não? O meu filho tinha feito uma
denúncia no 1º DP quando trabalhava num escritório de advocacia
como office boy e foi assaltado. Como pode um traficante fazer
queixa na delegacia? Que vergonha para a Justiça. Mas porque era
um pobre da favela desceu enrolado num lençol e chegou no
hospital como traficante. Todo mundo assina embaixo, que beleza,
é menos um.

Os policiais foram condenados e presos. O Márcio foi condenado
pelo crime antigo e depois pelo assassinato do meu filho. Pegou
nove anos, e o outro, três anos e alguns meses por fraude. Eles
conseguiram um novo julgamento em 2012 e foram condenados
de novo. E em julho desse ano vão a um novo júri. O que eles
alegam ainda não sei. Quando tive a notícia, fiquei muito mal, mas
vou procurar o promotor.

Hoje eu sou hipertensa, tenho problemas de coração. Agora eu
tenho que voltar a lutar para que esses caras do pacote do Moro
junto com Bolsonaro e o governador do Rio não achem uma
brecha para saírem livres e voltarem a trabalhar para matar. A
única coisa que eles querem é continuar matando, e agora mais do
que nunca se beneficiam com esse pacote.

É difícil chorar muito, perdi minha mãezinha há seis meses e ela
sofreu muito a perda do neto. Minhas filhas sofreram muito com a
perda do irmão e foram todos criados com tanto amor e carinho.
Quantas mães sofrendo. E o que lutamos no passado ficará muito
mais difícil agora. Se já era difícil provar a inocência dos nossos
filhos, agora ficará pior. Mas em vários lugares do Brasil existem
mulheres que não temem. A única coisa que eu temia era que
alguma coisa acontecesse com o meu filho. O único medo que eu
tinha era perdê-lo, e isso aconteceu. Então agora eu não temo
mais nada.

O Pacote do Mouro é a prova de que o estado é o balcão de
negócios burgueses, pois uma lei que serve para legitimar as
matanças e os assassinatos pelo estado. Os policias tem juri
especiais, onde são julgados entre seus pares, muitas vezes os
relatos não batem as provas e mesmo assim, saem impunes.

No pacote do mouro essas questões de tornam regras e os policias
podem ter metade de suas penas ou simplesmente serem
absolvidos com a desculpa que era por legitima defesa.
Basta de mortes dos jovens negros, liberdade para a juventude
construir o futuro!

Fonte: Uol – Renata Gomes




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