Teoria

TEORIA

Mao Tse-tung e a estratégia da guerra popular prolongada – uma reflexão

Gilson Dantas

Brasília

sábado 30 de maio de 2015| Edição do dia

O PC chinês, com Mao Tse-tung à cabeça, depois de longa guerra civil nacional, terminou vitorioso e a partir de 1949 desenvolveu uma dinâmica anticapitalista de massas, apoiado no campesinato: a revolução chinesa [1]. Desde então, Mao está presente no imaginário de boa parte da esquerda, como um dos grandes lideres revolucionários do século XX. E também como um mestre da arte militar, líder incontestável da Longa Marcha.

Há outro elemento, de Mao, que também passou a integrar o imaginário, sobretudo da esquerda maoísta, que entende que a estratégia desenvolvida pelo PC chinês seria uma espécie de modelo estratégico para outras revoluções, para países como o Brasil, por exemplo. Uma espécie de variante estratégica em relação à dos bolcheviques, isto é, “a guerra popular prolongada” maoísta - até por ter sido vitoriosa -, seria uma estratégia adequada para levar adiante uma revolução que avance ao socialismo. Nesta estratégia tampouco se questiona a impossibilidade do “socialismo num só país”, base do pensamento de Mao. No nosso meio, a guerrilha do PCdoB no Araguaia, por exemplo, se espelhava na estratégia maoísta da “guerra popular prolongada”. E muitos revolucionários dos anos 50 e décadas seguintes, até viram em Mao um teórico e revolucionário capaz de ser alternativa a Stálin (coveiro político da Revolução Russa).

No entanto, uma vez examinados os marcos históricos em que se deu o triunfo de Mao Tse-tung, sua concepção estratégica e também o próprio desenvolvimento burocrático da revolução chinesa, fica difícil enxergar a ideia da estratégia maoísta como uma opção na luta pelo socialismo.

Primeiro o contexto. A guerrilha maoísta se implantou sobretudo nos anos 30, seguiu muito ativa durante a II Guerra e o exército camponês de Mao entra vitoriosamente em Beijing em 1949. Em quase todo aquele período a China esteve terrivelmente fustigada pela invasão imperialista japonesa. A guerrilha conduzida do lado camponês pelo PC, foi travada nos marcos de uma guerra de libertação nacional. Na qual a luta contra o invasor ganhou um perfil popular, à semelhança do Vietnã mais adiante. Este é o primeiro elemento a ser sempre levado em conta. Temos um país basicamente camponês em guerra civil prolongada contra o invasor odioso, mesclado com guerra agrária, ocupações de terras. Por sua vez a burguesia chinesa escolhia o campesinato sublevado como inimigo principal. Sangrentos massacres de camponeses foram desfechados por Chiang Kai-shek (Kuomintang), lado a lado com brutal perseguição aos comunistas, que tinham sido desterrados, depois dos massacres urbanos do final dos anos 1920, para o campo. Mao e suas tropas recuam, na famosa Longa Marcha de 1935, e dos 100 mil iniciais, somente sobreviverão nove mil ao final dos 10 mil km de marcha a pé. Estes constituirão o embrião que, através do combate permanente, muitas derrotas, muitas zonas liberadas, enfrentamentos desiguais com tropas invasoras e o exército governista de Chiang, terminarão vitoriosos a partir do amplo apoio camponês.

O sujeito revolucionário será o campesinato, naquilo que a estratégia maoísta chamava de “bloco das quatro classes” (burguesia nacional, pequena burguesia urbana e proletariado, com centralidade para o exército camponês).

Sua concepção de partido foi sempre a de partido-exército, portanto com funcionamento interno e tática puramente militares. Sua estratégia, diferentemente da estratégia de centralidade proletária de Lenin e Trotski, se assentava no exército camponês, mas diferia também no sentido de constituir, de fato, uma variante da revolução por etapas (de Stálin); isto é, primeiro se faz uma aliança de luta e de poder político com a burguesia chinesa, deixando a revolução socialista para mais adiante.

Unindo estes elementos seminais do maoísmo, o resultado final é que a revolução já nasceu burocratizada. Conduzida por um aparato basicamente militar de base camponesa, que governa em lugar dos órgãos de democracia de base, proletária, e adotando aquela concepção etapista e das quatro classes. Teremos, desde o início, uma revolução onde a emancipação não é obra dos próprios trabalhadores e camponeses com seus órgãos. Na verdade o PC chinês conscientemente nunca praticou ou estimou a democracia fabril, os comitês de fábrica, muito menos sovietes. Este elemento estratégico dos bolcheviques não fazia parte da “guerra popular prolongada maoísta”.

Em decorrência teremos uma revolução que já nasce deformada e, décadas depois, ainda com Mao, marchou para reformas de natureza capitalista, sem jamais ter postulado a centralidade operária.

A tática maoísta de guerra de guerrilha popular, contra o invasor estrangeiro, imperialista, é absolutamente defensável, e o PC e o campesinato foram heróicos nestes marcos, mas para os bolcheviques, como argumenta E. Albamonte, “a tática de guerra de guerrilhas, será sempre uma tática e não uma estratégia. Como estratégia é oposta à da Revolução Russa, porque nesta estratégia se tende a buscar que toda uma classe, o proletariado, eleve seu nível político e se transforme em sujeito de sua libertação”.

Na China um exército de base camponesa levou adiante uma guerra de libertação nacional que avançou a medidas econômicas e sociais anticapitalistas sem que em momento algum os trabalhadores contassem com seus órgãos democráticos de luta e de poder. A tática essencialmente militar negava a estratégia do poder político dos trabalhadores. Não conduzia a esta perspectiva na qual vingasse a ditadura da grande maioria da sociedade, sob direção proletária, contra a minoria de senhores de terras, de indústria e da finança. Os assalariados não se transformaram em sujeito revolucionário, até porque não era essa a estratégia consciente de Mao Tse-tung.

No entanto, por se tratar de uma questão chave, absolutamente atual a cada revolução que tenda a eclodir no nosso tempo, torna-se necessário suscitar o debate sobre qual a verdadeira estratégia que pode levar os trabalhadores ao poder de Estado. A palavra e a tradição está com os bolcheviques, cujo partido organizou a tomada do poder pela classe operária e seus órgãos de massa (no caso deles, os sovietes).

[1]As tentativas anteriores, de revolução proletária, de 1927-28, foram derrotadas pela política de conciliação de classe do PC seguindo a linha Stálin.

REFERÊNCIA: Um debate de estratégias, conferência de Emilio Albamonte, em 2007, na Universidade de Buenos Aires, publicada em português no livro Trotski, os sovietes e a estratégia da revolução social contemporânea, 2009, Edições Centelha Cultural.




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