TEORIA / Brasil

Manoel Bomfim: um sergipano que deveria estar nos livros escolares [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 31 de janeiro| Edição do dia

[Esta nota é a segunda parte daquele publicada no EDhttp://www.esquerdadiario.com.br/Ma... com o título Manoel Bomfim e os “males de origem” da América Latina – o parasitismo imperialista]

O conceito de “males de origem” em Bomfim, como ele reitera ao longo desse seu livro, gira em torno do que ele chama de parasitismo social. Aqui está incluído o elemento local, de elites dominantes locais parasitárias, mas, em grande medida, o que sobredeterminaria a conduta obscurantista e de rapina do governo local, seria justamente aquele outro componente, o do colonialismo. Isto é, de parte de grupos dominantes locais haveria o submetimento oportunista (como ele várias vezes especifica) e vassalo à relação colonialista da metrópole, antes portuguesa, e, em seguida britânica.

Ele captava, claramente, e já nos primeiros anos do século XX, o caráter predatório da relação colonialista.

[Nas palavras de Bomfim: “O governo da metrópole exigia para si o preciso para alimentar-se e aluvião de parasitas -toda a nação; e, na colônia, a população parasita era também enorme” (A Latina, p.133).
E também: “Portugal, como a Espanha, acha a fórmula do parasitismo integral. Nada de indústrias, nada de relação com o resto do mundo, nada de produtos novos: açúcar e ouro, para mandar à metrópole, por intermédio de mercadores da metrópole” (A Latina, p.137).
“Quando começou a colonização da América, já as nações peninsulares estavam viciadas no parasitismo, e o regime estabelecido é, desde o começo, um regime preposto exclusivamente à exploração parasitária” (idem, p.116). “Português ou espanhol, ele vinha para entesourar e não para trabalhar” (idem, p.130).
Ele continua: “Portugal, como a Espanha, acha a fórmula do parasitismo integral. Nada de indústrias, nada de relação com o resto do mundo, nada de produtos novos: açúcar e ouro, para mandar à metrópole, por intermédio de mercadores da metrópole” (A Latina, p.137).
“Quando começou a colonização da América, já as nações peninsulares estavam viciadas no parasitismo, e o regime estabelecido é, desde o começo, um regime preposto exclusivamente à exploração parasitária” (idem, p.116). “Português ou espanhol, ele vinha para entesourar e não para trabalhar” (idem, p.130).
“O regime estabelecido (no Brasil, GD) é, desde o começo, um regime preposto exclusivamente à exploração parasitária” (idem, p.116)].

De diferentes formas e ângulos, essa argumentação é fundamental em Manoel Bomfim.

Sua obra América Latina, males de origem vai estabelecendo, argumento após argumento, aquela amarração conceitual: o colonialismo (quase todo o tempo qualificado por ele como parasitismo) sobretudo a herança colonial é o problema da América Latina.

Ou seja, à parte as comparações biológicas, o conceito ou a noção de que os males da América Latina derivam daquela relação colonialista que a região travava com as metrópoles ibéricas, é patente .

[Para Bomfim: “Portugal era o escritório de uma vasta fazenda ultramarina” (América Latina: males de origem, p.231)]
[Quanto às comparações biológicas presentes no texto de Bomfim e bem à la Auguste Comte, elas eram próprias do ambiente positivista que se vivia em certos círculos intelectuais da época, inclusive em Paris, onde Bomfim escreveu esse seu livro. O que é qualitativamente diferente em Bomfim é que seu “positivismo” justamente bate de frente contra a pretensa neutralidade sociológica dos positivistas].

Manoel Bomfim denuncia uma elite cabocla conservadora totalmente aliada ou fundida aos interesses colonialistas. A mesma elite que oportunisticamente transitou do poder político da colônia para o poder político da República. Que fez da Independência uma burla, e da República idem. E que tem “um poder incontrastável; pesam pelo número, pela fortuna, pelas tradições e pela situação especial em que se acham” diz ele. É nesse contexto que Manoel Bomfim defende a validade e a legitimidade da luta dos “nacionalistas radicais” contra aquela elite oportunista e conservadora.

Em outras palavras, Bomfim se coloca na contramão do pensamento conservador dominante, e vai fustigar essas elites intelectuais e políticas como responsáveis pelo estado de decadência que ele tão veementemente denuncia na Nação brasileira. Para ele, os momentos de “corte” na História do Brasil, como a Independência, a Abolição, a República, não representam cortes com o passado, na medida em que os conservadores das elites dominantes sempre tiveram o oportunismo de aderir e capitanear o “novo”.

Aqui, seu anticolonialismo toma as cores de um nacionalismo radicalizado que coloca o povo como centro, aponta ou sugere uma posição de classe: “Em verdade, no Brasil, a luta entre os nacionais radicais e esses elementos não é uma luta de nacionalidades: é o eterno conflito dos oprimidos e espoliados com o explorador dominante - dos parasitados e parasitas [América Latina: males de origem, p.231] .

Evidentemente esse pensamento está a léguas de distância do liberalismo de um Gilberto Freyre ou de um Sílvio Romero. E não é à toa que trataram de desqualificá-lo como panfletário, “manoelzinho” radical, “socialista bastardo” (S.Romero), ou “completo idiota” adepto de um “catolicismo socialista”, ainda na opinião de Romero.

[S. Romero manifestava interesse na questão da educação, mas sua concepção, como mostra Silva, é a de que “a saída para os males do Brasil” dependia das “forças vivas do país”, isto é, das grandes empresas de navegação, dos bancos, das indústrias, e não da intervenção do Estado na difusão da educação”.
Parceiro de várias obras sobre educação com Olavo Bilac, Bomfim propunha a educação com muito mais ênfase e radicalidade que Romero, que os liberais de sua época (tipo Rui Barbosa, por exemplo), entre os quais havia como mostra Silva, um consenso na defesa da instrução popular como essencial para o progresso da Nação.
Mas a educação que Bomfim postulava, diferentemente da proposta dos que se preocupavam então com o tema, era massivamente voltada para os “de baixo”]

2 . A relevância do anticolonialismo em Manoel Bomfim.

Seu conceito e seu diagnóstico eram a grande novidade teórica (e política) do seu tempo, no Brasil. Sua noção sobre as relações coloniais, ainda que mais desenvolvida por outros autores europeus, sobretudo marxistas, é relevante, como argumentaremos a seguir. E merece todo destaque uma vez que o debate nacional ia em outra direção mais empobrecedora teoricamente, além de conservadora.

E, sobretudo prevaleciam análises do Brasil sem qualquer teoria crítica ao colonialismo (ou ao neocolonialismo) – nos termos de Bomfim - que é uma notável
contribuição que Manoel Bomfim vai trazer com sua obra. Ele argumenta que as colônias como o Brasil é que sustentavam, com seus ganhos, a parasitária máquina burocrática (estatal e clerical) das nações ibéricas.

Toda a análise de América Latina vai na linha da percepção de um processo histórico de reciclagem do colonialismo. Que vem a ser, na verdade, a chegada do imperialismo, teorizado a partir de 1902 por Hobson, em seguida Hilferding e, mais adiante, por R. Luxemburgo, Bukharin e Lenin [1913,1915e 1916, respectivamente].

Ou seja, seu entendimento global é o de que a independência das nações latino-americanas significou a passagem do poder político da coroa espanhola ou da portuguesa para os grupos criollos (donos da maior parte das terras, manufaturas e comércio das colônias). Estes, por sua vez , evoluem do colonialismo espanhol ou português para o neocolonialismo (ou imperialismo) inglês e norte-americano. Essa foi a história da independência política latino-americana.
À reciclagem do colonialismo no Brasil, correspondia, em grande medida, uma redivisão territorial do mundo entre as velhas e novas potências imperialistas mundiais, cuja rivalidade conduziria, em 1914, à I Guerra Mundial.

3 . Discussão e Observações finais.

Dito de outra forma: dificilmente é possível que se possa compreender o atraso e os males sociais da América Latina da época de Manoel Bomfim sem que seja levada em conta a noção da relação de colônia que originou o Brasil, e de sua condição subsequente de neocolônia, na qual o país é percebido nas análises de Bomfim.

Outras maneiras de entender - como as que dominavam a sociologia brasileira do seu tempo - que abstraiam a espoliação imperialista, tenderão a amputar uma relação essencial que o Brasil vivia, tenderão ao reducionismo, ao empobrecimento do diagnóstico que, em Bomfim aparece mais rico (ao incluir, nos seus termos, a determinação do colonialismo e neocolonialismo). E, em alguma medida, atual.

É desnecessário, de certa forma, dizer que o Estado brasileiro atual não é mais aquele oligárquico e agrário da primeira década desse século. Mas nunca é demais lembrar que a espoliação continuou, que há uma razoável quantidade de estudos mostrando que o Brasil pós-Manoel Bomfim, o Brasil contemporâneo, continua parasitado pelo capital estrangeiro, remetendo riquezas colossais (em juros, lucros, ganhos de todo tipo), numa sangria desatada que mantém o paciente Brasil constantemente anêmico: sua dívida social, não para de crescer, a despeito de toda a modernização e da base industrial alcançada. Sua dependência do imperialismo cresceu exponencialmente desde os tempos de Bomfim.

[A espoliação é maior que nunca. Só a dívida interna do Estado brasileiro já supera 200 bi de dólares, sendo que a externa vai além dos 150 bi – em dados de 1996 - , ambas em favor de grandes grupos financeiros internacionais, além das perdas internacionais de todo tipo (minérios, alienação de patrimônio construído com dinheiro público, patrimônio estratégico e altamente produtivo, desfrute de tecnologias monopolizadas, controle dos setores mais dinâmicos da economia interna). A burguesia e sua elite política local abraçou a opção já denunciada por Bomfim, de sócio menor do imperialismo].

Dessa forma, e sem ignorar que além dos “males de origem”, existe a estrutura de classe e de concentração de renda interna, não é demais reconhecer no diagnóstico de Manoel Bomfim, uma noção de valor sociológico e político da maior atualidade para se compreender porque os “dois brasis” continuam afastados, em colisão, e o país em profundo processo de endividamento e quebra (déficit público) .

Vale aqui registrar a constatação de Luís Bomfim, neto de Manoel Bomfim, de que quase um século depois de América Latina, males de origem, o continente siga sua trajetória de espoliação.

“Em 1905, Manoel Bomfim estava à frente de seu tempo e a América Latina se encontrava atrás do tempo do mundo de então. O grande drama do continente americano é que, nos dias de hoje, o América Latina, males de origem, de Manoel Bomfim, que deveria ser como um videoteipe em preto e branco do passado, se apresenta como uma reportagem a cores - e ao vivo - do presente” [Esse argumento é de Luís Bomfim, neto de Manoel Bomfim, no posfácio a América Latina, males de origem].

Quanto aos limites e contradições daquela noção teórica de Bomfim, do seu diagnóstico, eles fazem mais parte dos limites do seu tempo, de seu horizonte social (como integrante de um pensamento que, nas conclusões e propostas não chegou a ir além de um radical liberalismo), do que outra coisa.

Não estava posta por esse tipo de abordagem, que fica preso aos limites da democracia formal, do desenvolvimento em moldes capitalistas, a percepção de que a “saída norte-americana” não era a melhor para arrancar o Brasil da miséria e desigualdade social, ou que a educação popular não seria propriamente uma prioridade para uma elite burguesa periférica. Muito menos estaria ao seu alcance perceber os limites e contradições insanáveis de um desenvolvimento do tipo capitalista num país como o Brasil.

[Escrito em 1997] [Publicado nos Cadernos do CEAS, Salvador, 2/2002]
[Continua na parte III, brevemente no ED]

SILVA, J M Oliveira, 1991. Da Educação à Revolução: radicalismo republicano em M Bomfim. Dissertação de Mestrado em História Social, FFLCH da USP, 1991, 187 pp. Mimeo.




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