Teoria

Manoel Bomfim e os “males de origem” da América Latina: o parasitismo imperialista [Parte I]

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 20 de setembro| Edição do dia

Introdução

Manoel Bomfim integra uma geração de autores que nas primeiras décadas do século XX trataram de entender as raízes do Brasil, explicá-lo como um todo, através de um apanhado global dos fundamentos da nacionalidade, e desta situada no contexto da A Latina. Diferentemente de autores como Oliveira Vianna, Sérgio Buarque, Azevedo Amaral, Nestor Duarte, Gilberto Freyre, Silvio Romero e outros, em sua maioria bem posteriores a Bomfim, o que vai acontecer com este é que será esquecido, torna-se um “ensaísta esquecido”, nas palavras de um estudioso de sua obra [Alves Filho].

[Manoel Bomfim nasceu em Aracaju, na segunda metade do século XIX (8.8.1868). Filho de senhor de engenho em Sergipe, estudou medicina na Bahia e doutorou-se no Rio de Janeiro com tese sobre doença renal. Foi professor, jornalista, secretário de Educação do Rio (Diretor de Instrução Pública), e chegou a deputado federal em 1907, na vaga aberta pelo general Valadão, integrando a bancada sergipana que incluía Sílvio Romero, Gilberto Amado e Felisberto Freire.
Escreveu A Latina: males de origem, quando estudava pedagogia e psicologia em Paris, nos primeiros anos do século XX. Morreu em 1932, ao que parece, de câncer de próstata. Nos últimos 5 anos de vida, já sabendo estar gravemente enfermo, escreveu O Brasil na América, O Brasil na História, O Brasil Nação e Cultura e educação do povo brasileiro].

Em sua primeira obra, publicada em 1905, o livro América Latina, males de origem, o médico, pedagogo e ensaísta sergipano Manoel Bomfim procura traçar um diagnóstico para a tragédia do subdesenvolvimento brasileiro e latino-americano. É em torno dessa sua obra (mais do que nas posteriores) que vamos discutir um dos elementos da concepção de Bomfim: sua postura anticolonialista.

Sendo sua concepção claramente anticolonialista, qual a importância de tal formulação em plena República Velha, em 1905? Qual a sua atualidade? E, ao mesmo tempo, quais os limites dessa sua postulação anticolonialista em termos do diagnóstico dos “males de origem”? Sem qualquer pretensão de ir além dos limites de uma nota preliminar, esse é o tema a ser tratado aqui.

Antes, porém, vale destacar que, seja por essa sua postura, seja pelo conjunto do seu pensamento social, antropológico e histórico (a respeito dos fundamentos da Nação brasileira, por exemplo), Manoel Bomfim vem sendo resgatado por alguns intelectuais de nosso tempo.

Mesmo Darcy Ribeiro toma sua obra como tão avançada e tão lúcida, que, na sua avaliação, Manoel Bomfim seria para ele, o “maior pensador original que nós, latino-americanos, geramos”, “o fundador da antropologia do Brasil e dos brasileiros” e um pensador maduro já em 1905, quando publicou A Latina.

[Darcy (em sua apresentação à esta obra de Manoel Bomfim, A Latina: males de origem) sendo crítico ao “biologismo sociológico” de Bomfim, acrescenta que “só Manoel Bomfim naqueles anos, teve olhos para ver que as teorias europeias do atraso e do progresso que os atribuíam ao clima, à raça, à religião católica, são de fato, mistificações urdidas para disfarçar ações hediondas”. Tais teorias seriam pouco mais que ideologia do colonizador].

Bomfim, aliás, foi particularmente crítico às teorias racistas e enfoques preconceituosos quanto ao mestiço.

Franklin de Oliveira, por sua vez, considera Bomfim um “autêntico reformador social”, um pensador social de maior profundidade que Euclides da Cunha.

Bomfim e Euclides publicam suas obras praticamente na mesma época. “Mas enquanto na obra prima de Euclides não há uma só reflexão sobre a pobreza - a miséria brasileira e dos brasileiros -, em Manoel Bomfim essa reflexão é fundamental. E constante” [Franklin de Oliveira na sua apresentação ao A Latina: males de origem, p.23.]. O “povo brasileiro não era inferior, era inferiorizado”, foi essa realidade que Bomfim percebeu, argumenta Franklin de Oliveira. Daí que todo seu biologismo, suas imagens da biologia aplicada à sociedade, vão frontalmente contra o biologismo arianista, este verdadeiramente positivista.

[Há quem aproxime Bomfim da teoria da luta de classes de Marx, como é o caso de autores como Roberto Ventura e Flora Sussekind em História e dependência: cultura e sociedade em Manoel Bomfim, S.Paulo, Ed.Moderna, 1984, conforme mencionado por SILVA. Ou mesmo Nelson Werneck Sodré que crê que Bomfim recorre a elementos da análise marxista para analisar a A Latina. Em todo caso, convém lembrar que em certa passagem de sua obra, Bomfim critica explicitamente Karl Marx e sua teoria “econômica” (sic) da luta de classes (SILVA)].

Para Dante Moreira Leite (O caráter nacional brasileiro, de 1954), Manoel Bomfim representa uma tentativa de afirmação das classes desprotegidas. Antônio Cândido vê Manoel Bomfim como “o grande pensador do contra”, o “crítico das oligarquias e do imperialismo estrangeiro”, como lembra SILVA, que, por sua vez, valoriza “a dimensão radical da obra de Bomfim no interior da cultura brasileira”(idem).

Sobre a época ou o Brasil de América Latina: males de origem, é importante destacar que não existia, no país - país agrário periférico do início deste século, recém emancipado do Império português mas vivendo ainda como colônia -, qualquer movimento anticolonialista de peso, muito menos movimento sindical (este era incipiente) significativo contra a ordem vigente. Ao contrário, a intelectualidade que contava, que tinha vez e publicava, raciocinava adotando como naturais, como senso comum, pressupostos racistas e imperialistas.

Ao ponto de o livro de Manoel Bomfim ter-se tornado conhecido pelos polêmicos ataques desencadeados contra ele por Silvio Romero [Em sua obra de réplica a Bomfim, intitulada A América Latina - análise do livro de igual título do Dr.Manoel Bomfim, publicado em Portugal por Sílvio Romero em 1906], este um intelectual sergipano como Bomfim, conhecido e com trânsito nas elites pensantes da época, mas de concepções políticas ligadas à defesa do racismo científico.

É nesse ambiente de uma ordem intelectual permeada pelo viés colonialista (ou de um pensamento colonizado) que vai aparecer a nota dissonante de Manoel Bomfim.

[Praticamente, só anos após a publicação de América Latina, é que autores industrialistas como Alcindo Guanabara, Lauro Muller e Barata Ribeiro, dentre outros, irão denunciar, com ênfase, a miséria brasileira como fruto de drenagem de riqueza para fora. José Veríssimo, por sua vez, já criticava o pan-americanismo dos EUA como do tipo “A América para os americanos...do Norte” (SILVA)].

Mesmo não acenando com um projeto revolucionário do tipo, por exemplo, socialista (sua proposta ia pouco além da alfabetização e educação em massa, dentre outras medidas) , Bomfim não encontrou acolhida.

[Seu diagnóstico sobre os males, sobre o atraso latino-americano apontava no sentido de que essa região era “vítima da formação colonial” que recebeu; para acrescentar que esses “males são curáveis: questão de educação “. “Para Manoel Bomfim, a falta de educação popular, depois da consolidação da República com Floriano, era o maior problema do país”, como destaca SILVA, em obra posterior de Bomfim, "Salvar a América"]. Em "América Latina", ele propõe, a partir de argumentos fortes, a saída: instrução popular oferecida pelo Estado].

Se apenas 10% da população votam, argumenta Bomfim, se existe a “ignorância absoluta das massas”, o “sufrágio universal é uma burla” (BOMFIM).

De toda forma, não é difícil de se imaginar o porquê da frieza e, finalmente, na pena de Silvio Romero, o rechaço com que as ideias de Bomfim foram recebidas. Seu conceito de males de origem, sua denúncia anticolonialista, destoava e estava na contramão daquilo que os intelectuais da ordem discutiam sobre o Brasil e suas mazelas. Mesmo que Bomfim não superasse – ao menos até próximo do fim da sua vida - os limites de um liberalismo radical (ver a respeito tese de SILVA).

[Favorável aos rebeldes de Canudos, favorável à reforma agrária, francamente contrário ao que ele chama de ação imperialista brasileira no Paraguai (na Guerra do Paraguai), simpático à URSS, mas crítico á III Internacional, simpático à Revolução Mexicana de Pancho Villa, e ao mesmo tempo, adepto da democracia formal (liberal), Bomfim já foi qualificado como um “nacionalista de esquerda” por Boris Fausto, ou como um nacionalista simpático a Floriano, a quem Bomfim tinha na conta de um democrata radical].

1 . O anticolonialismo em Manoel Bomfim.

Além de outras dimensões dessa sua obra, América Latina, há momentos, nas formulações teóricas de Manoel Bomfim, onde ele muito se aproxima da noção de imperialismo. Ou da consciência teórica sobre o mecanismo e as consequências implícitas na férrea relação colonial (ou neocolonial). Essa é uma dimensão em Bomfim, cuja atualidade merece ser discutida.

Um dos momentos onde Manoel Bomfim mais dá forma ao conceito ou ao conteúdo da relação colonialista está em América Latina (pp.175-176) onde ele analisa a condição do Brasil como “colônia vassala” falsamente emancipada.

Vejamos seus argumentos. “O Brasil fez-se o cafezal do mundo; com o preço do café comprava tudo. Ao café juntou a borracha; houve um momento de deslumbramento universal. A fazendeirada nadou em dinheiro; terras, que valiam ontem vinte mil réis o alqueire, vendem-se hoje por 1500 réis. Dormindo, peralteando nas cidades, o fazendeiro, apesar de roubado por uma dúzia de intermediários, tinha, líquidos, por ano, 40, 50% do preço da fazenda. E agora, na própria fazenda, como já não havia escravos, e o trabalho custava dinheiro, só se cultiva café, compra-se tudo mais, até o feijão e o arroz”.

“E o Estado radiante, em face desta prosperidade... colonial! Sim, era a perpetuação do regime colonial. Em tempos (tais eram os interesses da metrópole), o Brasil produzia açúcar, e com ele pagava tudo mais de que carecia; depois, produziu ouro, depois café, e café e borracha; variam os gêneros, mas não varia a condição. Tal regime será o de uma nação? ... Uma nação é um organismo completo, bastando-se a si mesmo. Só os povos que chegam à emancipação econômica e industrial podem dizer que possuem independência política. Não é o nosso caso - a nação, eternamente ignorante e colonial, eternamente dominada e explorada pela avidez européia. Economicamente, não há diferença entre o Brasil de 1800 e o de hoje”.

“Era uma colônia vassala; é, hoje, uma colônia independente. Há oitenta anos que a nação se emancipou - que tem feito o Estado para levá-la a esta independência econômica? Nada; pelo contrário, atua como um elemento conservador, orientado como tem sido, geralmente, por essas classes refratárias, rotineiras. Além disto, as suas inspirações, quanto à política econômica, ele as tira nas opiniões dos financeiros britânicos, os quais, certamente, não têm nenhum interesse em ver o Brasil (principalmente o Brasil) ou qualquer outra nação colonial, encaminhar-se para a emancipação econômica. O seu interesse, a sua política, as suas doutrinas sócio-econômicas propendem todas para induzir as nações novas, a persistirem nesse regime, que as conserva numa situação de manifesta inferioridade, mercê da qual serão facilmente exploradas, quando não reduzidas a essa tutela financeira, qual a que a Inglaterra exerce sobre o Brasil”

(...). “Escritores, que nada tinham com o Brasil, já diziam em 1876 : “O Brasil é o cafezal do mundo; com o café compra farinha, paga pão que não tem, compra os panos para se vestir, e tudo mais de que carece. É fora de dúvida que ganha muito; mas é também incontestável que pode estar preparando uma crise futura”. Então, os economistas públicos riram, com certeza, da profecia. Continuou a orgia; 4/5 do país viviam na miséria e no abandono, enquanto as terras de café e borracha borbulhavam em ouro, como um campo de exploração mineira”.

“Mas como o resto do mundo não há de suspender a ordem normal dos sucessos para não desmanchar os prazeres do fazendeiro e do comércio, veio a crise; café e borracha valem um terço do que valiam há 10 anos; agora , rompe o coro das lamentações, e o Estado, o garantidor, até então, desse regime colonial, acolhe-se hoje às fórmulas spencerianas, inventa um darwinismo social que nunca passou pela mente do naturalista inglês, e diz que: ´Não é do seu papel intervir em tais coisas... cada um que ache por si o seu caminho... os que se sentem fracos, resignem-se a ser devorados...” (BOMFIM).

Esses são alguns dos seus argumentos.

Além de resumir em poucas, vibrantes e didáticas palavras a verdadeira condição do Brasil, sua história econômica, as raízes mais profundas dos seus impasses, Manoel Bomfim percebe com significativa clareza sua condição de Nação subalterna e, agora, sob “tutela financeira” do imperialismo inglês. Ora, para seu tempo, para o ambiente intelectual brasileiro de então (início do século XX, em plena República dos fazendeiros), não era qualquer coisa.

[Sobre a história do Brasil-colônia, Bomfim não adota meias palavras. Ele cita e aprova a seguinte interpretação sobre a fase colonial brasileira : “A América produzia com o trabalho dos negros o bastante para alimentar o luxo de uma aristrocracia perdida e a ociosidade de uma classe média beata” (BOMFIM). E reforça essa idéia acrescentando mais adiante : “É esta a síntese da vida econômica das novas nacionalidades por todo o tempo de colônia: o senhor extorquindo o trabalho ao escravo, o negociante, o padre, o fisco e a chusma dos subparasitas, extorquindo ao colono o que ele roubara ao índio e ao negro. Trabalhar, produzir, só o escravo o fazia” (idem)].

Sua formulação teórica, aqui, é meridianamente anticolonialista. Anti-imperialista, portanto. E além do elemento de pioneirismo e ousadia teórica (e diagnóstica), de um autor brasileiro que resultou ser dos que mais se aproximou de uma visão profunda da realidade brasileira daquela época, vê-se, naquela sua percepção anticolonialista, uma radicalização que o coloca à esquerda de todo o espectro liberal e nacionalista de então, ao qual ele, o autor, pertence.

De acordo com SILVA, a categoria de parasitismo é antiimperialista, e bate de frente com a pretensa neutralidade da ciência sociológica. “Na verdade, empregada como uma teoria sobre a dominação nacional e exploração das classes, a noção de parasitismo , no momento em que surge no contexto cultural brasileiro, parece ter sido uma metáfora extremamente expressiva para explicar os “males” da América”.

Ele foi capaz de formular idéias sobre os países da periferia capitalista, como o Brasil, com essa profundidade: “Nesses países, onde todas as liberdades essenciais estão esquecidas e anuladas, a fórmula - liberdade de comércio - com que as nações fortes mascaram o seu privilégio explorador, é o bastante para garantir a classe dos taverneiros de além-mar, sanguessugas que, ainda hoje, trazem a América Latina, e principalmente o Brasil, entanguida, esgotada, exangue” [A Latina: males de origem, p.175].
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Para Bomfim, a verdadeira causa das desgraças do povo brasileiro seria o “parasitismo europeu”, secularmente nutrido com nossos metais preciosos, nossa matéria prima e nosso trabalho. Bomfim constatava o impasse brasileiro, as mazelas de uma nação que se tornara República há pouco menos de 15 anos, mas que destoava pelo atraso social e cultural em meio a tantas riquezas naturais.

Sobretudo atraso cultural: a denúncia de Bomfim vai estar centrada na precaríssima educação de uma população de maioria de analfabetos e sem tradição no trabalho livre. Seu diagnóstico: a causa dos males brasileiros seria sua formação colonial e a preponderância ainda, do elemento colonizador nas classes sociais brasileiras, no poder dominante local.

Nossos males – diz - não vêm do povo, de nenhuma inferioridade social, de qualquer “darwinismo social”, não vêm do clima nem da raça (nem do negro, como chegavam a pensar autores da época do porte de um Nina Rodrigues ou mesmo um José Veríssimo).

É preciso observar que mesmo um Euclides da Cunha, apesar da sua sensibilidade e admiração pelo mestiço sertanejo, mas doutrinariamente, tinha o mulato, o mestiço brasileiro na conta de um desequilibrado

[Escrito em 1997]
[Continua na parte II, brevemente no ED]

ALVES FILHO (1979), Aluízio. Pensamento político no Brasil. Manoel Bomfim: um ensaísta esquecido. Riode Janeiro : Achiamé. 1979.
BOMFIM, Manoel. (1993) América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.
FAUSTO, Boris (1989) . A revolução de 1930 - historiografia e história. 12a. ed. S.Paulo : Brasiliense. 1989.
FAUSTO, Boris (1996). Memórias do subdesenvolvimento, in Folha de S.Paulo, S.Paulo, Caderno Mais!, 1-12-1996, p. 5-9.
SILVA, José Maria Oliveira (1991). Da Educação à Revolução : radicalismo republicano em Manoel Bomfim. Dissertação de Mestrado em História Social, FFLCH da USP, 1991. 187 p. Mimeo.




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