Política

PESQUISA IBOPE-GLOBO MANIPULADA

A "manipulação contábil" do Ibope: abafar o rechaço da população ao golpe

André Augusto

Natal | @AcierAndy

quinta-feira 6 de setembro| Edição do dia

A pesquisa Ibope-Globo demorou a vir à luz, passando por maquiagens nos bastidores, no entreato da sessão do TSE que vetou arbitrariamente o registro da candidatura de Lula, entre 31 de agosto e 1 de setembro.

Veio à luz com os "odiosos vícios de almas devassas", diria o dramaturgo.

As marcas de uma pesquisa falsificada estão por toda parte.

Segundo a pesquisa, já sem Lula, Bolsonaro lidera com 22%, seguido por Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT), empatados com 12%; e Geraldo Alckmin (PSDB), com 9%. Haddad aparece com 6%.

No interior da pesquisa, a relação de intenções de voto para a Presidência da República trazia, originalmente, dois cenários: um que Lula foi incluído e outro sem o líder petista. Mas após a determinação do TSE de cassar o registro da candidatura de Lula, o Ibope-Globo decidiu perguntar apenas sobre o cenário que envolve Haddad e, minutos antes da sua divulgação, decidiu suspender a publicação dos resultados.

Não se conhecem as perguntas feitas pela pesquisa, algo elementar para verificar sua metodologia. Alguém já viu uma pesquisa de opinião eleitoral ser publicada sem a devida metodologia?

Em pesquisa do Ibope de 20/8, Lula figurava com 37% das intenções de voto (39% segundo o Datafolha de 22/8). No Datafolha, 49% dos entrevistados disseram que ou votariam com certeza, ou talvez votariam, no candidato apoiado explicitamente por Lula. Essas informações simplesmente desapareceram.

Os votos de Lula, que lhe dão esmagadora liderança em todas as pesquisas, são criteriosamente distribuídos a alguns candidatos: Ciro Gomes cresce 3%, Marina Silva empaca, até Alckmin cresce de 7% para 9%. Haddad, candidato que “será Lula” nestas eleições, cresce magros 2%, numa pesquisa cujas perguntas não se conhece.

Vamos às três principais “manobras contábeis” da pesquisa Ibope-Globo:

Primeira manobra: onde estão as perguntas feitas pela enquete? Sem o cenário Lula, a pergunta óbvia a se fazer, quando se menciona o nome da Haddad, é que ele é apoiado explicitamente por Lula. Não há metodologia na pesquisa.

Segunda manobra: para onde foram os votos de Lula? Na enorme maioria das pesquisas de voto até aqui, o cenário sem Lula inclui a indicação explícita de que seu candidato é Haddad, com aumento da porcentagem deste como “voz de Lula”. Até mesmo a pesquisa da XP Investimentos, ligada ao Itaú, realizada a 10/8, traz um cenário específico de “Haddad apoiado por Lula”, em que Haddad registrava 13% (diferente do cenário em que Haddad é insinuado ao leitor sem o apoio de Lula, cenário em que registrava 3%). Não há isso na pesquisa Ibope.


Com Haddad sem apoio explícito de Lula, pesquisa XP/Ipespe de 10/8


Com Lula apoiando Haddad, pesquisa XP/Ipespe de 10/8

Terceira manobra: Nas pesquisas anteriores, o cenário sem Lula traz aumento expressivo dos votos “brancos/nulos”. Admitamos que, sim, é plausível que os votos brancos/nulos tenham diminuído, já anteriormente. Entretanto, a queda abrupta de 29% para 21% dos votos brancos/nulos, em um cenário sem Lula e em que Haddad colhe magros 2%, não corresponde às tendências anteriores.

De fato, parece mostrar a intenção do Ibope de revelar uma certa “resignação” do eleitorado com o veto antidemocrático a Lula, e com as “peças que sobraram” no jogo. Parece que a crise de autoridade estatal até aqui galopante desapareceu.

Dito em outras palavras, magicamente desaparecem a montanha de votos de Lula, a rubrica da transição de votos de Lula para Haddad, o caminho dos votos brancos/nulos, a própria metodologia da pesquisa. O resultado é convencer o establishment financeiro, e todo o país, de que o próximo presidente – após o veto arbitrário a Lula – terá força suficiente para aplicar ajustes duros.

Seria o cenário dos sonhos para a Globo, se seu candidato Alckmin não estivesse lá embaixo, sem conseguir avançar bem nem com distorções na pesquisa.

A “metodologia” utilizada é pulverizar cuidadosamente os votos de Lula para longe de Haddad (para Ciro, mas também eventualmente a Marina), estimulando-os como os novos destinos do voto útil contra Bolsonaro, e “demonstrar” que os votos de Lula não vão automaticamente para Haddad. Como quem busca contrabandear uma idéia de fundo, o objetivo é pressionar a cúpula do PT a realizar a troca de candidatura de Lula para Haddad antes do dia 11/9.

Como diz Fernando Brito em seu blog, “o jogo é exatamente este: apresentar Haddad como inviável, quando o seu ‘problema’ é exatamente a falta de comunicação de que será o candidato de Lula, a confirmar-se a exclusão do ex-presidente da disputa eleitoral”.

Coincidentemente (ou não?), o analista da GloboNews, Gerson Camarotti, traduziu cristalinamente os objetivos da pesquisa Ibope. “Neste momento, o que se vê é que os votos de Lula não são transferidos automaticamente ao ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad [...] Essa pulverização de votos de Lula já gerou um alerta em setores do PT que temem um prolongamento da estratégia da legenda de esticar ao máximo a candidatura do ex-presidente com recurso ao Supremo Tribunal Federal”, concluiu Camarotti.

Ademais, como estamos em meio a um golpe institucional que tem o poder Judiciário como “viga mestra”, não se pode ignorar que pesquisas assim também queiram preparar as condições de uma fraude eleitoral.

O Ibope distorce os fatos da realidade na busca de abafar o amplo rechaço, ainda que passivo, das massas trabalhadoras contra o avanço do golpismo, a todo vapor nestas eleições manipuladas, com o judiciário atacando o direito democrático do voto ao impedir que Lula seja candidato, com manobras como essa para que também evite a transferência dos seus votos para Haddad.

Se o PT abriu caminho ao golpe institucional governando com a oligarquia da toga e a direita, é certo que não se pode fechar os olhos para as inúmeras manobras liberticidas que já estão afogando os últimos vestígios de soberania popular nessa democracia burguesa degradada.

A mídia coloca suas moedas na caixa de apostas da fraude.




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