Internacional

IMPERIALISMO

Manifestantes no Mali demandam a evacuação de tropas francesas

Na metade de janeiro, enquanto trabalhadores franceses tomaram as ruas contra Macron e seu projeto de reforma das pensões, bandeiras francesas eram queimadas nas ruas de Bamako (Mali) repudiando a presença de tropas francesas no país.

quinta-feira 30 de janeiro| Edição do dia

O país passa por uma crise humanitária e um aumento de violência desde a intervenção francesa em, 2013, supostamente com o intento de combater a ascensão de grupos terroristas islâmicos.

Sentimentos anti-imperialistas surgem novamente no Mali, com uma manifestação de mais de mil pessoas na cidade de Bamako no dia 13 de janeiro clamando pela saída de tropas francesas da região, tropas que ocupam o Mali desde 2013. Com bandeiras francesas queimando e gritos de “Fora França”, manifestantes demandam o fim do massacre criado pela ocupação francesa, que o governo justifica apelando pela guerra global contra organizações terroristas que ameaçam conquistar o Mali; Entretanto, essas manifestações seguem uma longa história de interferência colonial e neocolonial da França na região .

O presidente francês Emmanuel Macron prometeu aumentar a presença de tropas na região do Sahel, que sofre com uma brutas onda de ataques em anos recentes, representando uma mudança abrupta de sua ameça em dezembro de retirar tropas em virtude das manifestações anti-francesas no Mali. Em 13 de janeiro, o governo anunciou que enviaria 250 tropas para o oeste africano com o intuito de reforçar os 4500 soldados franceses já presentes na região. A presença francesa no Mali representa a maior concentração de tropas de qualquer país imperialista na região.

O pronunciamento veio após os mandatários do Mali, Nigéria, Chadi, Burkina Faso e Mauritania (o “G5 do Sahel”) se encontrarem com suas contrapartes francesas no sudoeste da França, onde eles concordaram em construir um comando militar conjunto, com as potencias europeias no comando. Enquanto isso, de acordo com o General Mark Milley (presidente do Estado-maior conjunto dos Estados Unidos), em um pronunciamento dia 13 de Janeiro, os Estados Unidos consideram diminuir sua presença na região.

Ocupação Militar Imperialista

A França tem mantido uma relação semi-coloniaal com boa parte do oeste africano por centenas de anos. Não é uma coincidência que cinco desses países são os mais pobres da África, que por sua vez é o continente mais pobre do mundo.
Os protestos eram explicitamente anti-imperialista, denunciando especialmente a presença militar da frança na região. Manifestantes gritavam, “Forças de Bakhane, vão para casa!”, em referencia ao nome da intervenção francesa no Mali, operação Barkhane. A operação Barkha ne substituiu a Operação Serval, que fora lançada em janeiro de 2013 pelo então presidente da França, François Hollande. Usando como pretexto a luta contra o terrorismo, o governo francês instalou bases militares permanentes na região e solidificou sua influencia no oeste africano.

Durante o período, o Mali estava em turbulência por conta da rebelião Tuareg no norte do país, os rebeldes demandavam a independência da região de Azawad. Os tuaregs são uma antiga tribo da região do Sahel que lutam por sua independência desde 1916. Como resultado da crise, o exército malinês derrubou o então presidente Amadou Toumani Touré e suspendeu a constituição por dois meses. Subsequentemente, grupos jihadistas tomaram vantagem da situação para expandir sua influência, oque levou a França a intervir para proteger seus interesses.

A região do Sahel, que inclui Chadi, Mali, Mauritania, Niger, Burkina Faso e parte da Argélia, é uma região estratégica para o controle da exploração e uranio. Hoje, essa região é tomada por grupos terroristas como o Boko Haram, filiado ao auto-proclamado Estado Islâmico, e outros grupos filiados a Al Qaeda, sem falar em traficantes de drogas e tráfico humano.

O Mali, como em muitos outros países africanos, tem em seu território uma série de tensões étnicas de um estado cujas fronteiras foram desenhadas por interesses imperialistas. As fronteiras do Mali, em sua presente configuração, eram parte do Sudão Francês até sua indecência em 1960 e engloba oito regiões com diversas diferenças étnicas e religiosas.

Para que a França e outras potências mantivesses seu controle da região mesmo após sua independência fora necessário superar as rivalidades entre diferenças tribos e grupos étnicos como os Barama (que goveram Bakamo desde 1960), Tuareg, Dogons e os Fulani, entre outros. As forças de ocupação francesa se inseriram entre esses grupos com apoio alemão.

O Movimento Anti-imperialista ganha força

Hoje, no Mali, aumenta a raiva contra a crescente ocupação francesa, que fora estabelecida após a guerra da OTAN na Líbia, na qual Paris destruíra o governo de Moammar Gaddafi com a ajuda de milícias jihadistas. A França continua a jogar com ambos os lados do conflito para defender seus interesses, invadindo o Mali em 2013 com o pretexto de proteger os malineses contra milícias jihadistas. Guerras na Síria, Iraque e Líbia gradualmente relocaram os jihadistas, que agora se concentram na região do Sahel, levando a população a ficar presa entra imperialistas e grupos como o Boko Haram.

Os protestos do dia 16 de janeiro em Bamako foram seguidos por uma série de greves e demonstrações contra a França e o presidente malinês Ibrahim Boubacar Keïta. Em março de 2019, trabalhadores ferroviários e professores organizaram greves contra tanto Macron quanto Keïta, a fim de protestar contra as declarações do governo de que não conseguria pagar os salários mesmo com esse gastando recursos com uma guerra sem fim. Protesto contra a França eclodiram novamente no dia 3 de janeiro em Bandigara, no centro do Mali.

Macron e Keïta insistem que esses protestos são liderados por um pequeno grupo de provocadores trabalhando para a Al Qaeda e o autoproclamado Estado Islâmico, e que a maior parte da população tem um “sentimento de gratidão” pela ocupação francesa; Entretanto, de acordo com uma pesquisa feita pela Maliweb, 80% dos malineses rejeitam a ocupação francesa.

O imperialismo não pode, nem quer, resolver o problema do terrorismo na região. Na história recente, desde a invasão do Afeganistão em 2001, países imperialistas como a França e os Estados Unidos tomaram para si a luta contra grupos extremistas como uma desculpa para ocupar regiões estratégicas sem combater as atrocidades cometidas tanto por milícias terroristas quanto por forças militares oficiais.

Um manifestante no dia 13 de Janeiro demonstrou a cumplicidade entre Paris e milícias islamistas e étnicas no Mali: “Apesar da massiva presença de alguns dos maiores exércitos do mundo, grupos terroristas não só continuam a operar, mas estão ficando mais fortes. Portanto, precisamos ser cautelosos com esses incendiários noturnos que, de uma hora para outra, decidem virar bombeiros pela manhã. Essas forças externas usam o terrorismo para controlar a vasta riqueza da região.”

A presença militar francesa no Mali está intimamente ligada com interesses da indústria atômica e mineradora. A França também mantem relações colaborativas com governos do Sahel com o intuito de preservar acordos que violentamente reduzem a onda de imigrantes da África para a Europa. Em uma época em que trabalhadores lideram greves gerais na França e em que o movimento Hirak na Argélia desafia o governo, é necessário ligar a luta contra a reforma das pensões com a luta contra a ocupação militar na África, para que se desafie o estado imperialista que impõe a exploração de riquezas pelo mundo. O mesmo regime que ataca as pensões dos trabalhadores, é também o estado que transformou o Mali e uma zona militarizada imersa em um conflito imperialista.




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