Internacional

FRANÇA

Manifestações em Paris contra a violência policial e a perseguição às minorias étnicas

Artur Lins

Estudante de História/UFRJ

terça-feira 28 de março de 2017| Edição do dia

No último domingo (26), um homem de origem chinesa foi morto a tiros pela polícia em frente a sua casa diante de toda sua família. Os policiais tinham sido chamados pra resolver uma suposta briga entre vizinhos e acabaram no final matando o homem, só por este estar segurando uma tesoura no momento da chegada dos policiais.

No dia seguinte houve manifestações de centenas de membros da comunidade franco-chinesa em Paris contra a violência policial, ocorrendo confrontos entre os manifestantes com a polícia.

Não é de hoje que a polícia francesa vem assassinando e perseguindo indivíduos de outras nacionalidades e oriundos de bairros periféricos. Para não ir muito longe, no início desse ano, a polícia matou o jovem negro de 24 anos, Adama Traoré, o sufocando durante uma custódia depois de prender o jovem por ele não estar carregando consigo sua identidade.

O caso de Adama Traoré gerou manifestações de massas, principalmente entre a comunidade negra e imigrante do país, denunciando a sistematização da violência policial francesa contra a população negra, imigrante e árabe do país, que vivem em sua grande maioria nas periferias (chamadas “banlieues”, em francês).

Também no início do ano ficou conhecido no país inteiro o caso de Théo Lutaka, jovem negro oriundo da periferia com 22 anos, que ao ser parado pela polícia para “verificar sua identidade” foi submetido a tortura física e insultos racistas pelos policiais, que depois enfiaram no seu ânus um cassetete, provocando também manifestações reclamando justiça para Théo.

De acordo com as estatísticas do órgão público do Estado francês para em tese “proteger” os cidadãos da discriminação (Défenseur des Droits), jovens negros e árabes estão 20 vezes mais propícios a serem perseguidos e parados pela polícia para ter suas identidades “checadas”. O relatório também identificou que muitas vezes há apreensões abusivas contra árabes e negros para terem sua identidade checada pela polícia.

Desde há muito tempo que as minorias étnicas e imigrantes são perseguidos pela polícia francesa, porém desde o estabelecimento do estado de emergência declarado pelo então presidente “socialista” François Hollande depois do atentado terrorista contra a revista “Charlie Hedbo”, houve um aumento significativo das apreensões abusivas e racistas em casas da periferia dos centros urbanos franceses, onde vivem maioria de árabes e descendentes de africanos. Também indivíduos muçulmanos são parados nas ruas sistematicamente pela polícia, como se fossem uma “ameaça natural terrorista”.

A França está imersa numa profunda crise política e econômica, que se intensificou depois das manifestações operárias e estudantis contra a reforma trabalhista imposta por Hollande no ano passado, que também insufla um discurso xenófobo e racista contra os refugiados, imigrantes e minorias étnicas (principalmente árabes e africanos), como se toda a crise vivida pelos franceses hoje fosse culpa desses setores. Esse discurso tem sua principal referência na Frente Nacional de Marine Le Pen, que está disputando as eleições presidenciais no país num cenário de saída do Reino Unido da União Europeia e com Trump a frente da maior potência imperialista do mundo, todos esses com discursos igualmente xenófobos e nacionalistas.

A violência policial francesa é produto da política interior do país de combate contra as comunidades não-brancas e a entrada dos refugiados de guerra. O Partido Socialista, de Hollande, também seguiu com a política intervencionista dos governos de direita anteriores, intensificando operações militares na Síria, Mali e outras regiões, bombardeando os locais de origem desses mesmos refugiados, e que hoje está negando a entrada dessas famílias desesperadas por procurarem algum lugar que lhes dê trabalho e tranquilidade.

Por outro lado, esse mesmo governo também impulsiona uma política de perseguição racista, encarando muçulmanos e africanos como uma ameaça à república depois do aumento dos ataques terroristas no país. Acaba que no final quem paga o preço da “luta contra o terrorismo” dos governos são os trabalhadores e jovens negros, árabes e asiáticos.




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