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Manifestações em Charlotte para exigir justiça desafiam o toque de recolher

Na noite desta quinta-feira foi declarado estado de emergência na cidade militarizada logo após as mobilizações se deflagarem pelo assassinato do afroamericano Keith L. Scott, pelas mãos da polícia e após a morte de um manifestante.

sexta-feira 23 de setembro| Edição do dia

A prefeita de Charlotte, Jennifer Roberts, decretou o toque de recolher para esta quinta à partir da meia-noite até às 6h local, após a terceira noite de protestos.

“Fica proibido transitar por ruas, becos, estradas ou qualquer outra propriedade pública, exceto aqueles que estão buscando assistência médica, comida ou serviço necessário para o bem-estar de si mesmo ou seus familiares”, disse Roberts.

Após duas jornadas de mobilização que incluíram enfrentamentos com as forças armadas e deixaram um morto, numerosos feridos e meia centena de detidos, a prefeita tomou a decisão ao ver que desde quinta-feira começaram novos protestos pelas ruas da cidade. Os protestos estalaram na terça-feira, depois que um policial matou a tiros o afroamericano Keith Lamont Scott, de 43 anos.

Os manifestantes exigem que as autoridades publiquem o vídeo que os policiais gravaram do episódio, no qual Scott é assassinado. A família do aforamericano assegurou hoje que tem mais perguntas que respostas após ver os vídeos gravados do ocorrido, e pediram que as imagens sejam publicadas imediatamente. Nos dois vídeos que puderam ver, a vítima não mostra sinais de agressividade e não é possível ver bem se está empunhando uma arma, como asseguraram os policiais. “Quando os policiais lhe mandaram sair do carro, Scott o fez de uma maneira muito tranquila, nada agressiva. Enquanto os agentes lhe davam várias órdens, ele não se aproximou agressivamente nem levantou em nenhum momento as mãos até os oficiais darem ordem”, disse em um comunicado Justin Bamberg, um dos advogados da família.

Anteriormente, o chefe de polícia local, Kerr Putney, declarou ao jornal The Charlotte Observer que, segundo o que pode ver nas imagens dos vídeos, a atuação do agente Brentley Vinson, autor dos disparos, estava justificada. Sustentou que Keith Scott “supunha uma ameaça de morte iminente” para os agentes, tal qual a polícia de Charlotte afirmou em um comunicado. “Se achasse que a lei foi quebrada, já teria tomado atitudes”, assegurou. Diante desta situação, a família Scott certificou que presseguirá sua própria investigação, e pediu aos vizinhos que quem quiser protestar, o faça “pacificamente”.

A morte de Scott gerou uma onda de manifestações e repressão na cidade, e as autoridades decretaram na última quarta-feira estado de emergência e a ação da Guarda Nacional. Na quinta faleceu em um hospital Justin Carr, um homem de 26 anos que recebeu um disparo na cabeça durante as manifestações da noite de quarta-feira. A polícia garante que tratou-se de um enfrentamento entre civis, mas há dezenas de testemunhas que acusam a polícia de abrir fogo contra os manifestantes, quando Carr ficou gravemente ferido, ante o qual se dará início a uma investigação.

Por sua vez, vários membros do Bancada Negra do Congresso dos Estados Unidos (CBC, na sigla em inglês) marcharam nesta quinta desde o Capitólio até a sede do Departamento de Justiça para protestar de novo contra a morte de aforamericanos pelas mãos da polícia. Os congressistas entregaram uma carta para a fiscal geral, Loretta Lynch, “queremos todo o peso do Departamento de Justiça cobrindo esta situação”, disse o presidente do CBC, G. K. Butterfield.

Mais uma vez, o candidato presidencial republicano, Donald Trump, que gosta tanto de falar de temas de segurança, declarou estar a favor da polêmica prática policial conhecida como “stop and frisk” (detenção e registro) para combater a violência nos EUA. “A polícia é preventiva, se vêem uma pessoa possivelmente com uma arma ou creem que possa ter uma arma, revistarão esta pessoa e levarão a arma”, afirmou, “se tira a arma, não há nada com o que disparar”. Trump definiu-se como candidato da “lei e ordem” e falou em um primeiro momento à nível nacional, embora posteriormente tenha acrescentado que a proposta referia-se em concreto à situação de Chicago.

Esta prática é parte de um programa da polícia de Nova York que tem sido muito questionado, no qual os agentes detêm e revistam as pessoas nas ruas, e que foi declarado inconstitucional em 2013 por uma juíza federal. Este programa abre as portas à segregação porque a maioria das pessoas revistadas são afrodescendenes e hispânicas. O programa foi lançado pelo ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, atual assessor de Trump na campanha eleitoral sobre questões de segurança. A proibição de seu uso foi um dos eixos da campanha de 2013 do atual prefeito novaiorquino, o democrata Bill de Blasio.

Em muitas outras cidades, universidades e escolas ao longo do país, a solidariedade expressou-se de muitas formas, como na universidade de Oklahoma.

Enquanto a mobilização passava em frente a delegacia da cidade, os presos piscavam as luzes em forma de solidariedade enquanto a multidão cantava “Os escutamos, os vemos”.

Várias personalidades e organizações começaram a levantar que devem ser levadas a cabo ações mais contundentes além dos bloqueios de rodovias e as manifestações. Exigem boicotes e paralisações, como afirma o jornalista Shaun King do New York Daily News, “é hora de organizar um boicote econômico no qual nos comprometamos”; “...homens, mulheres e crianças desarmados sem fazer algum esforço sério para levar a diante reformas. Este boicote econômico poderia mudar isto”.

O ator Isaiah Washington, de “Grey’s Anatomy” disse em seu facebook nesta semana que os afroamericanos deveriam considerar a possibilidade de um boicote à nível nacional, “imaginem se cada afroamericano nos Estados Unidos que está realmente frustrado, com raiva, triste, eleger somente UM DIA para simplesmente ficar em casa e não ir ao trabalho, não ocupar nenhum posto de trabalho, nem em departamentos nem escritórios estatais”.

Os companheiros que levam adiante a publicação do Left Voice começaram um debate entre as organizações para discutir o chamado a uma paralisação e ações junto aos sindicatos frente aos assassinatos pelas mãos da polícia racista. No artigo “Como combatemos o terror policial?” os companheiros levantam: “As organizações operárias devem unir-se em uma grande frente contra os assassinatos racistas da polícia sob o slogan “nenhuma polícia em nossos sindicatos” e “greve contra o terror policial”. Isto tem o potencial de construir uma solidariedade ativa para enfrentar a polícia. Temos que levar estas propostas a nossos locais de trabalho, às assembleias, e às organizações da classe trabalhadora. A campanha impulsionada pelo Left Voice parte de uma greve contra o terror policial (StrAPT) que busca organizar e mobilizar as pessoas, sindicalizadas, não sindicalizadas, desempregadas e trabalhadoras, de todos os gêneros, etnias e deficiências, como uma só força para golpear contra o terror policial. Usaremos nosso poder como classe e como oprimidos para lutar contra o capitalismo e suas forças repressivas: a polícia”.

A morte de Scott soma-se a uma longa lista de assassinatos contra afroamericanos pelas mãos da polícia, que em sua grande maioria continuam impunes, e têm despertado a fúria em numerosas cidades dos Estados Unidos contra a brutalidade policial, o terror e o racismo.




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