Gênero e sexualidade

BERLIM

Manifestação contra a “Marcha pela vida” de cristãos antiabortistas em Berlim

Nesse sábado milhares de manifestantes saíram às ruas de Berlim para bloquear a “Marcha pela vida”. As tentativas de bloqueio não impediram a marcha mas obrigaram os direitistas a diminuir seu percurso.

Lilly Freytag

Berlim, Alemanha

segunda-feira 19 de setembro| Edição do dia

Cerca de 5 mil reacionários antiabortistas, entre eles Beatrix von Storch da extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), encontraram com outra marcha contrária. Quando começava a se reunir a manifestação convocada por organizações de mulheres e feministas e coletivos de esquerda, com o lilás como cor dominante, ainda chovia muito forte. Mas estavam convencidos a protestar contra misóginos direitistas e cristãos.

Ao mesmo tempo que parou de chover, os manifestantes gritaram cada vez mais forte. “Contra seu fundamentalismo, contra Jesus e pelo feminismo!” gritaram, ou “Fogo e chamas ao patriarcado, contra o sexismo na vida cotidiana e do Estado!”.

Na primeira fila esteve presente Beatriz von Storch da AfD, que exige o uso de armas na fronteira para disparar em crianças refugiadas, mas defende a “vida” de fetos por nascer.Também estavam presentes bispos católicos, cristãos evangélicos e todo um “carnaval” da reação.

Duas marchas do movimento feminista e da esquerda

Duas alianças convocaram protestos contra a “Marcha pela vida”. Elas reuniram algumas milhares de pessoas, que exigiram a derrubada da lei que proíbe o aborto e para defender-se frente aos ataques misóginos da direita. Na Alemanha o aborto segue sendo proibido, e somente sob certas condições está isento de pena.

“Temos raiva”, disse Tabea Winter do Brot und Rosen (Pão e Rosas) da Juventude Revolucionária Comunista. “Nos manifestamos contra esses homens reacionários que nos querem dizer o quê fazer com nossos corpos e restringir-nos ao papel tradicional da mulher dentro da pequena família burguesa”.

Milena, estudante, agrega: “Para mim é importante mostrar que vamos às ruas por nossos direitos. Não podemos permitir que a direita se mobilize conra esses direitos”.

Às 13h começou a manifestação da aliança “What the fuck” de extrema-esquerda. Depois, os participantes tentaram bloquear a manifestação da direita cristã. Pouco tempo depois, também começou a marcha da aliança pela autodeterminação sexual, impulsionada por ONGs e partidos como o SPD (social-democracia), Os Verdes e Die Linke, com cerca de 500 pessoas, entre elas vários deputados.

As tentativas de bloqueio não tiveram resultado. No entanto a “Marcha pela vida” teve que abreviar bastante seu percurso. Em muitos lugares houve manifestantes de esquerda nas margens da marcha anti-aborto, que foi protegida pela polícia de Berlim. No ato final dos direitistas, a polícia atacou os contra-manifestantes com paus e gás de pimenta.

A aliança “What the fuck” mantém uma posição problemática sobre o diagnóstico pré-natal que considera em si “minusvalidofóbico”. Outras organizações defendem que cada mulher deve ter o direito de decidir se quer ter um filho que terá impedimentos psicofísicos, tal como deve ser seu o direito de decidir não ter um filho que provavelmente será são. Também tem que ser seu direito receber toda a informação possível, se ela assim desejar.

Pelo direito ao aborto. Pela socialização do trabalho doméstico e dos cuidados

Nesse debate são muitas as necessidades e reivindicações das mulheres. Por um lado, sobre o direito básico que deveríamos ter todas as mulheres de decidir abortar, seja pelos motivos que forem.

Entre muitíssimas razões, muitas vezes as mulheres decidem abortar ou não ter filhos por não ter os meios socioeconômicos suficientes para mantê-los, ainda mais se existem probabilidades de filhos descapacitados. Diante disso, outra reivindicação histórica e atual é que, para que o cuidado de crianças não seja uma pesada tarefa no âmbito privado, levada a cabo em sua maioria por mulheres presas em seus lares, as tarefas domésticas e de cuidados se socializem. Ou seja, que, por exemplo, se estabeleçam creches gratuitas financiadas pelo Estado ou nos mesmos locais de trabalho.

O que fica demonstrado é que as empresas capitalistas, com a cumplicidade do Estado, se esquivam dessa grande “fábrica” de tarefas de reprodução da classe trabalhadora, que recai sobre as mulheres tal como o poder patriarcal exige. Um exemplo do casamento inseparável entre o capitalismo e o patriarcado que impede a real liberdade das mulheres para decidirem-se a favor ou contra de ter um filho ou uma filha.

Mulheres do Pão e Rosas na Juventude Revolucionária Comunista participaram com panfletos e cartazes na manifestação da aliança “What the fuck” e panfletaram na outra manifestação. Ali exigem:

“Exigimos o direito ao aborto gratuito, sem consultas médicas obrigatórias, prazos, indicações ou tabus. As consultas médicas são importantes para as mulheres, mas somente quando não são obrigatórias e atendem aos interesses das mulheres. Além disso, exigimos o acesso irrestrito a anticoncepcionais e melhor educação sexual. Mas isso não basta. Uma decisão realmente livre das mulheres sobre seus corpos e sua gravidez somente será possível quando o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos e filhas for socializado. Enquanto nós formos responsáveis pelo trabalho doméstico e pelo cuidado, enquanto formos mal remuneradas, enquanto ter um filho significar ser ainda mais dependente de um homem, não poderá haver decisão realmente livre a favor ou contra uma gravidez”.

Ao mesmo tempo houve uma manifestação massiva contra os tratados de livre comércio entre a União Europeia e os Estados Unidos (TTIP) e Canadá (CETA), que reuniu 70.000 pessoas em Berlim e em todo o país cerca de 300.000 pessoas.




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