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Manifestação 17J no Chile: Milhares de professores de várias regiões e um governo intransigente

Uma vez mais as ruas de Santiago se encheram de professores e estudantes. Ao redor de 150 mil pessoas marcharam em uma nova manifestação contra o projeto de Carreira Docente, pela educação gratuita e contra a intransigência do Governo. A convicção dos professores sugere que a greve nacional continuará.

sexta-feira 19 de junho de 2015| Edição do dia

O governo em conjunto com o Ministro da Educação está fazendo o impossível para que a greve nacional dos professores acabe, não querem dar nenhuma das demandas mais sentidas da categoria, enquanto que o setor encabeçado por Jaime Gajardo das direções do Colégio de Professores, encontra-se pressionado por milhares de docentes que não querem baixar os braços nem deixar de lado a mobilização, até que as autoridades concedam cada uma das exigências.

É assim que nesta quarta-feira 17 de junho aconteceu uma nova manifestação convocada pelo Colégio de Professores, à qual aderiu a Confech, a Cones, e também se fizeram presentes diversas federações, cursos e faculdades universitárias em sinal de solidariedade. Os estudantes secundaristas de diversos colégios também saíram às ruas para apoiar os professores que já estão há 17 dias em greve. A marcha começou às 11:40 horas na Praça Baquedano, passou pela Avenida Cardeal Caro, juntando milhares de professores, especialmente de regiões distantes, e terminou na Estação Mapocho.

Esta nova manifestação se insere na dura intransigência do governo com as demandas da categoria, e inclusive certas autoridades mencionaram “não entender a mobilização” que vêm protagonizando os professores em todo o Chile. Atualmente está sendo levada adiante uma mesa tripartite com o objetivo de destravar a greve docente, no entanto, nenhuma das demandas centrais do professorado quer ser dada por parte das autoridades. Devido a isto, a greve continua, esperando ser reavaliada amanhã, enquanto que milhares de docentes exigem a retirada imediata do projeto por sua nula representatividade.

A voz dos professores de regiões distantes se fez sentir nas ruas de Santiago

Um dos elementos mais notáveis desta nova manifestação, foi a potente presença de professores de diversas regiões do país, os que chegaram em delegações e em representação de suas respectivas comunais [representação de professores por município – nota do tradutor] para assim levantar a voz pelos milhares de docentes que se mobilizaram pelo país.

Pucón

María Jesús, presidenta da comunal Pucón, conversou com o Esquerda Diário – Chile em relação às demandas chave dos professores: “Nós analisamos na região e a nível nacional que a demanda central deste movimento é a retirada do projeto, porque consideramos que é um projeto totalmente ilegítimo. A quantidade de professores que estão marchando tem relação com isto, com um projeto que não representa ninguém, então acredito que é uma teimosia tremenda por parte do Ministério negar a retirada do projeto”, dizendo também que “o projeto deveria ter sido criado pelos professores, mentiu-se muito falando que tínhamos participado em outras instâncias, que não são reais”.

Olmué

Uma delegação de professores de Olmué também marchou na convocatória, e uma de suas representantes comentou seu parecer frente à problemática docente: “Eu tenho 34 anos de trabalho e nestes anos a verdade é que os avanços que vimos não foram significativos. Este ano estamos esperançosos de que algo ocorra porque nós neste momento estamos sendo puxados por todos lados”. Quando foi perguntado sobre as demandas mais importantes para a categoria docente, a professora disse que “bom, a educação gratuita, voltar ao Estado, o Estado como professor e não subsidiário porque isso é a mãe de todos os males que causou a discriminação, a segregação e a pouca igualdade”.

Puchuncaví

Luis Villarroel, dirigente da comunal, junto a outros colegas de Puchuncaví, marcharam com muito ânimo e convicção pelas ruas de Santiago, demonstrando que a mobilização de professores passa por cada canto do país. “Penso que uma das coisas inegociáveis para nós é que esta carreira não seja vista desde um ponto competitivo, desde um ponto de vista personalista, que interesse mais à individualidade que ao coletivo. Isso vai dividir ainda mais as pessoas, nossas crianças”.

Cobquecura

Muitos professores que têm décadas exercendo a docência se referiram à precária situação de trabalho que afeta aos docentes. É o caso de um professor que conversou com o Esquerda Diário - Chile, que viajou desde Cobquecura junto a outros colegas para apoiar a mobilização da categoria. “Eu sou um professor que já tem 62 anos de idade e tenho um monte de anos de trabalho. Eu estou nisto pelos jovens porque considero que este projeto ao longo de toda a carreira dos professores, tem deficiências (…) Os jovens ao sair de estudar pedagogia ficam presos, e ainda têm que certificar por dois anos, depois no transcurso da profissão, os professores têm que se submeter a avaliações e certificações”.

Los Andes

Carolina Núñez, professora da província de Los Andes, quem trabalha na comuna de San Esteban, disse que “acho que foram intransigentes demais, não estão escutando a voz dos professores, simplesmente impuseram coisas. Os que fazem a reforma são somente engenheiros e gente que não tem nada a ver com a educação e não perguntam aos que realmente estão na frente dos alunos, dando as aulas e lutando todos os dias (…) Pensando em minhas colegas que vão aposentar são importantes os bônus à aposentadoria, a demanda de 50/50 já que somos o país onde os professores passam mais tempo dando aulas e não temos tempo para planejar, para preparar aulas”.

Puerto Montt

Professores de Puerto Montt viajaram durante horas para chegar à mobilização convocada pelo sindicato, a distância e o cansaço não importam na hora de exigir e lutar pelas justas demandas do setor. Para refletir este sentir, Esquerda Diário - Chile entrevistou Pamela Torres, professora daquela cidade, que afirmou que “nós estamos contra esta carreira docente porque não nos beneficia em nada. Fala-se de melhorar a qualidade, mas como vamos melhorar a qualidade se não se baixa as horas não letivas, que é o trabalho que realizamos em nossas casas? Além disso, tampouco baixam a quantidade de alunos que temos em sala (…) Nossa maior demanda é tempo, se nos dessem mais tempo poderíamos fazer um melhor trabalho”. Pamela também se referiu à postura do Ministro da Educação, dizendo que “dá vergonha ver um Ministro da Educação que não sabe nada de educação, ele vê tudo como uma empresa, e a educação não é uma empresa”.

Tudo aponta que a greve nacional continuará

Além das zonas mencionadas, houve milhares de professores da Região Metropolitana que saíram às ruas a exigir a retirada do projeto, desde suas diferentes comunais e espaços de organização. Somado a isto, marcharam também professores de La Serena, Coquimbo, Curicó, Curacautín, Chiloé, Osorno, Concepção, Talca, Til Til, Colina, Buin, entre outras regiões do país, o que refletiu a indubitável representação que tem a greve nacional atual que mantém a cerca de 70 mil professores mobilizados.

Para o dia de amanhã (18) se espera uma nova Assembleia Nacional de professores, onde se vai reavaliar a continuidade da greve nacional. O governo não dá sinais de querer escutar os milhares de professores, o setor de Jaime Gajardo na direção do Colégio de Professores titubeia frente as manobras das autoridades, que com uma proposta de protocolo intermediado pela Comissão de Educação de Deputados pretendem frear a mobilização, enquanto que tudo aponta que a greve será a opção votada pelos milhares de professores em luta.




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