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Mandetta e Bolsonaro trocam afagos em coletiva: ódio aos trabalhadores supera divergências

sexta-feira 17 de abril| Edição do dia

Jair Bolsonaro realizou outra coletiva de imprensa hoje, com o velho e o novo ministros da Saúde. Durante a coletiva, Mandetta falou sobre a sua estadia no ministério, trocando elogios com "seu capitão" Bolsonaro, que o correspondeu com afagos no final da coletiva.

Enquanto falava sobre as iniciativas que teve durante este período em que foi ministro, o representante de grupos privados de saúde fez jus à sua origem, elogiando a doação de testes de baixa qualidade feita pela Vale do Rio Doce, dizendo que temos muito à agradecer à este empresa criminosa responsável por centenas de mortes nas cidades de Mariana e Brumadinho.

Soou um alto elogio à iniciativa privada nomeando empresas com quem seu Ministério veio trabalhado, com quem o Ministro busca pareceria para a produção de insumos, máscaras etc. Mandetta falou em alto e bom som que estas empresas tem a tarefa de pensar o mundo pós coronavírus, uma nova ordem mundial da saúde - discurso de quem pensa a política do ponto de vista dos grandes monopólios capitalistas que detém as patentes e lucram através da indústria farmacêutica, transformando a diferença entre a vida e a morte.

Mandetta fez ainda afagos à Bolsonaro, levantando seu slogan de campanha sobre a renovação da frota do SUS. Era a única coisa que ele poderia dizer, afinal, não poderia dizer que fez centenas de milhares de testes durante a pandemia da covid-19, por que isto ele não fez mesmo. Não deveria-se esperar nada de diferente de quem trabalhou pela precarização do Sistema Único de Saúde em prol da iniciativa privada, de planos de saúde e monopólios de indústrias farmacêuticas.

O novo ministro falou antes de Bolsonaro, e mostrou que não tem preparação para nada. Mandetta é um tubarão da saúde privada, enquanto que o novo ministro é apenas um espantalho da política dos militares. A falta de perfil para o cargo segundo os próprios critérios da direita capitalista é proposital. Os militares não querem um ministro que cause incômodo. No fundo, Mandetta era visto como "mais racional", e foi uma peça necessária para os militares durante o período de maior contestação do governo Bolsonaro, que passou por alguns momentos graves no início da pandemia, alguns dias com panelaços extensos e oposição de membros do próprio sistema - o bonapartismo institucional, ou seja, o Congresso e o STF, junto com a Globo.

O "fuzível" que servia para dar uma segurada neste momento de crise pôde ser trocado agora, com um certo desgaste devido ao atrelamento da oposição à Bolsonaro com a estratégia de se submeter a Rodrigo Maia e consortes - estratégia que teve como ápice elogios de Lula a Dória, e o PSOL apostando no congresso golpista.

Teich, que já resumiu saúde pública como a escolha entre quem vive e quem morre, entrou relativizando a pandemia, afirmando que as pessoas andando de máscara nas ruas era "como uma cena de filme", reclamando de ter passado pelo aeroporto Santos Dummont no Rio, e ter visto este vazio. Vê-se pela postura que o novo ministro é um forte candidato a ser a próxima pessoa a infectar todos os membros do governo. A irrelevância do resto de sua fala mostra que à partir de hoje quem tomará as decisões são os militares.

Mandetta fez afagos e elogios a Bolsonaro, que foram bem recebidos. Bolsonaro respondeu, no final da entrevista, dizendo que apesar das divergências, ele tinha certeza que Mandetta fez de tudo para acatar as vontades do presidente.

Respondendo aos pedidos de impeachment que se encontram no Congresso, Bolsonaro lembrou diversas vezes que tem ao seu lado Paulo Guedes, representante, no final das contas, dos interesses por trás da manipulação das eleições que o colocaram no poder.

A troca de ministros representou uma divisão do trabalho - o anterior era necessário em período de mais crise política, e o de agora é necessário em um período em que os militares se preparam para intervir cada vez mais na realidade nacional frente a crise do coronavírus que se combina à crise política nacional.

Leia também: Defender a classe trabalhadora para enfrentar a pandemia, o governo Bolsonaro e o capitalismo

Foto: AdrianoMachado/Reuteurs




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