Política

DEBATE

Mal maior, mal menor e “resistências”: um diálogo sobre o papel de Lula e do PT

Vários leitores do Esquerda Diário tem enviado comentários relativos às recentes notas publicadas que mostram o papel de conciliação com os empresários e com toda variada fauna da elite golpista por parte do PT e, especialmente de Lula, em suas caravanas no Nordeste e Minas Gerais. Se enfrentar com os golpistas e derrotá-los é uma prioridade do Esquerda Diário e, com isso em mente, debatemos com alguns comentários, cujo conteúdo, com forte viés eleitoral, é um retrato de um anseio de impedir o avanço dos retrocessos, mas também com a falta de horizonte do que construir “aqui" e "agora”, uma consequência de tantos anos de hegemonia lulista que sempre reduziu a “resistência” ao "possível" (no voto).

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

terça-feira 31 de outubro| Edição do dia

Foto: Ricardo Stuckert

Simplificaremos neste artigo as variadas dúvidas e posicionamentos sobre os recentes artigos do Esquerda Diário criticando a conciliação de classes do petismo e lulismo) em três argumentos: “Não há alternativas”; “Lula ou Bolsonaro?” e “precisamos eleger Lula em 2018! O depois, vemos depois”. Essas matrizes argumentativas remetem a quatro ângulos fundamentais de problemas estratégicos interconectados: 1) a lógica do mal menor e seu consequente abandono de construir alternativas; 2) o divórcio entre o “agora” e o “necessário”; 3) naturalização do domínio político e econômico da elite herdeira do latifúndio, do pelourinho e do pau-de-arara, e, portanto, também do regime político e do Estado burguês; 4) simplificação dos inimigos e, portanto, das tarefas da “resistência” para “agora” e “necessárias”.

Mal menor, mal maior

“Um mal menor é sempre menor que um subsequente possivelmente maior. Todo mal resulta menor em comparação com outro que se anuncia maior e assim até o infinito. A fórmula do mal menor, do menos pior, não é mais que a forma que assume o processo de adaptação a um movimento historicamente regressivo cujo desenvolvimento é guiado por uma força audaciosamente eficaz, enquanto que as forças antagônicas (ou melhor, os chefes das mesmas) estão decididas a capitular progressivamente, em pequenas etapas e não de uma só vez [...]”. (Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere, Caderno 16, §25)

Diferente de ações conscientes de seus “líderes” que, tal como Lula, falam que é preciso aceitar tudo que é pessoa de direita porque ela tem votos (veja esse artigo por exemplo), vemos que há centenas de milhares ou milhões que sinceramente querem, como nós, combater o golpismo e a direita, e não ficam nada felizes com abraços ao Renan, com prefeitos do PP de Maluf em Minas Gerais, nem de Lula falar que “perdoa os golpistas”, menos ainda com um deputado do PT propor mensalidades em universidades públicas .

O problema é que esse incômodo frente ao perigo maior vai sumindo passo a passo em aceitação resignada, como "mal menor". E o "mal menor", como belamente ilustrado na passagem acima, é somente um caminho de capitulação em “banho maria” ao mal maior.

Dilma, por exemplo, já deixou indicado que frente a Doria ou Bolsonaro, considera Alckmin um "mal menor" . Dificilmente um professor do estado de São Paulo pode concordar com isso.

A prisão da lógica do mal menor leva a constranger as possibilidades de pensamento e ação, de “resistência”, digamos. Frente a um mal que sempre é maior, há sempre um mal menor, e sempre à direita de onde estávamos originalmente. Assim, com críticas, todo progressismo paulista engoliu a aliança com Maluf em 2012, depois engoliu no terreno da luta de classes o que havia engolido na coligação eleitoral com a criminalização das jornadas de junho promovida pelo prefeito. Depois, em 2014, havia que engolir o PMDB de Temer e Cunha; depois, havia que engolir a promessa à bancada da Bíblia, que nenhum reacionarismo seria atacado (“Carta ao povo de Deus”), afinal, "sem coligação não se elege"; depois, os ajustes de Levy... e, assim, frente ao golpe institucional, chegamos a uma situação em que a classe trabalhadora esteva relutante de impedir um avanço da direita porque detestava Dilma pelo ataque ao seguro-desemprego, privatizações do Pré-Sal, cortava da saúde e educação públicas etc etc... (evidentemente isso não esgota outras questões como o papel da mídia, o tema da corrupção, etc).

Com o "mal menor", abrimos mão de construir “alternativas” políticas e na luta de classes. Sem o esforço consciente dessa construção, ficaremos – como uma tautologia – sempre presos ao "mal menor".

Agora Lula e o depois sempre cada vez mais distante...

Diferente dos caminhos em uma cidade, não há aplicativos inteligentes e a luta de classes não conhece atalhos. O país sofreu um golpe institucional capitaneado por aqueles que foram aliados, agraciados ou ao menos não combatidos em 13 anos de governo do PT: da Globo ao PMDB, passando pela FIESP ao poder judiciário. Todo debate de “futuro” exige pensar como fortalecer o programa e o sujeito político que podem dar combate a esses inimigos. O “agora” deve conectar-se aos fins. Reduzir as aspirações e a ação a um “mal menor” e ao estritamente alcançável eleitoralmente é abandonar qualquer “sonho” e permitir-se voluntariamente ficar preso nesse pesadelo capitalista herdeiro da Casa Grande.

O PT, de nascimento, orientou a classe trabalhadora a um duplo divórcio de suas possibilidades: a ação política estava restrita ao terreno eleitoral, com os seus limites de amplitude, regras e cronograma; a ação sindical deveria ser estritamente econômica; deveria ser feita uma “composição” de forças e, só num futuro, sem data visualizável, haveria lutas anticapitalistas ou até mesmo um mero “reformismo forte”.

Assim, se naturalizarmos a situação de calmaria na luta de classes produzida pela traição das centrais sindicais, da arqui-pelega Força Sindical, mas também da CUT e CTB, não haveria o que fazer salvo mais do mesmo. Restaria rezar para Outubro de 2018 chegar logo; rezar para que não aconteçam mais ataques até lá e, assim, sem combate na luta de classes, orar para que no terreno eleitoral recuperemos terreno perdido em cada local de trabalho e estudo e o recuperaríamos abraçados com a nata do golpismo, agora “perdoada”. 13 anos dessa estratégia em funcionamento não colocou a classe trabalhadora do ponto de vista de sua organização e consciência melhor do que estava em 2002, quando foi pedido que esta engolisse a submissão ao FMI (“Carta ao Povo Brasileiro” como mal menor)...

"O combate à elite e ao Estado não é para agora...!": isso está na raiz de como o golpe foi possível

A operação ideológica e política em curso encobre parte dos maiores inimigos dos trabalhadores brasileiros: a elite e o Estado burguês. Ao mirar sempre o “mal menor”, reduzindo o horizonte do possível a apenas o que é possível só sem um salto de consciência e sem organização anticapitalista, nunca será possível atacar quem nos ataca.

Mas atacá-los nunca foi o objetivo de Lula. Ao contrário: um de seus hits discursivos era como “nunca antes na história os bancos lucraram tanto!”, como se isso fosse bom para a classe trabalhadora. O inimigo é reduzido a contornos políticos e nunca a seus reais contornos de classe. Combate-se a sombra e nunca o corpo. A bancada do boi e não o agronegócio ("se não for golpista, tipo Kátia Abreu, tudo bem!"), a bancada conservadora e não os mil e um privilégios das igrejas, e claro, os capitalistas nem menção crítica ganham, pelo contrário, são exortados a serem piedosos e racionais “vocês vão lucrar mais”. Eles, ao contrário do discurso de Lula, sabem que se trata de “classe contra classe”.

Do ponto de vista do Estado capitalista é ainda pior. Nenhuma crítica ou mobilização em mais de uma década contra o arbítrio judicial, nem um questionamento ao cidadão como “recebedor” de políticas focais (ampliadas de sua miséria tucana) do Estado e não como sujeitos políticos e sociais de seu futuro. Primeiro a fome, o emprego, depois pensamos... E, aí quando a correnteza mudou, eis que esse mesmo Estado (Lava Jato!) mostra seus dentes e encontra-se a maioria da classe trabalhadora não somente passiva, mas até aplaudindo o monstro, afinal, é como se "seriam os doutores que melhor saberiam o que é bom para todos".

Mas e Bolsonaro?

Existe uma figura lógica útil para pensar esse problema: a redução ao absurdo. Bolsonaro é o absurdo feito carne, mas tratar ele como o único problema é justamente reduzir os perigos da situação e pular o perigo Alckmin, o perigo Doria, o perigo Huck, entre outros.

E assim voltamos ao ponto de partida dos problemas interconectados aqui abordados: "mal menor", separação do imediato do estratégico, naturalização do Estado e das posições dos capitalistas etc.

O que fazer?

Esse é um tema crucial das muitas perguntas feitas nos locais de trabalho e nas redes sociais. Os desafios e perigos são imensos. Mas não há atalhos: é preciso de um programa que ajude a elevar a raiva aos capitalistas; é preciso um programa anticapitalista. Contribuir do questionamento aos políticos, tão onipresente, ao questionamento de seus sócios e patrões, sem oferecer uma resposta “radical”, será Bolsonaro ou Huck que aparecerão como “antissistema” e, por isso, o Esquerda Diário defende a necessidade de impor pela luta uma Constituinte Livre e Soberana.

É preciso ajudar a desenvolver cada luta da classe trabalhadora como viemos fazendo com as importantes greves no Rio Grande do Sul (escondidas tanto pela mídia golpista como também pela mídia petista), ajudar a difundir e organizar a luta contra a censura nas escolas, contra o racismo, contra a LGBTfobia. É preciso superar a lógica do "mal menor" e a conciliação petista com os empresários, com a direita para darmos um combate consequente por nossos direitos e pela transformação radical da sociedade. A esses desafios que dedicamos os esforços militantes do MRT, organização política que impulsiona o Esquerda Diário, e explicamos nesse editorial.

Olhamos para nosso país vizinho, a Argentina, e na contramão de novos reformismos que terminam administrando o capitalismo ou lutando lado a lado com a monarquia, como o Syriza grego e o Podemos espanhol, e vemos como é possível avançar, inclusive eleitoralmente, com um programa classista com uma clara estratégia anticapitalista e revolucionária (saiba mais lendo esse artigo). É possível unir o que é possível agora, com o que é necessário, mas para isso é necessário mais organização e mais "radicalidade" nas ideias, esperamos com essas ideias contribuir nesse necessário debate e combate.




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