Sociedade

PSIQUIATRIA

Mal-estar na psiquiatria: a medicalização das emoções

Campeões de vendas, os psicotrópicos são a face do progresso médico ou indicador de grave crise na psiquiatria?

Gilson Dantas

Brasília

domingo 25 de dezembro de 2016| Edição do dia

Um dos estudiosos de gabarito internacional e crítico da psiquiatria atual é o dinamarquês Dr Peter Gotzsche. Em livros e palestras que percorrem mundo afora ele tem procurado demonstrar que a psiquiatria está mergulhada em profunda crise estrutural, apesar das aparências, apesar da sua respeitabilidade institucional.
Sua crise tem a ver com sua formatação mercantil, com sua tendência abusiva a medicalisar problemas emocionais e a impor o uso de pílulas tóxicas para todo tipo de distúrbio psíquico, mesmo aqueles que nada têm a ver com a “falta” do psicotrópico...

Divulgamos a seguir o trecho de uma palestra, em vídeo, em espanhol, do P. Gotzsche, em Copenhague, 2014, onde ele toca nesses e em vários aspectos sensíveis dos perigos e, segundo ele, dos crimes da psiquiatria.

O fato de que, em 2009, o medicamento mais vendido dos Estados Unidos era um antipsicótico, e em quarto lugar os antidepressivos [em 2º lugar drogas para baixar colesterol, em 3º os antiácidos] é um sintoma de profundo desvio da psiquiatria. Aqueles medicamentos invariavelmente criam desequilíbrio bioquímico no cérebro. E de conjunto, portanto, estamos diante de um quadro que indica que algo vai mal. Ele relata, também, que nos processos judiciários que chegam a acontecer, a maior quantidade de crimes corporativos dos Estados Unidos giram em torno de antipsicóticos.

Antigamente, um idoso tinha um ou outro problema psíquico, mas não era medicalizado como regra, muito menos crianças. Hoje é regra.

Mesmo o luto pela perda de um ente querido é rapidamente medicado com aquelas drogas. A civilização sempre soube que todo luto tem um prazo, que pode ser meses e meses. Não é o que acha a psiquiatria. O “manual” [DSM IV] internacional da psiquiatria recomendava tolerar sofrimento pelo luto por dois meses, o que já era um problema, mas agora deu mais um passo adiante: o DSM V considera que há que medicar o idoso em luto imediatamente depois de 7 dias...

Gotzsche argumenta, conhecendo os perigos de tais drogas, que essa postura, da pronta medicalização, é eticamente indefensável e até criminosa. Aliás, um dos livros do dr P. Gotzsche, publicado no Brasil, traz um capítulo sobre o tema [O livro se chama Medicamentos mortais e crime organizado: como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica; e o capítulo, o 17, é Psiquiatria: o paraíso da indústria de medicamentos].

Sobrediagnósticos e sobretratamentos é o nome da coisa. Isso nos marcos de uma profissão contaminada, argumenta ele, com dinheiro, corrupção e marketing. Uma crise que só tende a crescer, nos marcos do desalento geral por conta das relações no capitalismo e também da crise do próprio capital, ávido por nichos de maiores taxas de lucro na medicina.

Você pode se interessar em assistir ao curto trecho do vídeo abaixo, daquela palestra de P Gotzsche e tirar suas próprias conclusões, quem sabe, pode assistir à palestra por inteiro, a ser oportunamente lançada aqui no Esquerda Diário.

Crédito de imagem: site cchrint.org.jpg




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