Sociedade

Mais um suicídio na UFMG: o que isso nos mostra sobre a universidade

Neste mês mais dois colegas da UFMG escolheram o suicídio, provavelmente como forma de interromper todo o sofrimento que vinham enfrentando. Um deles disse a um amigo dias antes que estava "a ponto de explodir". Estes não são os primeiros casos de estudantes que, claramente, estão perto dos limites suportáveis de uma vida saudável, física e mentalmente, na universidade. É urgente discutir a relação entre a saúde mental e a universidade.

Pammella Teixeira

Belo Horizonte

Maria Eliza

Estudante de Ciências Biológicas na UFMG

segunda-feira 16 de abril| Edição do dia

Recentemente, no dia 8 de abril, um estudante de Engenharia Civil na UFMG cometeu suicídio. Em luto, os colegas da vítima tiveram aulas e provas canceladas. Dias antes de interromper sua vida, o estudante desabafou com um amigo, dizendo que estava "a ponto de explodir" devido à rotina universitária, que é repleta de pressões, cobranças, assédios, sobrecarga de atividades, etc. No mesmo dia um mestrando da escola de veterinária da UFMG também tirou a própria vida. Por mais amplas que sejam as hipóteses sobre o porquê de alguém cometer suicídio, os números são claros: 39% dos estudantes, contra 6% da população em geral, sofrem de depressão.

Sobre os casos recentes de suicídio na universidade, a reitoria da UFMG soltou uma nota vaga, que nem diz se tratar de dois suicídios e em que se isenta da responsabilidade sobre a morte dos estudantes.

Uma rápida pesquisa nas notícias do último ano ou uma breve navegação por páginas de interação da UFMG (Spotteds) já são suficientes para provar que há algo de muito errado com a saúde mental dos estudantes em uma das mais renomadas universidades brasileiras. Em maio de 2017, o tema tomou as redes sociais e os corredores da UFMG quando em apenas duas semanas aconteceram dois casos de suicídio de estudantes e uma tentativa em que a vítima sobreviveu. Entretanto, são dezenas de casos de tentativas de suicídio todos os anos, que levam ou não à morte, sem que isso venha a público ou se torne uma preocupação real da administração da universidade.Mas o que estaria tão errado? O que a universidade tem a ver com isso?

Desde a forma de ingresso na universidade, através do vestibular, que vem carregado de um altíssimo nível de cobrança sobre o “candidato à vaga” (seja pessoal, familiar ou da própria sociedade), até o nível de cobrança dos professores nas disciplinas, provas, trabalhos, noites em claro, estágios e cursos de pós-graduação, a competição de tantas tarefas com a vida social, levando ao isolamento, individualismo e solidão.

Isto ainda passa pela forma como o conhecimento e a produção deste é encarada dentro das universidades – de forma elitista e produtivista, sendo tratado “de cima para baixo” e estando a serviço do lucro de alguns, e não da realização dos sonhos de tantos estudantes, tampouco da melhoria das condições de vida na sociedade.

Não esqueçamos também das precárias ou inexistentes políticas de assistência e permanência estudantil, que tornam ainda mais difícil o percurso por uma universidade, especialmente para a juventude pobre, negra, LGBT, para os estudantes que mudam de cidade para estudar, para os que precisam conciliar trabalho e estudo.

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A profundidade dos efeitos destes exemplos e a combinação entre eles se escancara nos relatos de jovens universitários depressivos e a cada vez que nos salta aos olhos o número crescente de suicídios, que são a expressão cabal da falência do sistema capitalista – a ponto de convencer as pessoas que a própria vida não vale ser vivida.

É importante lembrar que as questões sociais e políticas que atingem toda a sociedade se dão dentro dos muros da universidade também e devemos levar isso em consideração ao pensar sobre a saúde mental dos estudantes e os fatores que possam estar associados a isso e contribuir com esse cenário tão preocupante.

A depressão é um sintoma social, não um problema meramente biológico e individual. Não há assistência psicológica – que inclusive não é de fácil acesso – que mude o cenário de crise mundial do capitalismo, com a alta do desemprego, substancial piora das condições de vida das massas, desmonte da educação e da ciência, ataque aos direitos democráticos, etc. Isso tudo nos atinge diretamente, tanto objetivamente – porque não temos bolsas, moradia, transporte, lazer, enfim... boas condições para estudar – quanto subjetivamente, pois somos uma geração com frágeis perspectivas de futuro, que para muitos será nos empregos mais precários, com péssimos salários, com frustrações profissionais, etc.

É como está aqui nessa matéria do Esquerda Diário: “Ainda que não possamos dizer que o capitalismo gera de forma mecânica as doenças mentais, podemos dizer que as instituições do capitalismo contemporâneo as fortalecem e as alimentam, as aceleram ou as potencializam: a escola, a família, a moda, os partidos, a televisão, os meios de comunicação de massas.”... e as universidades! Sim, infelizmente as universidades fazem parte do grupo de“instituições do capitalismo contemporâneo” e podemos ver isso quando pensamos em exemplos cotidianos que, quando elencamos, se revelam inúmeros e profundos.

Esse tema tem que ser discutido amplamente pelo conjunto dos estudantes. Nós, que nos organizamos no grupo de mulheres Pão e Rosas, juventude Faísca e construímos o Esquerda Diário, queremos fazer uma discussão viva sobre a saúde mental, com assembleias e reuniões que se liguem à necessidade de ação, para que possamos não apenas identificar os problemas, mas também superá-los,lutando para transformar não só a universidade e a produção de conhecimento como também toda sociedade capitalista e produtivista em que vivemos. O DCE, que deve ser o órgão de organização estudantil de toda a universidade, e as demais entidades de base de cada curso e prédio têm que convocar assembleias e reuniões, como espaços democráticos onde os estudantes possam discutir e se organizar.

Leia também:MANIFESTO Para questionar a Universidade e a sociedade de classe




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