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GREVE DOS PROFESSORES RS

Mais um golpe da direção do CPERS: o debate sobre o comando de greve dos professores do RS

quinta-feira 30 de novembro| Edição do dia

Na última reunião do conselho de representantes a maioria do CPERS, PT e PCdoB, votaram uma resolução que, na prática, rasga a decisão da assembleia de tornar o comando aberto. Ele será ampliado apenas com um representante da direção de cada nícleo.

Desde o início da greve a questão da direção cotidiana da mobilização esteve colocada. Aliás, a greve teve início em muitas escolas antes mesmo da aprovação em assembleia. A direção central praticamente se limitou a aceitar uma realidade que já havia sido imposta pela base.

Ao longo desses mais de 80 dias de greve, não tomou nenhuma medida efetiva para fortalecer a mobilização, ao contrário, levou o magistério para o beco sem saída das reuniões com o governo Sartori. Isso em um momento em que estava à altura das mãos convocar uma mobilização de todo o povo gaúcho, para cerrar fileiras em torno do magistério estadual e dos municipários de Porto Alegre para derrotar o projeto golpista simbolizado nos governo de Sartori e Marchezan.

No momento decisivo a categoria começou a buscar influir no andamento da mobilização, aprovando resoluções que a direção central descumpriu uma atrás da outra. No momento derradeiro, às vésperas da greve nacional do dia 05/12, mais um descumprimento de resolução votada em assembleia, dessa vez na questão decisiva do comando de greve.

Essa discussão, aliás, deveria ter surgido desde o primeiro instante e não somente quando a direção central se voltou abertamente contra a greve. Se são os professores, dentro de cada escola, que fazem a força da greve por que, no comando de greve, apenas a direção central e as “correntes” estão representadas?

A responsabilidade da oposição

A grande responsável pela discussão do comando de greve não ter surgido antes é a oposição, especialmente as correntes que encabeçam os principais núcleos de oposição, como o 38º e o 39º da cidade de Porto Alegre.

A incapacidade de oferecer um caminho alternativo ao que a direção central impôs desarmou a categoria para enfrentar a traição no momento decisivo. Nas últimas semanas vimos a direção central, ao invés de panfletar para mobilizar a greve, gastar o dinheiro dos associados para ir contra a resolução da assembleia e mobilizar pelo fim da greve. Vimos o PT e o PCdoB votarem junto com Sartori para destravar a pauta da ALERGS e possibilitar a votação das privatizações e do acordo fiscal ainda este ano. A oposição, que não preparou uma alternativa, está sendo mais uma vez incapaz de impedir a traição.

O questionamento à forma como se organiza o comando de greve podia e deveria ter surgido desde a primeira assembleia. As plenárias dos núcleos de Porto Alegre e região, como a que aconteceu depois de 84 dias de greve, poderia e deveria ter ocorrido antes mesmo da assembleia que deflagrou a greve. Teria sido possível transformar essas plenárias num grande polo de reunião de todo o ativismo da greve e numa força real para impor um rumo alternativo à greve. Mas na pratica, a oposição não tinha qualquer rumo alternativo para propor. Mais do que nunca ficou demonstrado que é preciso construir, ou reconstruir, uma nova oposição, capaz de apresentar uma estratégia para vencer e de utilizar seus postos da estrutura do sindicato, dos núcleos, do conselho e do comando para fazer essa estratégia triunfar.

A base da categoria deve o ser o sujeito da luta

Praticamente todas as correntes de oposição levam o nome “socialista” na sua sigla e estão todos comemorando o centenário da Revolução Russa. A melhor comemoração que podemos fazer, no entanto, é aprender das lições dessa grande revolução.

A grande bandeira dos bolcheviques para conseguir “pão, paz e terra”, era todo poder aos sovietes. Mas o que eram os sovietes? A tradução ao português seria conselhos, que reuniam representantes das assembleias de base de cada local de trabalho, em cada fábrica, em cada região, em cada município, a nível estadual e a nível nacional. Esses representantes poderiam sempre ser trocados por outro, a qualquer momento, pela assembleia que os elegia.

Isso se deu num momento revolucionário, sem dúvida. Mas é uma grande exemplo para cada mobilização. Se os trabalhadores russos conseguiram organizar todo um país em base às assembleias por local de trabalho, seria mesmo muito utópico propor organizar a greve em base a reuniões por escolas ou grupos de escolas próximas geograficamente? Em cada escola se votariam representantes, por exemplo na proporção de 1 para 10 professores presentes, que comporiam um comando regional de greve. Neste comando se votariam representantes para o comando estadual.

Evidentemente é possível tal forma de organização, e temos inúmeros exemplos na história que mostram que a cada luta séria os trabalhadores tendem a se organizar a partir das assembleias por local de trabalho e a buscar uma forma de coordenação entre elas. Um grande exemplo na história é a Associação dos Marinheiros no pré-golpe de 64, que era formada por representantes de cada navio e unidade da marinha e por representar, de forma mais direta, os anseios da base foi um dos únicos setores prontos para o combate decisivo quando chegou o momento.

Comando aberto, comando fechado e as correntes e partidos

A votação de um comando aberto significou uma ameaça ao controle da burocracia, mas não significa um passo para o controle da base sobre os rumos da greve. Com o comando fechado, onde quem manda é a direção central e quem pode opinar são as correntes com força eleitoral, as opiniões e propostas que surgem na base da categoria não pautam as ações cotidianas da greve. Na verdade, simplesmente abrindo o comando, a situação não muda muito. O comando expressaria as posições das correntes com mais militantes, mas a base da categoria continuaria sem um poder real de decisão.

Durante a greve do magistério, a cada momento, foi a base da categoria que impulsionou a luta adiante. Temos plena confiança de que, se ela tivesse sido chamada a se posicionar, teria se colocado pelas propostas que fariam a greve avançar e se unificar com outros setores. Além de uma forma de organização democrática, que permitisse que a partir de cada escola a base se posicionasse, também seria necessário propostas para a greve avançar.

Por isso seria sem sentido opôr a democracia direta, onde a base decide, à necessidade de se organizar em corrente e partido político. Para impor a própria democracia de base é preciso uma forte organização, uma grande corrente, que lute por ela nos quatro cantos do estado, em cada núcleo, em cada escola. Enquanto a atual oposição foi incapaz não só de dar essa batalha, mas até mesmo de ter propostas alternativas para a vitória da greve, a partir do movimento Nossa Classe e do Esquerda Diário, buscamos apontar um caminho de unificação das lutas, de unidade com todo o povo gaúcho, para levar nossa luta à vitória. Por isso chamamos cada professor e professora a fortalecer essas ferramentas de luta, a batalhar por uma verdadeira democracia de base no CPERS e a lutar por uma estratégia para vencer.




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