Política

ANÁLISE

Mais centrão no governo: um amigo de Maia no Ministério das Comunicações

Na última semana Bolsonaro recriou o Ministério das Comunicações para dar ao genro de Sílvio Santos, o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN). O que tem por trás dessa ação além de mostrar uma jogada do governo para atrair ainda mais o centrão?

domingo 14 de junho| Edição do dia

O argumento oficial de Bolsonaro é de que o governo precisa melhorar a comunicação – e, por isso, escolheu Faria, com trânsito entre os Poderes, afirmando também que “Vamos ter alguém que, ele não é profissional do setor, mas tem conhecimento até pela vida que ele tem junto à família do Silvio Santos”. O Ministério das Comunicações foi extinto no governo Temer e passou a fazer parte do ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, atualmente comandado pelo militar Marcos Pontes.

As mudanças na comunicação do governo incluem a saída do general Rêgo Barros (que nunca teve boa relação com o chefe da Secom, Fabio Wajngarten) do cargo de porta-voz. A secretaria especial de comunicação do governo, responsável pela verba publicitária, será parte agora do novo ministério. Com isso, Fábio Wajngarten responderá a Faria. A Secom hoje controla R$ 127, 3 milhões em contratos vigentes com agências de propaganda. De acordo com dados divulgados pela pasta, SBT foi o segundo canal que mais recebeu verba publicitária do governo Bolsonaro no ano passado, ficando atrás apenas da Record.

A SecomVc, que recentemente reproduziu no twitter a nota de Bolsonaro, Mourão e Azevedo sobre o art. 142, foi uma iniciativa da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República em parceria com o gabinete do porta-voz do órgão, que estava tendo uma atuação quase invisível — mesmo antes do general Rêgo ter sido infectado com a Covid-19, que o tirou do Palácio do Planalto durante quase todo o mês de maio.

Nesse contexto, a ação de Bolsonaro mostra uma jogada importante do governo de dar continuidade às suas movimentações para atrair o centrão, o que é parte das movimentações dos militares, com Ramos à frente, para dar mais estabilidade ao governo. Assim, o governo recriou um ministério e colocou nas mãos de Faria, que é do PSD e tem estreita relação com Rodrigo Maia, que comemorou a nomeação.

O fato de Faria ser casado com Patrícia Abravanel, filha de Sílvio Santos, é decisivo para pensar a nomeação do cargo, levando em consideração também que ele já tem uma relação histórica com o setor de comunicação. É importante ver, no entanto, que essa articulação também pode expressar um aceno de Bolsonaro para o setor de telecomunicação, no caso específico a SBT, mas que pode abrir possibilidade de outras articulações, com o objetivo de fazer uma parceria maior do governo com a área de comunicação.

Após a saída de Sérgio Moro do governo, a aliança de Bolsonaro e dos militares foi se mostrando cada vez mais forte, passando a organizar uma articulação maior com o centrão. Agora, em meio a um contexto atos nos Estados Unidos contra a violência policial que assassinou brutalmente George Floyd, que enfraquecem Trump, aliado de Bolsonaro, e que causa também consequências no Brasil como vimos com os atos semana passada em diversos estados que deixaram os bolsonaristas recuando, vemos mais fissuras do que fortalecimento desse bloco.

Um exemplo disso foi o fato de Bolsonaro ter que retroceder com uma resolução que permitiria com que o exército tivesse uma aviação de asa fixa que hoje só é permitido para a aeronáutica e a Força Aérea Brasileira, após a crítica de brigadeiros à ação. Nesse contexto, a nomeação de Faria para o Ministério das Comunicações tirando o general Rêgo Barros do cargo de Porta-voz pode significar, além da articulação com o centrão, também um aceno aos generais da ativa, que temem a crescente identificação do exército com o governo perante a opinião pública. Que a comunicação oficial não esteja mais nas mãos de um general ajuda também a atender um pouco esses temores da ativa.




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