Sociedade

SAÚDE PÚBLICA DF

Mais calamidade em Brasília: O governo Rollemberg quer tirar hospitais das mãos do Estado

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 22 de outubro de 2015| Edição do dia

À semelhança de outras unidades da federação, a estrutura de poder do GDF é corrupta e grotescamente elitizada. Entram e saem governos e o resultado sobre a máquina pública é invariavelmente o mesmo: agravar e burocratizar a máquina e adaptá-la aos barões das negociatas econômicas e da burocracia político-administrativa dos super-salários.

Não está sendo para nada diferente com Rollemberg; apenas o diferencial, se se pode dizer assim, é que, diante da crise da máquina de gastos, ele se lança a ataques contra os trabalhadores e agora diretamente contra o serviço público.

Os serviços públicos estão em calamidade, e o atendimento hospitalar com filas por todo lado, precarização, insuficiência, desumanidade, crise nas unidades de terapia intensiva, nos ponto-socorros, ambulatórios, falta de pessoal, medicamentos, equipamentos, os salários achatados, enfim desmantelo total. E daí decorre a atual onda de greves legítimas.

Se fosse um governo a favor dos trabalhadores e dos serviços públicos, deveria se aliar com a população. Ele faz justamente o contrário: promove mais ataques contra o funcionalismo, mais impostos e agora vem com essa proposta de entregar os hospitais e a rede pública para o setor privado.

Já anunciou que em dezembro tomará medidas neste sentido e tem uma equipe preparando o golpe de diminuir custos terceirizando tudo que puder. Já não basta que hoje existam “hospitais de rico” e “hospitais de pobre”; é preciso que estes gastem menos e sejam gerenciados pela lógica empresarial, do lucro.

Seu plano é cortar gastos tirando a assistência à saúde das mãos do Estado. O governo já anunciou que vai começar entregando o maior hospital público de Brasília, o da Ceilândia [HRC] a terceiros, fora do Estado. O GDF fica com custos de funcionários, insumos, medicamentos e entrega o controle dos trabalhadores para mãos privadas, das entidades tipo OS, como eles gostam de chamar [Organizações sociais] que são grupos privados, às vezes com fachadas de “sociedades beneficentes”, que passariam a aplicar lógica empresarial no serviço público. E saúde cairia totalmente no balcão político de negociatas. É o governo, que em vez de valorizar o serviço público, está disposto a jogá-lo em mãos mais mercenárias.

Fizeram isso com quatro hospitais em Goiânia, alguns em São Paulo, Pernambuco, Minas, e o resultado – para os trabalhadores – foi um desastre.

Como declarou a diretora nacional do Cebes [um centro de estudos da saúde], G Custódio, se tomarmos como base as cidades onde essa terceirização foi implantada, “os governos passaram a gastar três vezes mais e sem o retorno esperado. Os contratos, com o tempo, exigiram ajustes que pesaram nos cofres públicos. E o Estado tem que arcar com o pagamento dos salários dos funcionários” [CBraziliense,29/9/15]. As condições de trabalho vão claramente piorar, teremos um serviço de aparências. Como declarou o presidente de uma associação médica [AMBR], referindo-se às entidades para quem o governo quer entregar a saúde pública: tais “instituições tendem a querer parceria com aquilo que é fácil e de baixo custo para ser lucrativo” [CBraziliense,29/9/15].

Primeiro eles sucateiam o serviço público, depois terceirizam, submetem à lógica do lucro. São “gestores do serviço público”, na verdade a favor da pilhagem privada e do descalabro.

Há várias greves em andamento, cresce a bronca contra esses governos locais e o nacional que quebraram os serviços públicos, que ganham eleição com um discurso e quando assumem praticam o oposto, enfim, uma grande revolta política. O problema é que, por sua vez, o movimento sindical não está conseguindo repercutir essa profunda repulsa política na esfera das lutas. Assim como não reflete, a fundo, em termos de luta e de programa, a calamidade que veio se desenvolvendo há muito tempo na saúde, educação e transportes. A revolta de junho de 2013 não chegou às lideranças sindicais. Sua burocracia, cutista por exemplo, “administra” as greves, mas não organiza um plano comum de resistência contra os ataques, aliando-se com estudantes e população revoltada, articulando todas as greves pela base e por cima.

O governo vem demitindo, cortando carga horária [no Hospital de Base, por exemplo, que está à mingua em termos de pessoal, equipamento e insumos], o sistema está completamente superlotado [o esse mesmo hospital, o mais tradicional do DF, só oferece 96 vagas para o Pronto Socorro, quando, de fato o número de internados chega a quase 200, inclusive em maca de corredor]. E, no entanto, não se desenvolve um movimento dos sindicatos à altura da situação.

Se não houver uma resposta organizada e combativa do movimento dos trabalhadores e partidos de esquerda, Rollemberg vai executar essa privatização envergonhada, seguir com os ataques e agravar todo o serviço público que já anda em marcha a ré.

A burocracia sindical sempre foi funcional aos diferentes governos locais, assim como a CUT, nacionalmente, veio sendo funcional para a ampliação, em escala de milhões, da terceirização e precarização do trabalho naqueles setores. De 2,5 milhões de terceirizados com FHC, temos mais de 12 milhões com os governos também neoliberais, do PT. A resposta, portanto, que jamais veio de cima, só pode vir da classe trabalhadora.

Para isso é importante que os trabalhadores combativos, a oposição sindical e sindicatos mais ativos, convoquem um encontro amplo de trabalhadores pela base para começar a criar outra tradição, de resistência e organização das lutas pela base, unificando movimentos, greves, criando fundos de greve, golpeando juntos a cada greve, apoiando cada uma delas, mas trabalhando para arrancar dos sindicatos a burocracia petista e conservadora em geral.

E denunciando um governo que não tem dinheiro para pagar professores e funcionários da saúde, mas garante salários de 30 a 50 mil reais por mês para a cúpula dos tribunais, como o TCU/DF, também para a cúpula repressiva; não há cortes na polícia: a polícia local ganhou aumento de ajuda moradia de 100% e aumentos salariais escalonados, além de que seus salários são muito mais elevados do que o do professorado.

Que cada membro do Estado ganhe o salário de um professor, e que nenhum salário seja menor que o mínimo do DIEESE. E pela imediata incorporação do terceirizado sem concurso público, escala móvel de salários de acordo coma a inflação. Repudiemos não apenas o sucateamento, mas também a privatização do serviço público. Os serviços como saúde, educação e transportes devem ser monopólio do Estado, com controle dos trabalhadores, e por isso mesmo, o Estado não pode ser monopólio de quadrilhas e castas políticas que depois de pilharem e precarizarem os serviços públicos agora querem entregar sua gestão para setores privados que são movidos pela lógica do lucro. Não aceitemos aqueles que lucraram na bonança agora venham jogar a crise, deles, na classe trabalhadora.




Tópicos relacionados

Sociedade   /    Saúde   /    Brasília

Comentários

Comentar