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Série | Maid: violência doméstica e a luta de uma mãe para sobreviver

Há aguns meses estreou na plataforma de streaming Netflix a minissérie Maid sobre uma mãe que sai de um relacionamento abusivo e precisa sobreviver com uma filha pequena nos Estados Unidos. A história se baseia no livro autobiográfico Maid. Hard Work, Low Pay and a Mother’s Will to Survive (Faxineira. Trabalho pesado, salário baixo e a vontade de uma mãe por sobreviver, em tradução livre) escrito por Stephanie Lang.

Patricia GalvãoTrabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quinta-feira 25 de novembro | Edição do dia

A história de Stefhanie é a realidade de muitas mulheres vítimas de violência doméstica que lutam para recomeçar a vida em uma sociedade na qual mães solos não tem lugar, embora mais e mais mulheres tenham se tornado o arrimo da família. Na minissérie Stephanie é representada por Alex (Margaret Qualley) e sua filha Maddy (Rylea Nevaeh Whittet). A minissérie fez algumas alterações na história original, com novos e complexos personagens que aprofundam o debate sobre a opressão e a violência de gênero.

Alex conheceu Sean em um bar. Ambos vinham de famílias "desestruturadas", ou seja, famílias longe da idealização burguesa, com contradições, dificuldades e dramas profundos. Sem muito dinheiro e com muitos sonhos, ir para a universidade, fazer uma roadtrip de bike pela América, ler poetas loucos e sentir a vida enchendo os pulmões. No entanto, a vida real toma um caminho diferente.

Ao ficar grávida, o sonho desmoronou. O amor virou rancor, com acusações que muitas mulheres já escutaram. A destruidora de sonhos, golpe da barriga, a responsabilidade recai sobre a mulher por uma gravidez não planejada.

"Você arruinou minha vida". Mais uma vez a responsabilidade sobre a queda do homem é da mulher. Carregando a maldição de Eva, Alex vai ser condenada a viver com medo do castigo. É aí que o humilde trailer onde moram se torna uma prisão para Alex. A moradia precária, cada vez mais comum nos Estados Unidos por causa da especulação imobiliária, começa a se deteriorar junto com o relacionamento.

Para cuidar da filha, Alex deixa de trabalhar. Sem trabalho e sem outra fonte de renda, ela passa a depender exclusivamente do companheiro que decide o que vão comprar, comer, tudo. Quem paga as contas manda, grita.

Quando decide fugir no meio da noite, depois de quase ser atingida por um soco do companheiro, Alex não tem para onde ir. Seus amigos são os amigos de Sean. Sua família não é opção.

No serviço social é inevitável se sentir julgada. White trash é um termo pejorativo para se referir a pessoas brancas pobres. É assim que ela se sente, um lixo. Sem formação e sem ter pra onde ir, Alex precisa enfrentar a burocracia estatal para conseguir alguma ajuda para recomeçar. Sete formulários, um curso sobre maternidade, a "ajuda" governamental é quase impossível. Para receber o auxílio moradia ela precisa ter um emprego. Para se candidatar a um emprego precisa ter residência fixa. É quase como um aviso para desistir antes que seja tarde.

Para poder trabalhar, mães como Alex necessitam de creches para deixar seus filhos. Mas sem emprego não há subsídio para pagar uma, pois não há creches públicas. Em 2014 o custo com a educação infantil alcançava cerca de 23% da renda familiar. Para as famílias mais pobres é impossível arcar com esse custo, o que faz com que muitas mulheres deixem de trabalhar. Em 2021 a situação se agravou ainda mais. Com as restrições impostas pela pandemia, a falta de creches e o medo da contaminação retirou milhares de mulheres do mercado de trabalho.

A recuperação econômica abriu novos postos de trabalho. No entanto, a maioria absoluta desses empregos são precários, pagam salários baixíssimos e não fornecem nenhum tipo de assistência. Conservadores acusam os mais pobres de rejeitarem esses empregos para viverem com ajudas governamentais de 300 dólares semanais. Esse discurso fundamenta medidas de austeridade e cortes de gastos. No entanto, a realidade é bem diferente. Entre arcar com os custos altíssimos de uma creche e os salários baixos, especialmente para as mulheres, mães como Alex se veem num dilema insolúvel. Uma mulher ganha em média 0,83 centavos por cada 1 dólar pago para um homem. Nessa matemática não é difícil prever que as mulheres deixarão de trabalhar para cuidar dos filhos. O patriarcado e a exploração capitalista retiram da mulher o direito à independência financeira. Durante o desenvolvimento da história vemos como essa questão é crucial para a protagonista.

De volta ao serviço social que Alex começa a entender que o abuso psicológico, ameaças verbais são parte da violência de gênero. Não é preciso esperar que o soco dado na parede acerte seu rosto. Isso não significa, no entanto, que a justiça veja da mesma forma. O palavreado juridiquês incompreensível às pessoas comuns é um pequeno detalhe que mostra como a própria justiça já é inalcançável e não está de fato interessada em proteger as mulheres e crianças, mesmo na mais rica nação do mundo. Os Estados Unidos profundo, a Deep America, mostra um país de trabalhadoras precarizadas, com salários miseráveis e auxílios governamentais que não ajudam a ninguém.

São muitas as violências que perpassam a vida das mulheres. Os relacionamentos abusivos que paralisam as mulheres. A violência doméstica que deixa sequelas nas mães e nas filhas. Mas elas não param por aí. A violência estatal que contribui para a situação de vulnerabilidade das mulheres. Há todo um sistema que se sustenta graças à manutenção da violência patriarcal. O grande trunfo da série, ainda que de forma limitada e romantizada, é mostrar essa cadeia de violências que marcam a vida das mulheres.

Mostra como o Estado não é capaz de assegurar uma vida minimamente digna para as vítimas, revitimizando-as nos tribunais e nos escritórios de assistência social. Mães solo são estigmatizadas, responsabilizadas pela separação, mesmo se tratando de sair de um relacionamento abusivo ou violento. O curso mostrado na série, destinado para mães como Alex, além de ministrado por um homem sem filhos, trata de ensinar as mães como estabilidade familiar é importante. As ensina também como é fundamental garantir uma alimentação de qualidade aos filhos, mas não mostra como essas mulheres podem, com 37 dólares por semana, conseguir comprar alimentos adequados.

O desfecho da história, embora carregue um final feliz para autora e personagem, não deixa de mostrar de relance outra mazela que se tornou a segunda causa de endividamentos familiares. Mesmo com bolsa de estudos, Alex precisa recorrer a um financiamento estudantil. Nos Estados Unidos, além do altíssimo custo das creches, as universidades são majoritariamente particulares. As famílias, as que podem, começam a juntar dinheiro em uma poupança para os filhos logo quando nascem. Além do processo seletivo excludente e elitista, o custo da faculdade afasta uma grande parcela da juventude. É toda uma lógica de perpetuação da precarização da vida.

O sonho americano para jovens mulheres e mães está longe de ser realizado.




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