CONJUNTURA

Maia presidente? Temer sobrevive? Como ficam as reformas e a crise?

Como fogo em mato seco se alastram as especulações de que Rodrigo Maia estaria na iminência de dar um golpe de misericórdia no combalido Temer. Maia é raposa criada por pai stalinista convertido em neoliberal e alçado ao poder na sombra de jogadores nada limpos como os também cariocas Cunha e Cabral que lhe serviram de tutores, mesmo que quase nunca tenham sido aliados. Cunha está a dias de concluir sua delação que deverá selar o destino do golpista do Jaburu. Trocaríamos um golpista do PMDB paulista por um do DEM carioca apoiado pelo PSDB e pelo PMDB daquele estado? Ou Temer pode sobreviver? Como esses jogos se encaixam na batalha das reformas e na correlação de forças entre as classes sociais?

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

domingo 9 de julho| Edição do dia

Maia presidente ou Temer sobrevive?

Crescem as especulações até mesmo de quais ministros Maia manteria em seu governo interino depois de uma aceitação da denúncia na Câmara. Toda a ala “cabeça preta” do PSDB parece que ganharia uma proeminência com Maia, o PMDB carioca com Picciani e Zveiter no jogo também ganharia um suspiro de vida depois das catástrofes sofridas com a prisão de Cabral, Cunha e a derrota eleitoral de Paes e a eterna agonia do governo Pezão. Maia, pode ter ambições presidenciais em 2018 mas como tem pouco tempo para se firmar até lá oferece menores riscos do que outro presidente indireto, isso parece explicar a rápida debandada do tucanato detrás dele. Os presidenciáveis Alckmin e Doria encontram-se em silêncio. Um silêncio que fala alto.

Maia foi a Argentina em missão oficial da Câmara levou consigo dois objetivos recônditos. Apoio institucional do vizinho do sul a seu eventual novo governo e consolidar uma base de apoio. Sua comitiva trazia proeminentes deputados: Benito Gama (PTB-BA); Heráclito Fortes (PSB-PI); Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE); Rubens Bueno (PPS-PR) e Rogério Rosso (PSD-DF). Alguns desses, tal como Maia – o Botagofo das planilhas – notórios recebedores de dinheiro da Odebrecht, mas também articuladores de votos contra Temer. A esses se somariam o PSDB, parte do PMDB, o DEM e ainda PCdoB e Rede. O PT, com todos seus jogos mirando 2018 nega negociar com Maia, mas pode oferecer uma "não resistência" a sua tomada do poder. Aldo Rebelo, eminente membro do PCdoB está articulando um manifesto que pode levar o PCdoB a compor com Maia (o que já fizeram na eleição para a Câmara) ou a rachar seu partido para que possa ficar com um ovo no cesto de Maia e outro na cada vez mais fraca campanha de “diretas Já”.

Há sinais contraditórios na conjuntura, com a base de Temer garantindo sessões na Câmara em plena sexta-feira para acelerar o trâmite do processo, seguros que por enquanto ganhariam no voto. Muitos outros sinais dão conta que Maia estaria prestes a dar o "bote". Maia nega, e negará até o fim, talvez até vote para que Temer fique para mostrar-lhe lealdade e ganhar seus escuteiros como apoio a seu eventual governo. Quanto mais aparecer institucional e mais que "não queria ser presidente" mais se fortalece Maia.

Temer, que tem seu destino amarrado nas reformas por um lado e em um bloco da impunidade de parlamentares, não está morto apesar de profundamente ferido. Quantas vezes já apareceu estar diante da crise terminal e combalido permaneceu. Como cada dia que vivemos na última conjuntura, há espaço para manobras. Mesmo que cada vez mais limitadas e cada vez com menores ambições, sobretudo no que tange à reforma da previdência.

É possível que cedo ou tarde, ainda mais com a delação de Cunha, Temer perca sua base de apoio na Câmara. A dúvida que resta, agora que há um novo presidenciável, é se essa articulação pluripartidária garante a presença de 342 votantes pelo “sim” ao menos na votação da primeira denúncia que pode ocorrer no final da semana que vem. A batalha de Temer não é mais para garantir 172 votos “não” mas para impedir a presença de 342 “sim”. Repetindo como farsa a tragédia de Dilma mesmo sem os patos irem às ruas.

Se Temer sobrevive nesse cenário, mesmo conseguindo uma reforma trabalhista, aumentará o “vazio de governo”. Sua queda para ser substituído por Maia oferece uma oportunidade de fechar essa crise de governo mas recoloca cartas na mesa da crise orgânica nacional, pois, apesar de tantas reformas e tantos jogos da elite, a classe trabalhadora ainda não está derrotada, e nada garante que o possível “presidente Botafogo” consiga trazer “ordem e progresso” para os empresários, nem muito menos uma nova hegemonia que acalme os debaixo. Com uma economia que não sai da recessão, e o emprego não se recupera, não há nem um "novo discurso" nem muito menos a base material para um.

Crise de governo e crise orgânica

Desde a delação da JBS vivemos um certo vazio de governo, traço fundamental do que caracterizamos como uma “conjuntura pré-revolucionária”. De um lado Janot e a Lava Jato colocaram todas suas fichas na mesa. O Procurador Geral da República precisa, junto da Globo e Fachin concluir “o golpe dentro do golpe” se quiser ter alguma sobrevivência política e institucional com a PF sob cerco de Temer e comparsas e, o MPF sob a tutela de Raquel Dodge, queridinha de Sarney e Gilmar Mendes (ainda que esta possa se mostra uma selvagem “radical livre” para se firmar, repetindo o enredo de ministros do STF que pareciam ser uma coisa até darem mostras de independência para ganhar legitimidade). Do outro lado, temos Temer e setores da casta política (que inclui Gilmar Mendes, Aécio e muitas outras figuras, incluindo proeminentes petistas como Lula em jogo de sombras) que também foram ao “all-in” do poker pátrio.

Colocado de lado depois do impeachment o jogador Cunha tem sua última chance de ganhar uma tornozeleira eletrônica ou imunidade. Delatar Temer enquanto esse se aguenta em pé, depois disso sua delação vale como nota de um real, coisa de colecionador de memórias dos crimes da elite nacional.

Nas massas um repúdio a Temer e suas reformas, ao passo que uma paralisa graças a aberta e abjeta traição de uma Força Sindical que negocia nossos direitos em troca do imposto sindical e da conivência da CUT e CTB com a desconstrução da resistência operária aos ajustes tão vivamente mostrada na greve geral de 28 de Abril e, desde então, paralisada conscientemente à espera das negociatas da Força e da CUT do que melhor convir a Lula 2018.

No andar de cima da Avenida Paulista começa a circular a avaliação que a Reforma da Previdência com Temer morreu e talvez com Maia tenha alguma, mesmo que limitada, esperança de vida. Nos próximos dias, nas vésperas da delação de Cunha, da votação da reforma trabalhista no Senado (que pode ser aprovada mesmo com o governo sangrando), e da votação sobre a aceitação da denúncia de Janot contra Temer na Câmara devemos ver uma intensa guerra de declarações e boatos.

Dia 10 está sendo convocada uma manifestação em algumas capitais contra a reforma trabalhista de iminente votação no Senado. Uma renovada, mas difícil, oportunidade para que os “de baixo” sustem as negociatas dos de cima e assim abram passo não só a se livrar de Temer e suas reformas mas a questionamentos mais profundos a esse podre regime político, que primeiro sequestrou os votos de milhões com o impeachment e agora quer nova saída por cima para garantir as reformas.

Na conjuntura da semana que vem e próximas está em jogo se a elite consegue fechar ou não “seu vazio de governo” e erguer um novo governo que mesmo com dificuldades possa manter a agenda de reformas. A aprovação da reforma trabalhista, graças a conivência das grandes centrais pode ser uma grande derrota que soframos em meio a tamanho despautério de situação política que combina uma crise econômica, política e social no que viemos caracterizando como crise orgânica tomando emprestada a categoria de Gramsci.

Uma possível derrota que soframos na reforma trabalhista não será a definitiva. E ainda há tempo de exigir que as centrais rompam sua conivência. Para cada trabalhador, a mãe de todas as batalhas é a da previdência. As forças dos trabalhadores não foram derrotadas, porque sequer foram colocadas em movimento.

A reforma trabalhista poderá ser derrotada em cada fábrica e local de trabalho, e mais que isso, pode ser anulada caso venha a ser aprovada. Podemos, diferente do que declarou Lula dias atrás, revogar todas as medidas de Temer. Com o objetivo de revogar a PEC 55, a terceirização irrestrita, todas as reformas, estatizar sob controle dos trabalhadores todas empresas corruptas, e dialogar com o anseio da população a votar que este Esquerda Diário defende impulsionar uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, para que seja possível ir muito além de decidir quem governará mantendo todos “podres poderes”, mas que se debate cada grande tema político e social do país. Para os revolucionários do MRT, organização política que impulsiona o Esquerda Diário, se trata de uma tática para que os trabalhadores façam experiência com a mais generosa democracia (como é ter uma Constituinte Livre e Soberana) que é possível nesse capitalismo corrupto e semi-colonial e vejam a necessidade de construir um governo operário de ruptura com o capitalismo.




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