Gênero e sexualidade

DIA DAS MÃES

Mães da linha de frente: “Está mais que na hora de tirarmos o véu dos olhos dessa sociedade, para que saibam o que é ser mulher, mãe, filha, trabalhadora”

Neste dia das mães em meio a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social, reproduzimos o relato de algumas mães trabalhadoras da linha de frente do combate ao coronavírus. Com a palavra Samantha Queiroz, trabalhadora do Hospital Universitário e mãe de um menino de quase 4 anos.

domingo 10 de maio| Edição do dia

Esse seria mais um dia das mães comum, almoço, presentes, reuniões ou dia comum para muitos. Porém em meio a essa pandemia que devasta vidas e destrói pessoas não será um dia assim.

Sou trabalhadora do setor de radiologia do Hospital Universitário da USP e esse será um dia que poderei passar com meu filho, por não ser meu plantão, mas não posso estar com a minha mãe que faz parte do grupo de risco, faz tratamento oncológico, nem com minha avó que também é do grupo de risco pela idade e outras comorbidades. Elas passarão sozinhas, sem os filhos, netos e bisnetos, pois somos todos potenciais risco de transmissão desse vírus.

Desde o início dessa pandemia, ser mãe no isolamento social trouxe muitas reflexões e vieram à tona coisas de todos os tipos. Sentimentos que vão além do medo, preocupação, cansaço. Vieram a raiva, a culpa, a sensação de impotência, de injustiça. Pois, estar em casa com conforto, mesmo que sem a liberdade de ir e vir faz você pensar na situação das mães que não tem como manter suas famílias sem sair para ganhar o pão. Sem ter com quem deixar seus filhos. É uma escolha injusta o ganhar o sustento de sua família mesmo com os riscos ou vê-los passando fome.

É devastador o sentimento de impotência quando vemos a notícia de alguém conhecido que morre por negligência, pois ela existe e está a todo vapor.

É muito dolorido ficar longe das pessoas que amamos porque somos risco de contágio.

É cansativo demais para quem trabalha em casa, dar conta de trabalho, cuidados da casa, filhos, marido, cachorro e passarinho. Vejo o desespero no grupo de mães da escola com ter que se virar para entreter filhos da educação infantil no EaD, sem noção de pedagogia. Isso somado a fazer almoço, arrumar cozinha, limpar, lavar, e todas as tarefas da casa, sem a ajuda do marido, porque muitas falam que não tem. E daí vem os relatos do cansaço, da vontade de sumir, do medo, da obrigação de estar de bom humor e disponível a noite após esse dia exaustivo.

É angustiante saber que a violência nossa de cada dia aumentou num nível absurdo porque homens presos em suas casas lidando com a rotina pesada da mulher, de uma das jornadas, o deixa irritado e a forma de lidar com isso é espancando, agredindo.

É, esse dia das mães seria somente mais um dia especial para muitas, comum para outras muitas, mas não é. Não tem como ser. Está mais que na hora de tirarmos o véu dos olhos dessa sociedade, para que saibam o que é ser mulher, mãe, filha, trabalhadora.

Ser trabalhadora da saúde dá muito medo, é uma luta a cada plantão, luta por EPI adequado, por atendimento digno, por protocolo seguro. E no final de cada dia, todos os sentimentos se misturam e você apenas pensa, ainda bem que ainda estou aqui.




Tópicos relacionados

Coronavírus   /    Hospital Univeristário da USP   /    Mulher   /    Gênero e sexualidade   /    Mundo Operário

Comentários

Comentar