MEDICINA DO CAPITAL /

Mãe trata doença incurável da filha plantando maconha

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 19 de abril| Edição do dia

Há precedentes de que o óleo da maconha [da planta in natura], é um grande medicamento e é capaz de tratar, com êxito, doenças incuráveis na medicina tradicional.

Nesta semana, graças à incansável luta de uma mãe, em Canoas, Rio Grande do Sul, mais uma vez a maconha revelou seu poder medicinal: e o fato é tão impressionante que, por si só, mostra o absurdo de um sistema que tem impedido que qualquer paciente possa, abertamente, ter acesso à boa medicina.

Os fatos são chocantes.

A partir do momento em que a professora Liane Pereira, de 50 anos, passou a fabricar o óleo caseiro da planta da Cannabis, sua filha foi salva da doença que lhe roubava a vida com dezenas de crises convulsivas por dia.

Confira a notícia, tal como saiu no G1 de dias atrás.

“Caroline teve a primeira crise de convulsão com 25 dias de vida. A partir de então, a enfermidade impediu a menina de ter uma infância normal.
"Ela tinha de 50 a 60 crises convulsivas diárias. Teve dias em que, das 24 horas, ela passava 23 convulsionando”, conta Liane. [...]

O desespero pelo estado de saúde da filha levou Liane a procurar um tratamento à base de cannabidiol. O medicamento, no entanto, é importado a um preço alto. A família chegou a fazer rifas, vaquinhas na internet e até mesmo retirar empréstimos bancários para bancar o produto.

Embora tenha melhorado o estado da menina, o óleo importado não cessou completamente as crises. Ainda assim valia o esforço, e a família conseguiu na Justiça que o SUS bancasse o medicamento. Mas o embate judicial era árduo, e por muitos meses Caroline ficou sem o remédio do qual tanto precisava".

"Conseguimos o repasse de aproximadamente seis meses de tratamento, durante três anos de processo. O Estado impunha muita burocracia, e no nosso entender, meios de procrastinar a decisão. Foi preciso bloquear as contas", afirma a advogada Bianca da Silva Uequed, que representou a família no processo.

Em abril de 2017, Liane viu no Fantástico a história de uma família que também obteve na Justiça o direito de plantar maconha medicinal. Entrou em contato com eles, e foi a São Paulo para aprender a cultivar e fabricar o óleo, ainda sem ter ideia do quanto impactaria positivamente na vida da filha. [...]

O óleo fabricado em casa era ainda melhor que o que era comprado a alto custo. ´O medicamento importado deu melhora, mas não zerou as crises, e a partir do momento em que começamos a usar o nosso artesanal, as crises foram diminuindo até parar´, celebra Liane”.

Com enorme dificuldade, ano após ano, a mãe de Caroline conseguiu um mandato judiciário que só vale por um ano, para poder plantar a Cannabis e fazer o óleo caseiro. Para isso teve que arranjar advogado, abrir processo, e deu a sorte de encontrar um juiz que lhe concedeu parecer favorável.

Pouquíssimas mães com seus filhos enfermos teriam tido as condições materiais e de tempo dessa mãe. Essa corajosa professora levou a luta até o final, diante do fato, sinistro por si só, de que sua filha, a própria Carol, em seus nove anos, já viu muitos dos seus amiguinhos falecerem no hospital com a mesma doença. No caso, por serem proibidas pelo Estado de terem acesso a essa planta.

Até quando essas mães cujos filhos padecem dessa e de tantas doenças curáveis com o óleo de maconha, precisam continuar perdendo seus filhos porque não deram a sorte de encontrar um juiz ou um neurologista que as ajudassem a atravessar o corredor polonês da Anvisa e dos órgãos de Estado e da corporação médica?

Faz sentido o comentário de leitores no mesmo G1:

“É um grande absurdo que em pleno século XXI ainda se discuta a legalização do uso de uma erva natural comprovadamente medicinal e com efeitos benéficos sobre vários males e enquanto isso a indústria do tabaco, do álcool e dos fármacos químicos vai de vento em popa. Libera logo essa droga pô e parem de dar lucro ao tráfico alimentando a violência e a criminalidade”.

Ou então: “Precisa-se de uma ordem judicial para que a pessoa possa minimizar as dificuldades e sofrimentos de uma criança. Não existe nada mais estúpido do que proibir o uso da Cannabis enquanto se vende álcool em qualquer lugar”.

No próprio youtube há relatos de cura de determinados casos de câncer através do óleo de Cannabis. Seria uma pauta da hora para as organizações operárias da área de saúde.

Por sua vez, sob pressão, a Big Pharma admitiu produzir fármacos – onde ela lucra horrores – com uma ou outra molécula da Cannabis [a exemplo do CBD, canabidiol], ou seja, com um ou outro componente [canabinoide] isolado quimicamente da planta.

O que se vê aqui é todo um rodeio para usar moléculas da planta que eles possam purificar e/ou patentear para vender mais caro mas que não funcionam a contento, como a mãe de Carol demonstrou na sua via crucis. Por que evitar a planta, o uso da própria planta? A razão é simples tanto quanto inconfessável: purificados químicos dão mais lucro do que a planta in natura. E se convertem em mercadorias caras. Só que dão, é bom lembrar, efeitos indesejáveis.

Em nome da Bad Science ficam fatiando a planta em moléculas na base de extratos químicos, quando o óleo é que demonstrou todo o poder curativo.
Esse é o segundo debate que é preciso que as organizações democráticas de saúde promovam, para quebrar o mantra fake de que a maconha somente pode curar se for isolada quimicamente uma molécula ou outra pela indústria bilionária de medicamentos.

O primeiro debate é claro: somente motivações de ordem econômica, capitalista, impedem que uma grande quantidade de pacientes, de crianças, que sofrem e morrem nas mãos da Big Pharma e da indústria da doença possam ter livre acesso ao plantio e uso da Cannabis. Não apenas medicinal, no caso, mas inclusive recreativo.

O obstáculo é esse Estado, prostrado diante do complexo médico-industrial, que torna uma simples decisão de saúde pública um processo complicado e caro, que passa a depender de uma ordem ou decisão judicial que o povo pobre jamais conseguirá; em escala de massa, eis uma luta que não pode passar por fora – inúmeros exemplos o mostram – do combate ao Estado cúmplice da medicina capitalista.

Esse mesmo Estado [burguês] e sua medicina capitalista associada, que permitem que uma criança possa viver com 50 a 60 crises convulsivas diárias, que passe 23 das 24 horas convulsionando, quando a cura encontra-se ali, no óleo de maconha, caseiro. Somente uma lógica desumana, portanto capitalista, pode vetar aquilo que, em uma sociedade mais séria, configuraria crime de lesa humanidade, desde que consideremos o número de pacientes que padecem e morrem em consequência dessa medida repressiva [contra a qual os legítimos e democráticos sindicatos da área de saúde deveriam se levantar].

CRÉDITO DE IMAGENS: sites high times e boise weekly




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