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Macron foi eleito, mas sua legitimidade segue sendo baixa

65,8% contra 34,2%, o resultado a favor de Macron parece ser definitivo. Entretanto, rara vez se verá de novo um resultado em que o presidente eleito conte com tão pouco entusiasmo, como refletiram as ruas francesas em protesto logo depois dos resultados, além do nível recorde de abstenções desde 1969.

segunda-feira 8 de maio| Edição do dia

Não foi a falta de insistência e pressão dos canais de televisão, imprensa regional e nacional, o “temor” dos republicanos, o Partido Comunista e até Philippe Martínez, secretário da CGT: o chamado a votar massivamente em Macron não funcionou. E isso é um bom sinal.

Este é um bom sinal frente à primeira declaração de Macron, pouco depois das 21h. Apesar das aparências, o discurso de vitória de Macron foi absolutamente vazio, tentando contentar a todos: será fiel aos compromissos imperialistas da França, nos campos de operações externos e na luta contra o “terrorismo”, sempre que necessário. E agradecendo a quem o inseriu na política, François Hollande, o presidente mais odiado da história da V República, que é uma forma de dizer como será sua política, num grau superior ao de Hollande.

É um bom sinal levando em conta as declarações dos “lugar-tenentes” do novo presidente, seus partidários de última hora, os quais se reuniram ao trem ganhador antes que seja demasiado tarde. Richard Ferrand, símbolo do transformismo na política, passou do PS ao “Em Marcha!” [movimento de Macron] e ser o portavoz do novo presidente dizendo que “desejava atuar para liberalizar a economia, proteger as pessoas, reconciliar os franceses com a política”. Não poderia ser mais claro. De “socialistas” à direita, de Vallaud-Belkacem a Le Maire, passando por Royal, todo mundo fez o mesmo, até Cazeneuve, atual primeiro ministro, chamando “a esquerda do governo a prestar apoio a Macron”. Mas a crise do regime, cujo segundo turno foi expressão, está longe de estar fechada.

O que está em jogo é a questão da maioria parlamentar. Muitos setores mais lúcidos da burguesia temem que o desequilíbrio seja tão forte como durante a IV República, cambiante e quebradiça. Para quem deseja governar por decreto, não existe esse problema.

Frente ao ganhador, e com uma votação que duplica a de seu pai em 2002, Marine Le Pen desejou apresentar-se como a primeira oposição. Continuando na linha do discurso pseudo-oficial da Frente Nacional, Philippot tem a intenção de estar contra a “questão social” anunciada por Macron em seu programa. Consente que grande parte do problema de seu teto de cristal é aproveitar a oportunidade histórica aberta pela fragmentação da direita, Le Pen apela à fundação de uma nova força política, a união dos patriotas para ter peso nas legislativas. A declaração de Dupont-Aignan afirmando querer listas independentes na Frente Nacional para as próximas legislativas, já ilustra as dificuldades que terá adiante a candidata da Frente Nacional.

Em ambos os casos, o certo é que a oposição ao próximo executivo, seja qual for sua cor, talvez sumamente liberal e antipopular da futura maioria, já seja homogêneo ou composto, não pode, em nenhum caso, deixar-se nas mãos da extrema direita, o pior inimigo dos trabalhadores.

Le Pen se dá conta do fato de que realizou a melhor votação da extrema direita nas eleições, e que entre os dez milhões de eleitores que votaram nela, nem todos estão convencidos sobre o racismo e a xenofobia. Deixar avançar a extrema direita seria catastrófico.

A votação da “França Insubmissa” [movimento do neoreformista Jean-Luc Mélenchon] no primeiro turno das eleições presidenciais, a “extrema esquerda” muito moderada, o alto nível de abstenções e votos brancos e nulos no segundo turno, apesar da derrota na primavera passada, são a representação política e social do descontentamento com a crise econômica que nos querem fazer pagar.
A questão que se coloca hoje é como combater a orientação “macronista”, e uma facção da extrema direita que aumentou politicamente.

O período que se avizinha parece difícil pelas promessas do ataque maquiados de “liberalização da economia e do trabalho”, ao mesmo tempo que por necessidade de lutar frente às intenções de Macron. O próximo período se anuncia como continuidade com os ataques que já nos serviu Hollande, mas com maior resolução ainda, com planos socialmente draconianos. Por uma manifestação neste 8 de maio contra Macron (o candidato dos bancos e das patronais), 69 ativistas receberam uma proibição de manifestar-se por parte da polícia, numa atitude abertamente autoritária.

O quanto antes se deverá organizar um setor o mais amplo possível, com completa independência de classe frente aos aparatos com os quais governa a burguesia, chamando nossos sindicatos e organizações políticas a tomar ações. Não apenas contra o perigo da extrema direita, mas também do macronismo que abre o caminho a ela.

Chamar a mobilizar-se para garantir que não poderão conceder trégua a Macron para que declare um estado de vigilância social e política. Para planificar como vamos construir a relação de forças nos locais de trabalho, de estudo e nos bairros, frente ao presidente que nos quer colocar “em linha”.

Alguns sindicatos já começaram a pedir uma resposta de continuidade das marchas “Nem Le Pen, nem Macron” que foram realizadas neste 1º de maio e as manifestações nas escolas. É neste sentido que se organizou o chamado a este 8 de maio em várias cidades da França, como em Paris ou no Havre, para preparar a resposta a este governo.




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