Mundo Operário

OPINIÃO

Macri: seis meses de um governo dos ricos e para os ricos.

Enquanto todos os ex candidatos presidenciais se sentaram com Macri, nós denunciamos que lançaria um ajuste contra o povo trabalhador. Lamentavelmente estávamos certos.

Nicolás del Caño

@nicolasdelcano

quarta-feira 15 de junho de 2016| Edição do dia

Em 11 de dezembro de 2015 expliquei em uma carta os fundamentos de nosso rechaço à convocatória ao “diálogo para a busca de consensos” feita pelo presidente Mauricio Macri.

Entre outros motivos, assinalávamos naquele momento que “estas reuniões com os que foram candidatos à presidência tem como objetivo apresentar como ‘aberto ao dialogo’ um governo que se prepara para aplicar um brutal ajuste sobre o povo trabalhador e, ainda por cima, pensa em fazê-lo por decreto”.

Também dizíamos algo que já havíamos remarcado no debate presidencial em 4 de outubro do ano passado. “Desvalorização, tarifaços na luz e gás, acordos com os fundos abutres, novo endividamento externo: isso é o que o seu Governo vem anunciando...” e em seguida dizíamos que “estas medidas significarão uma brusca queda do salário real e uma nova drenagem de recursos à favor dos especuladores financeiros”.

Passados 6 meses o governo concretizou estas medidas confirmando o que dizíamos em dezembro. E também beneficiou a patronal agrária e as mineradoras retirando as retenções (imposto sobre exportação) em quase todos os setores, enquanto que cerca de 150 mil trabalhadores foram despedidos, tanto no setor público como no privado.

O governo Macri, em pouco tempo, está criando outro consenso entre amplos setores da classe trabalhadora e de setores populares: é um governo dos ricos e para os ricos. E o faz com um cinismo que levanta a bronca popular diante de cada nova mostra de “sinceridade”. Agora afirmam que é “inalcançável a pobreza zero” que tanto prometeram em campanha, e a vice presidenta nos revela – em uma espécie de “visão” – que estamos em “um túnel” no qual vamos permanecer por muito tempo e não poderemos dele no tão mencionado segundo semestre, mas, em algum momento, veremos a luz. Luz e gás são o que não poderão pagar muitas famílias trabalhadoras depois dos tarifaços. Sobre isso Michetti não diz uma palavra.

O que aconteceu com os milhões que os governos kirchneristas deram em subsídios às empresas concessionárias? Provavelmente os empresários que se beneficiaram com isto sejam parte dos que vão se beneficiar com este verdadeiro “prêmio aos sonegadores e evasores de divisas” que é o projeto de lei de lavagem de dinheiro impulsionado pelo governo.

Um parágrafo aparte merece o revés que sofreu Cambiemos em um de seus núcleos discursivos ao estourarem os Panamá Papers, escândalo financeiro aonde estão envolvidos o próprio presidente e sua família, assim como muitos de seus funcionários. Junto aos escândalos de corrupção que envolve os ex funcionários dos governos kirchneristas, evidenciando que, quando se trata de corrupção e negociações ilícitas, o conjunto dos políticos dos capitalistas está do mesmo lado da “rachadura”.

Nestes seis meses também viemos assistindo uma trégua descarada por parte das centrais sindicais. A burocracia sindical deixou passar o ajuste de maneira escandalosa. As CGT, com um Moyano muito preocupado por presidir a AFA, só chamou a marcha do 29 de abril e nem sequer convocou uma paralisação nacional diante do veto presidencial à lei anti-demissões, apesar de haver lançado discursos ameaçadores caso o veto ocorresse.

Se os dirigentes sindicais são os que garantiram a trégua e a continuidade do ajuste sem uma resistência mais forte, no congresso alguns que se dizem “opositores”, como Sergio Massa ou Diego Bossio, garantiram que as leis do governo fossem aprovadas. Assim foi com os fundos abutres e tudo indica que voltará a acontecer com a lavagem de dinheiro.

O FpV-PJ colocou em prática um jogo duplo. Enquanto ajusta nas províncias em que governa –como Santa Cruz e Tierra del Fuego- e garante o pagamento aos abutres com sua maioria na Câmara dos Senadores, mantém um discurso opositor na Câmara dos Deputados, aonde apesar de sofrer uma temporária ruptura de seu bloco com a fuga de Diego Bossio e companhia, conservando 80 deputados. Ali se refugiam os mais fiéis à Cristina Fernández. A ex presidenta aposta em uma “Frente Cidadã”, que não é outra coisa além de “aturar sem resistência”... até as eleições de 2017 e 2019.

A verdadeira resistência nestes meses tem estado em outro lado, tem sido a do povo trabalhador frente ao ajuste de Macri e dos governantes, e tem se manifestado de muitas formas. A partir do PTS e da Frente de Esquerda temos sido parte da luta que centenas de milhares de trabalhadores vem dando ao em todo o país.

A luta dos servidores estatais contra as demissões teve seu ponto mais alto na paralisação nacional de 24F, aonde não só foi desenvolvida a primeira medida unificada contra o ajuste de Macri, como também se colocou à prova o protocolo repressivo que sofreu um duro revés desde a primeira hora quando milhões assistiram pela televisão o massivo corte de rua em Callao y Correntes impulsionado pelas agrupações combativas junto ao PTS-FIT.

Há lutas em curso como a dos companheiros dos ministérios do Trabalho e Fazenda da Nação, os da Agricultura Familiar que conquistaram a reincorporação de suas delegadas na delegação de Jujuy. Entre elas está nossa companheira Natalia Morales, que foi candidata a governadora pela FIT nas eleições passadas.

A pesar da condução da Ctera, a luta dos professores foi grande. Enquanto que na província de Buenos Aires o governo de Vidal teve que outorgar um aumento de 34% frente ao fantasma da greve de 17 dias que se livrou em 2014 contra Scioli, em mais de 10 províncias houve greves pelo salário. Em Santiago del Estero a enorme greve docente teve que enfrentar a repressão; em Mendoza o governador Cornejo enfrentou uma grande luta contra o anti-operário decreto item aula (lei que permite descontos salariais por falta); em Tierra del Fuego e Santa Cruz, os professores são parte da luta dos trabalhadores das estatais contra os ajustes dos governos do FpV-PJ.

Entre os trabalhadores do setor privado, o conflito de Cresta Roja, aonde seus trabalhadores reprimidos no início do governo de Macri, colocou em evidencia que uma das chaves do plano de Macri para atrair inversões é avançar em uma maior flexibilização dos direitos trabalhistas. Por isso o presidente se vangloria de que hoje trabalhem só 40% de seus operários com um rebaixamento salarial de 20% e a perda de conquistas como os direitos adquiridos por tempo de serviço prestado.

Uma vantagem enorme para as patronais, neste caso, é a trégua das direções que abandonam à própria sorte os milhares de trabalhadores que travam batalhas contra as demissões em todo o país.

A juventude também entrou em luta, como vimos na multitudinária marcha educativa do último maio, com a confluência da paralisação dos professores universitários e a luta pelo passe-livre, protagonizada pelos estudantes universitários, escolas técnicas e ensino médio. Ali também se expressou uma forte oposição político-ideológica entre os jovens são governo dos CEO.

Em cada uma das lutas dos trabalhadores, das mulheres e da juventude, a militância do PTS-FIT jogou suas forças pela conquista de suas demandas. Os dirigentes e parlamentares estiveram lá, em cada canto do país. As agrupações sindicais e estudantis que impulsionamos foram protagonistas. O Esquerda Diário, que se converteu em um canal de expressão para milhares em todo o país, ajudou a difundir estas lutas. Em Santa Cruz e Tierra del Fuego, para citar só alguns exemplos, muitos companheiros nos diziam que éramos um dos poucos meios que informava todos os dias sobre a situação na província.

Também ao calor desta resistência, muitas companheiras e companheiros se somaram a nosso partido. Já temos começado a tarefa de abrir dezenas de sedes e casas culturais para extender a influência classista a mais fábricas, hospitais, universidades e bairros de todo o país.

Ao calor das batalhas dos trabalhadores por suas demandas nos propusemos a fortalecer a esquerda clasista nos sindicatos recuperando-os das mãos da burocracia sindical para colocá-los às serviço da luta de toda a classe operária.

Do PTS, apostamos fortalecer a Frente de Esquerda como a única alternativa ao ajuste de Macri e dos governantes.




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