Internacional

TEMER NA ARGENTINA

Macri e Temer, golpismo e neoliberalismo de "besame mucho"

O presidente argentino recebeu seu par brasileiro em Buenos Aires para fazer acordos sobre o Mercosul, o isolamento do governo de Maduro e uma agenda para fortalecer um polo de direita regional.

terça-feira 4 de outubro| Edição do dia

Ontem o presidente Mauricio Macri recebeu seu par brasileiro, Michel Temer, que chegou ao posto depois do golpe institucional contra Dilma Rousseff. O encontro se realizou em Buenos Aires, na primeira visita oficial do político brasileiro a outro país. A escolha da Argentina foi como uma devolução de gentilezas. Vale lembrar que o governo macrista foi o primeiro a reconhecer o novo presidente brasileiro poucas horas depois de consumado o golpe contra Rousseff. Foram realizados protestos contra a visita do presidente brasileiro, marcando o repúdio que existe ao golpe institucional no país vizinho.

O encontro serviu aos dois governos para começar a tratar uma agenda, de direita, com "ambição" regional. Firmaram acordos em matéria de diálogo e facilitação para o comércio e o desenvolvimento produtivo e de simplificação de procedimentos de comércio exterior, em especial acerca do Mercosul, bloco integrado também por Uruguai, Paraguai e Venezuela.

Após a reunião os presidentes deram uma coletiva de imprensa onde deixaram claro alguns objetivos comuns: a flexibilização do Mercosul, em especial buscando a abertura para um acordo com a União Europeia, e avançar para expulsar a Venezuela do bloco comercial regional.

"Nós acreditamos que em um mundo globalizado e de desafios globais, estreitar e potencializar o Mercosul vai servir para que encaremos essa integração ao mundo de uma maneira melhor", disse Macri.

"Chegamos à conclusão de que podemos trabalhar em conjunto para fortalecer o Mercosul como instituição sul-americana que tem os maiores interesses em todo o mundo" disse Temer, que enfatizou também que um dos principais objetivos agora é formalizar as negociações com a União Europeia.

Os dois presidentes apresentaram os acordos tratados como parte de uma "ambiciosa agenda", embora rapidamente explicaram que também buscam dar "flexibilidade" aos países membros do bloco para avançar por caminhos próprios em sua "abertura ao mundo" e em busca de um maior endividamento com o capital estrangeiro.

Um plano comum para somar pressão contra o governo de Maduro

Um ponto à parte merece a Venezuela, onde ambos presidente ratificaram a política que levaram adiante no último período, a de isolar o governo venezuelano buscando tirar o país do bloco regional.

Macri foi inclusive mais longe e, fazendo referência ao governo de Nicolás Maduro, voltou a mostrar seu apoio ao discurso da oposição direitista: "No que diz respeito à Venezuela, lhe demos um prazo, se não cumprem perderão sua condição de membros ativos do Mercosul. Além do que é mais preocupante a violação dos direitos humanos e a não aceitação do plebiscito que foi proposto. Mas seguiremos atentamente o que ocorre na Venezuela."

Vale lembrar que há poucas semanas, com o governo do golpista Temer à cabeça, se avançou no veto à Venezuela para a presidência do Mercosul, e que na última sexta-feira (30) foi publicada uma declaração em que os chanceleres da Argentina, Brasil e Chile, entre outros, expressam sua "preocupação com a decisão do Conselho Nacional Eleitoral da República Bolivariana da Venezuela" de adiar o referendo revogatório contra Maduro para 2017.

Apesar do "não" na Colômbia deve continuar o diálogo com as FARC

Na coletiva de imprensa, ao serem consultados sobre os resultados do plebiscito na Colômbia onde triunfou por estreita margem o "não", Macri e Temer disseram que acreditam "na paz. Acreditamos que a Colômbia seguramente seguirá buscando vias para conseguir essa paz, que é importante não só para os colombianos mas para a América Latina inteira."

Macri acrescentou que seu governo torce "para que cesse o fogo e o conflito para que haja um espaço para encontrar alternativas. O resultado foi muito apertado.", adaptando-se rapidamente a uma situação nova, com o triunfo do "não". Vale lembrar que Macri participou do ato em que se firmaram os acordos entre o governo colombiano e as FARC, uma vez que, no marco da colaboração e do alinhamento com o imperialismo que caracteriza a política externa da Casa Rosada, Macri promove uma ampla participação do Exército argentino na Missão da ONU que supervisionará a fase de desarticulação da guerrilha.

Buscando fortalecer um polo de direita regional

O encontro de Macri e Temer foi mais um gesto do que um avanço concreto em temas políticos e comerciais entre os dois países. Basta ver as declarações gerais sobre "interesses comuns" e "acordos para o benefício comum" que pouco servem para resolver a difícil situação econômica que enfrentam os dois países e que se expressa na queda do câmbio comercial que afeta importantes setores da indústria, em especial da Argentina.

O maior gesto político é buscar legitimar o governo golpista de Temer e mostrar um pólo regional (ao que se deve somar o governo paraguaio) de direita, capaz de impôr uma nova agenda de ajuste. Embora o objetivo pareça ser claro, não está de todo definido a possibilidade de realizá-lo.

Por um lado o governo do gigante sul-americano assumido após o golpe institucional ainda deve mostrar sua capacidade de levar até o fim o ajuste iniciado pelo governo do PT, em um panorama de descrédito contra a casta política e fragmentação dos partidos tradicionais. Este fato foi marcado por um jornalista na coletiva de imprensa, ao que cinicamente Temer respondeu que "é uma mensagem que se dá à classe política brasileira para que reformule eventuais costumes (...) porém temos que festejar a democracia produzida neste tempo (fazendo referência ao golpe institucional) e que foi restaurada nas eleições de ontem".

Por sua parte Macri, enquanto respira aliviado pela trégua que lhe garante a burocracia sindical, não consegue que a tão anunciada "chuva de investimentos" chegue nem pode impôr as condições do tarifaço sobre os serviços públicos como desejava. Assim a "nova direita" argentina não consegue avançar seu plano ajustados até o final.

Neste panorama, a busca de Macri e Temer por apresentar um polo de direita (que avançou sobre o terreno aberto pelo giro à direita dos governos progressistas) para que reconfigure a relação de forças regional, ainda não consegue passar de "boas intenções".




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