CONTAGEM REGRESSIVA 8 DE MARÇO - FALTAM 1 DIAS

Machismo: é culpa de quem? Sobre “feminismos sem saída” e a razão histórica dessa opressão

A 1 dia do 8 de março, uma reflexão sobre a culpa que recai sobre as mulheres, seu sentido histórico, e as saídas propostas atualmente para aquelas que buscam uma saída.

terça-feira 7 de março de 2017| Edição do dia

Sua saia curta já te fez se sentir culpada pelos olhares tortos, pelas passadas de mão. Era curta demais. Seu sorriso fora de hora já te fez se sentir culpada pelo flerte inoportuno recebido. Sorriu demais. Já te fez se sentir culpada aquele emprego que "não era para você", o gênero do qual se sente parte mas te impedem de ser, o aborto clandestino que precisou fazer, o tapa que recebeu... E então vem o feminismo e dá um passo gigante: "não é sua culpa", diz. Um alívio, ainda que momentâneo, porque afinal, se essa culpa não é minha, ela é de quem?

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"Tudo bem, a culpa é do machismo", parecem nos apontar as denúncias, os dados, as análises... Todos os dias temos notícia de casos de feminicídio, de mulheres estupradas, de absurdos casos de transfobia, de mortes por abortos clandestinos e tantas outras violências que seriam evitadas se tivéssemos de fato direito a nosso corpo e se essa opressão não existisse. Mas a dúvida que parece estar em aberto é: e agora? Que solução temos para isso? Saídas se delineiam, sendo algumas delas tortuosas, caminhos que nos trazem sempre ao mesmo lugar.

Para entendermos esses desvios, voltemos ao início. A culpa não é minha. A pergunta imediata é: então de quem ela é? Daí partem as respostas perigosas, afinal, a pergunta é perigosa: o "quem" já pressupõe um alguém, que vai carregar nas costas esse fardo, essa "culpa". Culpa, conceito para lá de cristão, nada tem a ver com reconhecer problemas para assim mudá-los, mas sim com punir por eles, com rebaixar, em favor de algum “Bem maior”, seja ele qual for. Ou seja, por esse ângulo, temos uma pergunta que aponta para uma solução que (1) se centra em indivíduos, esse "quem" fora de contexto, e (2) se utiliza da punição como forma de combater algo.

A pergunta problemática é, desta forma, respondida de forma extremamente eficaz por teorias tão problemáticas quanto ela, que centralizam a opressão machista em indivíduos, ou ainda em alguns grupos, sem considerarem a sua relação com o contexto econômico, histórico e cultural em que estão inseridos, e se utilizam de uma lógica punitivista para assim "resolverem" a questão. Mas por que esses elementos são problemáticos?

Bem, pensemos no ponto 1, sobre a busca do "sujeito" do machismo, em vez da busca das raízes que alimentam esse sujeito, ou seja, do contexto social no qual este se insere. Aqui, o machismo deixa de ser algo presente em toda a sociedade, algo estrutural, e passa a ser problema de alguns indivíduos: este ou aquele são machistas porque agiram de tal forma opressora. Punamos este ou aquele então, os retiremos dos espaços, como “exemplo”. Mas mesmo assim este ou aquele continuam existindo e outros mais se formando a todo momento. É comum o que chamamos de feminismo burguês se utilizar dessa lógica. Combater o machismo aqui se dá apenas se esse combate atingir apenas alguns elementos e não mexer com alguns privilégios. É o feminismo da Rede Globo, por exemplo, que apesar de trazer diversos avanços no sentido de tornar a pauta algo de massas (como analisamos aqui LINK), tem como seu ápice o “ligar para o 180”, como se pudéssemos confiar na polícia para nossa proteção, ou ainda algo do tipo “mulheres no poder”, mesmo com exemplos de diversas mulheres nesses postos que passam longe de defender pautas históricas como legalização do aborto, demonstrando que representatividade e "lugar de fala" estão longe de nos garantir avanços na libertação das mulheres. Nas entrelinhas, o que parece é que a culpa do machismo, para o feminismo burguês, continua sendo a mulher, que não é empoderada o suficiente para elevar-se a outro patamar na sociedade.

O outro lado dessa mesma moeda é o feminismo radical. Nele, os que oprimem não são mais um ou outro, mas sim todos os homens. Aliás, não apenas os homens, mas inclusive mulheres trans, ou seja, aquelas que não se identificam com o gênero que lhes foi imposto ao nascer. Para essas feministas, a sociedade patriarcal tornou essa opressão intrínseca à formação biológica do ser humano, desde o nascimento; ou seja, seriam machistas todos aqueles indivíduos nascidos com um pênis. Dessa forma, mulheres transsexuais e homens estariam ambos excluídos da luta contra o machismo, pois seriam os sujeitos causadores deste, então a "culpa" pela existência do machismo seria desses grupos.

Jogam a carga da opressão não mais neste ou naquele indivíduo, mas em nossa natureza biológica. Homens e mulheres seriam inimigos naturais inconciliáveis, o patriarcado os divide. Então o que fazemos para alterar essa realidade? Lutamos contra “todos os homens”? Os excluímos de todos os espaços, e é assim que faremos uma revolução que vai os submeter a nossas regras? Uma revolução sem a participação destes?

Não é mera coincidência o fato dessa lógica de que “os homens são inimigos e, portanto, devem ser combatidos” se colar tão bem com o feminismo burguês do qual falamos há pouco. São feminismos que trazem aqueles dois elementos que apontamos no início do texto: concentram suas críticas a certos grupos, ignorando uma série de fatores importantes sociedade, e propõem como solução excluir esses grupos dos espaços. As saídas que os dois propõem acabam por nos levar a lugar nenhum. Assim, direta ou indiretamente, acabam por manter intacta uma sociedade em que alguns seres humanos são obrigados a serem humilhados, agredidos e a trabalharem nos empregos mais precarizados simplesmente por serem o que são.

A pergunta correta a se fazer para reconhecermos a raiz do problema - algo necessário para pensarmos qual a saída correta para ele - é: por que o machismo continua existindo? Pensemos: em postos de trabalho dos mais precarizados (como por exemplo os telemarketings, o trabalho doméstico, os serviços de limpeza) nós mulheres somos maioria. A prostituição (que muitas "feministas" insistem em defender como um trabalho libertador) é um dos exemplos mais gritantes disso. Milhares de mulheres, sem outra opção de emprego, marginalizadas da sociedade como são muitas delas, principalmente transsexuais, são obrigadas a vender seu próprio corpo para garantir sua sobrevivência, fazendo girar com isso todo um enorme mercado que gera milhões para o bolso de grandes empresários. Nos fazem trabalhar em serviços que, ou nem deveriam existir, ou deveriam ser uma tarefa do Estado (como o trabalho doméstico, que poderia ser substituído por lavanderias, restaurantes e creches públicas) e não relegados apenas a um grupo de pessoas.

E por que? Por que somos maioria nesses serviços e minoria no parlamento, p. ex.? "Somos incapazes", querem nos convencer. Lucram milhões nos convencendo de que somos incapazes e por isso esse é nosso lugar. Lucram milhões com uma ideologia que faz com que o salário baixo, o assédio moral, assédio sexual etc. sejam justificáveis, afinal, somos inferiores. Lucram milhões vendendo nossos corpos. Lucram milhões com o trabalho doméstico não remunerado. Ou seja, lucra-se milhões com o machismo.

Está aí a resposta para nossa pergunta: a razão para a existência dessa opressão em pleno século XXI é o fato de o machismo gerar bilhões. Cairíamos em um erro brutal se pensássemos nele sem entende-lo como parte fundamental para o funcionamento da estrutura socioeconômica na qual estamos inseridos, ou seja, o capitalismo. A exploração de um ser humano por outro é a essência dessa estrutura, e é exatamente isso o que o machismo propõe. É essa exploração que a opressão machista busca justificar, tornando-a algo “natural”. Se estamos procurando culpados, temos aqui um forte candidato.

Certo, mas se o machismo existe desde antes do capitalismo, por que dizer que hoje a culpa pelo machismo é desse sistema? Ajuda-nos a responder essa pergunta entender como surgiu essa opressão. Engels, no livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, aponta que o surgimento do patriarcado tem estreita relação com o surgimento da propriedade privada. Em um período anterior ao surgimento desta, a divisão dos trabalhos não previa que um dos serviços fosse inferior a outro, ou seja, a mulher cuidava do lar e isso era tão importante quanto a tarefa masculina de sair para a caça, pesca etc. Diversos avanços técnicos permitiram nossa sedentarização, o que tornou a força de trabalho do ser humano capaz de produzir mais do que o necessário para a sua manutenção, ou seja, capaz de produzir um excedente. Isso gera, nas palavras de Engels “(...) uma revolução na família.” Segundo ele,

“O providenciar a alimentação fora sempre assunto do homem; e os instrumentos necessários para isso eram produzidos por ele e de sua propriedade ficavam sendo. Os rebanhos constituíam nova fonte de alimentos e utilidades; sua domesticação e sua ulterior criação competiam ao homem. Por isso o gado lhe pertencia, assim como as mercadorias e os escravos que obtinha em troca dele. Todo o excedente deixado agora pela produção pertencia ao homem; a mulher tinha participação no consumo, porém não na propriedade. (...) o trabalho doméstico da mulher perdia agora sua importância, comparado com o trabalho produtivo do homem; este trabalho passou a ser tudo; aquele, uma insignificante contribuição. Isso demonstra que a emancipação da mulher e sua equiparação ao homem são e continuarão sendo impossíveis, enquanto ela permanecer excluída do trabalho produtivo social e confinada ao trabalho doméstico, que é um trabalho privado. A emancipação da mulher só se torna possível quando ela pode participar em grande escala, em escala social, da produção, e quando o trabalho doméstico lhe toma apenas um tempo insignificante. Esta condição só pode ser alcançada com a grande indústria moderna, que não apenas permite o trabalho da mulher em grande escala, mas até o exige, e tende cada vez mais a transformar o trabalho doméstico privado em uma indústria pública.”

Ou seja, esse excedente acaba tornando-se propriedade desse homem e garante assim sua supremacia sobre os que não o tem, e portanto sua supremacia sobre as mulheres. Além disso, para garantir que este passe para sua prole, foi preciso que se firmasse a monogamia feminina, coisa que não era a prática antes e não é “natural de nossa espécie” como costuma-se afirmar, mas sim decorrente da necessidade de passar a propriedade privada como herança para seus filhos.

A lógica de que alguns detêm os meios de produção e outros não surge daí, e segue firme durante todo o curso da história da humanidade. Isso chega a seu ápice no capitalismo, que leva essa lógica ao extremo ao polarizar a sociedade em apenas duas classes, a burguesia (que detém esses meios) e a classe trabalhadora (que detém a força de trabalho).

Os avanços tecnológicos da indústria moderna geraram condições materiais para superarmos a opressão, sendo possível tornar o trabalho doméstico privado em algo público, com creches, lavanderias, restaurantes públicos... Entretanto, não é do interesse do Estado burguês que isso se dê, afinal, é muito mais interessante que esses serviços sejam feitos de graça, além de ser importante para a sustentação dessa estrutura que grande parte das mulheres não tenham acesso a esses direitos, para que se mantenham sempre no patamar de seres inferiores a serem explorados.

Considerar o capitalismo culpado pelo machismo não exclui o fato que este será emanado prioritariamente por um certo grupo, o dos homens cis, e dessa forma, é preciso que estes estejam duas vezes mais atentos a suas atitudes e que combatamos também atitudes individuais machistas. Mas sempre com responsabilidade e devida proporção, afinal, uma frase torta é diferente de um estupro, e por isso demanda condutas diferentes – algo que muitas vezes é esquecido pela prática do “escracho” que muitos coletivos feministas tomam como tarefa número um de sua militância e que, concretamente, não apresentam grandes efeitos além de acabar por expor junto com o opressor a vítima.

Sempre com responsabilidade e entendendo quem são os verdadeiros inimigos. Se estamos entendendo o machismo como um problema estrutural e não individual, como algo que se dá por conta da sociedade ter uma classe parasita como é a burguesia (que para continuar explorando precisa dele) a luta contra essa opressão não pode passar por fora da luta contra essa classe, não pode se centrar na luta “das mulheres contra os homens” em abstrato. Um exemplo de como isso seria ineficiente é pensarmos, por exemplo, em uma categoria formada majoritariamente por mulheres como a de professores. Não é à toa que o salário destes é tão baixo e as condições tão precárias, afinal, se é "tarefa natural" da mulher cuidar de crianças, cuidar da educação, por que remunerar isso dignamente? A mulher deve fazer isso "por amor", pouco importa o que ganha. Com isso, o machismo acaba por incidir sobre toda uma categoria, atingindo inclusive os homens.

Entender a cultura, a história, a sociedade como coisas em separado de quem somos, como fazem os "feminismos" citados neste texto, mesmo biologicamente, é um erro brutal: faz parte da natureza humana colocar a si mesma a prova, modificando-se de acordo com as circunstâncias históricas, que nos moldam, ao mesmo tempo em que nos possibilitam molda-las. Somos animais, porém racionais. Somos animais, porém, como qualquer espécie, temos nossas "especificidades". Temos a linguagem, por exemplo, que nos possibilita transmitir nossa história, nossa cultura... São elementos que nos permitem, no fim das contas, criar relações e viver em sociedade. Mais que isso, permitem que essa sociedade possa agir sobre nós, e nós possamos agir sobre ela. Se pretendemos acabar com o machismo precisamos travar uma luta junto de todos aqueles que penam todos os dias por conta da exploração que beneficia alguns poucos, tanto homens quanto mulheres. Precisamos daqueles que produzem tudo o que aí está, a classe trabalhadora, que traz consigo a possibilidade de tomar o poder e tirar das mãos da burguesia os meios de produção. Só assim teremos condições materiais para desatar todos os nós que nos prendem e, enfim, construirmos uma sociedade livre de qualquer forma de opressão e exploração.




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