Cultura

SANTANDER CONDENADO POR CANCELAR QUEERMUSEU

MP obriga Santander a realizar duas exposições sobre diversidade após cancelar Queermuseu

segunda-feira 29 de janeiro| Edição do dia

Quando o caso da censura ao Queermuseu estourou, já havia o posicionamento claro e objetivo da Promotoria da Infância e da Juventude, do Ministério Público Estadual afirmando que a mostra não representava “nenhuma apologia à pedofilia”, contrariando as absurdas críticas e denúncias dos setores mais reacionários que acusaram e difamaram os artistas e o próprio Santander. A mostra era composta por 270 obras de artistas como Alfredo Volpi, Adriana Varejão, Cândido Portinari e Ligia Clark, e tinha como objetivo explorar a diversidade de expressão de gênero.

O Santander acabou cedendo às manifestações reacionárias, cancelando a exposição. Nesta época, em nota, a instituição pediu desculpas "a todos aqueles que enxergaram o desrespeito a símbolos e crenças na exposição". Após apuração, o MP orientou que a exposição fosse reaberta, compreendendo que de fato as obras não faziam apologia à pedofilia ou à zoofilia, nem ofendiam símbolos religiosos. O Santander, contudo, não acatou a decisão.

Há cerca de um mês a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do MPF elaborou um termo, a ser assinado pelo Santander, determinando que a instituição realize duas mostras no decorrer deste ano, permitindo a livre concepção e criação artística. Ambas ficarão em cartaz por 120 dias. Uma delas terá como temática o feminismo e as formas de “empoderamento”. A outra abordará a questão da intolerância em diversos aspectos. A multa no caso de descumprimento do acordo é de R$ 800 mil.

Outra grande manifestação reacionária ocorreu após a circulação de um vídeo nas redes sociais, no qual o artista Wagner Schwartz aparece deitado no chão nu, dando forma à performance La Bête, realizada no MAM. Uma criança, acompanhada de sua mãe, se aproxima e toca os pés e a canela de Schwartz. Houve grande estardalhaço, com os discursos moralistas e repressores tomando a frente da discussão, na tentativa de reprimir ainda mais as manifestações artísticas que se contrapõe à indústria cultural.

Em contrapartida, os artistas não se calaram, organizando movimentos e se articulando cada vez mais contra a onda de censura e repressão que tomou conta diversas vezes de exposições, peças de teatro e intervenções. 2017 foi um ano marcado pelo ataque contra a cultura e a arte: atores foram presos, peças e mostras canceladas pura e simplesmente por trazerem em seu conteúdo e sua estética apontamentos anticapitalistas e contra a lógica burguesa de mercantilização da arte e elitização da cultura.

Em outubro, foi lançada a campanha "#342 artes — Contra a censura e a difamação". Artistas e intelectuais unidos para esclarecer questões sobre a nudez, pornografia, pedofilia e afins, mas sobretudo, contra a censura.

Os curadores de ambas as mostras, em vídeos e declarações públicas, ressaltaram que a nudez está presente em obras de grandes museus, como o Louvre, em Paris. "É fundamental explicitar que a nudez nessa performance não tem nenhuma conotação erótica, sexual, muito menos pornográfica", afirmou Luiz Camillo Osório, curador da performance La Bête.

O curador da Queermuseu, Gaudêncio Cardoso Fidélis, destacou que cinco obras foram tiradas de contexto e afirmou que todas as escolhas foram feitas com base em "critérios de responsabilidade e de obediência às leis que dizem respeito à exibição de determinadas obras que possam conter algum tipo de conteúdo que venha a ferir algum tipo de sensibilidade".

Nas periferias, artistas também se articulam e se movimentam rumo a concretização de seus projetos e sobretudo, em luta pelo financiamento público de suas manifestações artísticas. Quando uma política de cortes e sucateamento, como por exemplo, a do tucano João Doria, ataca brutalmente as produções culturais e programas como VAI, Piá e os fomentos, tira da população pobre o acesso a cultura e a arte. Sobra o que existe na prateleira da indústria cultural , que obviamente, faz prevalecer e ecoar a lógica do consumo e da mercadoria.

Em suma: cada um desses ataques contra as manifestações artísticas, cada medida de cortes ao financiamento público da arte, cada vez que uma obra é censurada, fica ainda mais clara a relação direta da cultura com os fluxos da sociedade. Lutamos pela liberdade da arte para que a revolução se concretize, ou seja, para que a arte seja também parte do processo revolucionário, já que sob os grilhões capitalistas, esta jamais será verdadeiramente livre.

Cultura é direito de todos e todas e arte não é mercadoria!




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