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DOSSIÊ: Dia internacional da mulher negra, latino-americana e caribenha

MG: Professoras e estudantes denunciam o racismo e evidenciam suas lutas

terça-feira 25 de julho| Edição do dia

"Ser uma mulher negra, que saiu de uma realidade de ensino precário no interior, e se tornar professora em uma escola particular, majoritariamente branca e burguesa jamais teria sido uma jornada fácil, mas, ser difícil de chegar não é o suficiente, cotidianamente enfrento os olhares e os não olhares, julgamentos, frases, e questionamentos que evidenciam o posicionamento da grande maioria dos meus colegas de trabalho, de muitos alunos e principalmente de seus pais.
Enfim sou a unica professora negra de uma escola onde o racismo acontece todos os dias, me solidarizo e compartilho muitas vezes com companheiras de limpeza e da manutenção que enfrentam cotidianamente a invisibilidade social, o descaso e a exploração constante. Me esforço triplamente ao inicio de cada ano para ganhar o respeito dos alunos e ainda sim alguns passam sem serem atingidos. Mas ser mulher negra representa pra mim toda essa resistência, essa luta cotidiana que me torna cada vez mais forte, mais sólida, para os que compreendem a minha presença e minha resistência um pouco mais de consciência; para meus pares bolsistas uma força, uma referencia; para os demais o incômodo e a obrigatoriedade de me aturar, mas eu não abro mão do meu lugar. Sou mulher negra, sou feliz, resisto, batalho, defendo minhas convicções com fervor porque sempre precisei de punho firme pra ser ouvida, sonho alto porque sem sonhos uma mulher como eu não re-existiria. Com todos os altos e baixos uma certeza, somente a revolução social é capaz de arrancar o racismo e as opressões machistas que foram se enraizando nessa maldita sociedade capitalista."

(Flávia Rios, professora de educação física da rede particular de Belo Horizonte)

"Enquanto mulher negra, minha vivência escolar se torna uma sobrevivência diária. Na sala de aula comentários machistas, racistas e lgbtfóbicos se tornam as piadas mais engraçadas justificadas em zoeiras pelos garotos. A reprodução de discursos de ódio fazem com que eu me sinta rodeada de pessoas que são totalmente contra a minha existência. Vejo várias pessoas lindas com traços negros, com a pele negra que não se consideram negras e que compartilham das piadas racistas.
Acompanhando ocupações de escolas públicas de BH, principalmente da Escola Estadual Presidente Dutra, participei de várias rodas de conversa e percebi a importância do grêmio estudantil nas escolas que dá mais voz aos estudantes e possibilita abrir discussões sobre temas como lgbtfobia, machismo e racismo que são pouco falados na escola em que eu estudo e provavelmente em muitas outras escolas."


(Giovana, estudante da escola estadual Assis Chateaubriand, em Belo Horizonte)

"Vim de uma cidade do interior e vou iniciar o curso de licenciatura em Educação Física em alguns dias. Estou a um passo do caminho que me levará a realizar o meu sonho; fazer a graduação e me tornar professora.
Mas antes de tudo, sou uma mulher negra, sei que encontrarei muitos desafios pela frente, desafios que são impostos pela sociedade patriarcal e pelo sistema racista em que vivemos. Desafios por ser uma pessoa que estudou em escola pública e não aprendeu a estudar.
Vou enfrentar, como já enfrento todos os dias as dificuldades de ser uma mãe separada, e não ter do governo nenhuma política no sentido de ter um lugar onde deixar minha filha para poder trabalhar e estudar com tranquilidade.
Mulheres negras ocupam os piores e mais precários postos de trabalho, e são questionadas, desacreditadas e desvalorizadas quando ocupam um cargo fora das cozinhas e das faxinas da vida. Enfrentam dupla e ate tripla jornada.
Estar na sala de aula, na posição de uma professora, acredito ser uma coisa muito desafiadora, pois é o momento onde se esta diante de figuras com potencial revolucionário e também aqueles que carregam a cultura conservadora e reacionária de suas famílias. Trazem o preconceito e a descrença de que uma mulher, e ainda por cima negra é intelectualmente incapaz de acrescentar.
Mas eu acredito, que é exatamente aí, em um ambiente de construção que a minha luta e de tantas outras professoras e mulheres negras vai se fazer valer.
Continuemos a lutar para modificar o mínimo que seja a nossa volta, até realizarmos o sonho de viver em uma sociedade sem opressão, onde todos sejamos valorizados e respeitados pelas diferenças e individualidades."


(Franciely, estudante de Educação Física da PUC em Belo Horizonte)

"Enquanto negra, militante, lgbt e estudante secundarista, vejo claramente um machismo e um racismo enraizado, isso vai desde todos os meninos da sala "preferirem" meninas brancas, até a composição da sala onde mais de 50% são meninos, então comentários machistas e lgbtfóbicos rolam o tempo inteiro durante as aulas, e são pouquíssimos professores que interferem e tentam explicar que um ’viadinho’ não deixa de ser homem por ser gay, e por aí vai...
No ensino médio, até que não sou excluída de roda de amigos ou de eventos por ser mulher negra, porém quando eu era mais nova, isso era MUITO presente ( pré escola e ensino fundamental), assim como está presente na vida de todas as outras crianças negras, principalmente, as meninas, então não posso dizer que isso era apenas a minha realidade, felizmente os ares mudaram.
Depois da ocupação, muitas coisas rolaram, nós que éramos da ocupação, conseguimos tirar dois funcionários da escola, acusados de assédio, um era professor de física, e o outro diretor da escola. E mesmo depois disso tudo, não conseguimos ter uma conversa horizontal com toda a escola para esclarecimentos, pois a direção gosta de manter tudo debaixo dos panos, para manter as aparências, e estamos lutando para finalmente montar o grêmio estudantil e conseguir despertar a galera do segundo ano, e conscientiza - los da importância do movimento secundarista; para que eles deem continuidade à tudo que nós começamos. Não podemos aceitar mais sermos silenciados na nossa própria escola, colocados numa posição de inconsequentes e desmoralizados; um lugar que é feito nós, porque sem nós as escolas não existiriam, então tá mais do que na hora das coisas mudarem.
Diante disso tudo, eu acredito que quanto mais conseguirmos intervir na escola, com palestras, panfletagens e tudo o que for possível, pra fazer a galera se conscientizar mesmo, fazer com que todos busquem algo melhor."


(Eliza, estudante da escola estadual Presidente Dutra em Belo Horizonte)

"Não é fácil ser uma mulher negra na universidade, principalmente em uma universidade particular super elitizada como a PUC. Desde a seleção para ingressar, onde tive que atravessar a barreira do filtro social que quer a todo custo impedir aos trabalhadores de estar na universidade, o que consegui com uma bolsa que garantia a entrada mas não a permanência, o que não tornavam as coisas muito mais fáceis como se propagandeia aos quatro ventos.
Eu vim de uma família simples, onde fui a primeira a ingressar em um curso de graduação e além da falta da cultura de ingressar na universidade na periferia de onde eu vim, ainda faltava recursos por arte da minha família para me ajudar financeiramente com os estudos, o que me fez passar inúmeras vezes pela situação de ter apenas o dinheiro da passagem e nada pra comer durante a aula. Lembro em um dia que um integrante de uma chapa para eleição do DCE em campanha disse que “graças ao PROUNI agora o filho do empregado sentava ao lado do filho do patrão na universidade”, isso me fez sentir um grande ódio porque apesar de sentar ao lado do filho do patrão eu não tinha dinheiro pra comer todos os dias e comprar o material como eles, eu não tinha ganhado um carro do meu pai para ir pra universidade e nem tinha estudado nos melhores colégios particulares, pelo contrário, vim de uma escola pública onde o ensino era péssimo, o que me conferiu uma situação de desvantagem enorme em relação aos filhos dos patrões, eu e a meia dúzia de negros que conseguiram entrar na universidade.
Não foi só a falta de dinheiro que tornava a permanência difícil, o racismo, sobretudo em uma universidade tão elitizada imperava: haviam pouquíssimos alunos negros, aquele clima de pegação que tem em universidade não colava pra mim, pois todo mundo se matava pelas meninas brancas e as negras eram as amigas gente boa. Um dia na cantina um menino loiro que estava sentado atravessou o pé no meio do caminho e eu ao passar tropecei, quando olhei pra ele esperando suas desculpas recebi um olhar de menosprezo como quem perguntava o que eu estava fazendo ali. As únicas pessoas com quem eu conseguia me identificar eram as funcionárias da limpeza que, apesar de serem obrigadas a passar pelos alunos e abaixarem a cabeça, eram em sua maioria esmagadora, negras, e me lembravam as faxineiras da minha família.
Não foi fácil passar por tudo isso, não foi fácil ficar com fome pra estudar, não foi fácil costurar dez horas por dia e enfrentar um ônibus lotado por uma hora e meia pra chegar todos os dias atrasada na sala de aula sem um pingo de concentração, não foi fácil ouvir os professores tratarem dos dramas pessoais dos negros e dos trabalhadores de forma superficial, fingindo que sentiam muito. Por isso, quero seguir me organizando e lutando para que um dia sejamos livres de toda opressão e racismo causadas por esse sistema, para que um dia todos os trabalhadores negros ou não possam ter condições dignas de cursar uma graduação."


(Zuca, graduada em geografia na PUC em Belo Horizonte)




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