Educação

ESCOLA COM IGREJA

MEC quer incluir ensino religioso e retirar gênero da base curricular nacional nas escolas

terça-feira 5 de dezembro| Edição do dia

O ensino religioso foi um dos temas que mais causaram polêmica nesta segunda-feira, 4, no primeiro dia de discussões da nova versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no Conselho Nacional de Educação. Isso porque o texto apresentado pelo Ministério da Educação (MEC) prevê que Religião seja considerada uma área do conhecimento, como Matemática ou Linguagens, o que desagradou a conselheiros que participaram do debate. Segundo a lei, o ensino religioso é de matrícula facultativa em escolas públicas.

A Base vai determinar quais são os objetivos de aprendizagem para as escolas de todo o País, em todas as etapas de ensino. Essa é quarta versão do documento, que deve ter um parecer final votado até quinta-feira pelo conselho. Também serão estabelecidos prazos para que a regra seja implementada.

O ensino religioso não fazia parte da versão anterior e foi incluída agora pelo governo, com caráter não confessional. A intenção é de que a área seja apresentada como Sociologia das Religiões ou Ciência das Religiões. Evidentemente, a tentativa de passar a proposta em caráter não confessional visa facilitar sua aprovação, mas facilitar que as igrejas - particularmente as evangélicas - façam das salas de aula um lugar de pregação e arrebanhamento de fiéis.

A informação foi apurada com conselheiros, pois o documento não foi divulgado para a imprensa até a noite desta segunda-feira.

A Associação dos Jornalistas de Educação (Jeduca), em nota, pediu que o texto seja tornado público, porque "a sociedade tem o direito de conhecer, com antecedência, a proposta que está servindo como pilar" para a discussão. O MEC tem respondido que o texto pode ainda ter mudanças e só será conhecido quando estiver finalizado.

O conselho volta a discutir hoje cedo a BNCC e o ensino religioso será um dos focos. Versões iniciais da Base chegaram a considerar a religião.

O último texto, porém, apontava que não trataria da área porque tinha "caráter optativo" e seria competência de Estados e municípios. Dizia o texto: "Não cabe à União estabelecer base comum para a área, sob pena de interferir indevidamente em assuntos da alçada de outras esferas de governo da Federação".

Em setembro deste ano, porém, o Supremo Tribunal Federal decidiu que é permitido oferecer ensino confessional (ou seja, doutrinário) em escolas públicas->http://www.esquerdadiario.com.br/STF-permite-que-crenca-faca-parte-do-ensino-religioso]. O órgão julgou improcedente uma ação da Procuradoria-Geral da República que questionava o modelo da área de religião na educação brasileira. A decisão, completamente absurda, deu carta verde para as igrejas passarem a pregar abertamente em sala de aula.

Além dessa decisão, o governo argumenta que houve diversas contribuições de grupos da sociedade civil, pedindo a volta do ensino religioso à Base. Desde abril, o CNE recebeu centenas de sugestões de mudanças no texto final, e algumas foram incorporadas pelo MEC.

"A decisão do STF não muda nada. Para mim isso esse argumento é cortina de fumaça. A inserção do ensino religioso agora é resultado de pressão de grupos de interesse", diz o pesquisador da Ação Educativa e professor de Direito da Universidade Federal do ABC (UFABC), Salomão Ximenes.

Gênero

A nova versão da Base não deve fazer menções claras a questões de gênero e de orientação sexual, como havia em versões anteriores, mostrando mais uma influência perversa da bancada da bíblia e setores conservadores. Em um país com níveis recordes em violência contra as mulheres e LGBTfóbica, manter a escola sem educação sexual e de gênero significa dar carta verde para que continuem os casos de agressão física e psicológica, as mortes e os abusos. O Estado é conivente com essa situação. E nós não podemos permitir que isso se perpetue.




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