Opinião

DEBATES NA ESQUERDA

#MAIS petistas do que nunca, ou se pode ir além?

Debate com o MAIS, corrente interna do PSOL, que vem se transformando rapidamente numa corrente lulista

Iuri Tonelo

São Paulo

sábado 7 de abril| Edição do dia

No último discurso de Lula desse sábado, frente a prisão golpista e arbitrária a qual está submetido, ficou novamente claro a marca profunda da estratégia petista: discursos, campanha eleitoral, conciliação. Lula se entregou, sem resistência alguma. Para qualquer um que conhece Lula e o PT, isso era mais que previsível, era um fato.

Mas para todos os petistas que tem como estratégia central pensar em quem vai capitalizar os votos de Lula e conduzir a disputa toda contra o golpismo nas eleições de Outubro, faz todo sentido. O que é descabido é uma organização que até ontem se reivindicava revolucionária, como o MAIS, fazer parte desse “show eleitoral” da maneira mais descarada possível. Aonde querem chegar?

Uma hipótese (que agora já virou conclusão clara) quando da ruptura do MAIS com o PSTU parece ser um fantasma permanente no destino da organização: ao não se romper com bases teóricas, estratégicas e programáticas sólidas, agravado por não ter uma estratégia de se fincar no movimento operário, o MAIS caminhava em direção ao oportunismo.

O que essa previsão não podia comportar era a velocidade e intensidade do movimento: foram de uma organização apoiadora do golpe (PSTU) para “os braços de LULA” e o PT, do sectarismo golpista ao oportunismo total. Seja nas palavras de Silvia Ferraro na porta do sindicato para que Lula “se sinta abraçado” ou com Valério Arcary falando do “neofascismo” e da “frente única”... no palanque com Lula (!) no Circo Voador no RJ – a “contribuição” do MAIS foi totalmente funcional ao PT.

Mas, claro, não é porque o giro é descarado que não se possa encontrar justificativas, e Valério Arcary não tardou para “ilustrar” a linha ultraoportunista, como sempre foi o caso em giros desse tipo alguém se prestar a esse papel. Naturalmente, os argumentos são esdrúxulos, perdem qualquer seriedade com a teoria e afastam-se do trotskismo como uma pipa solta no vento.

E o que dizem? Em primeiro lugar, é preciso caracterizar, diz o MAIS, que estamos vivendo a ascensão no país “de uma corrente neofascista com audiência de massas”. O fascismo não é mais expressão da reação do capital financeiro frente a uma crise social e econômica profunda, que arruína as classes médias, a desespera, a divide e empurra uma parte a uma solução imediata de força da direita...tudo no sentido de impedir a ascensão do movimento operário como sujeito, atacar suas organizações etc...

Nada disso importa para o MAIS. Claro que Valério Arcary fala meio confusamente uma parte dessas coisas, usa o “neo” (fascismo) para não falar que é “fascismo clássico”, mas o mais importante é definir “o peso do neofascismo” para amedrontar: o mentor do MAIS pinta o neofascismo no Brasil como um Leviatã, um monstro gigante que quer “engolir a esquerda”. Nesse sentido é mais funcional do que qualquer um dos oradores petistas: nem eles chegam a tanto em sua campanha de “medo + mal menor” em outubro de 2018.

É engraçado apenas notar que 100 mil professores, com seu sindicato e organizações, fazem uma greve histórica em SP, derrotam o prefeito, e nem sequer um grupinho fascista dá as caras. Ah, claro, porque o fascismo está mais preocupado com as eleições do que com o movimento operário.

Bem, não precisa explicar muito, o importante é a conexão lógica de que posto que estamos vivendo a ascensão do neofascismo, precisamos do que: “frente única”, que para eles é a tão sonhada “unidade da esquerda”, ou seja “unidade de todos embaixo do guarda-chuva do PT de Lula”. Novamente aqui o vale tudo em torno do conceito é primoroso: a “frente única” primeiro é fazer um ato em palanque no Circo Voador.

Mas dirão: “também é para a ação”, no caso, esperar passivamente, sem um pingo de crítica ou delimitação, o discurso em que Lula, que como sempre foi, faz uma ostensiva campanha eleitoral (Boulos e Manuela D’avila), concilia com a justiça e se entrega sem resistência alguma, sem greves nas estruturas, sem atos verdadeiros no país, sem nada, na prática, sem ação. Nem bem acabou o discurso e os dirigentes do MAIS já se apressaram a dizer que “houve grandeza” (!).

A verdade é que não estão defendendo absolutamente nada da tática de frente única operária...a que estão defendendo é outra: a frente popular, que já fincou bases claramente no Manifesto de Fevereiro, com um programa totalmente reformista e a “unidade” com PDT (agora com Kátia Abreu) e PSB, o qual o PSOL assina e o MAIS escreveu uma nota crítica só pra tentar dormir de consciência tranquila enquanto na prática vão ao desbarranque programático e dão suporte ao objetivo de fundo do manifesto: mantendo os trabalhadores com medo, sem greves e ações operárias, apresentar uma candidatura da “unidade da esquerda” em 2018, que até o momento significava apoio incondicional a Lula.

Com essa estratégia o MAIS dá sua parte de contribuição a manter a campanha de trégua, conciliação e passividade do PT no movimento operário, o que é nefasto. Nem um pingo de denúncia, só apoio miserável.

A classe trabalhadora que realizou duas greves gerais e vem fazendo incríveis lutas como a dos professores municipais de São Paulo, merece uma alternativa à esquerda. Merece uma política verdadeira baseada na luta de classes para combater os golpistas! Mas o MAIS quer construir um “muro” junto com o PT, e impedir qualquer conclusão estratégica e programática no movimento em nome de “combater a direita”, uma lástima.

Estando assim, MAIS petistas que nunca, o resultado não pode ser outro: já houve muitas crises no MAIS e algumas rupturas, enfraquecendo ainda mais uma organização já muito pequena. Mas a próxima crise será mais emblemática desse curso geral oportunista do MAIS: a perda de militantes rumando direto para o PT.

Ou será que no curso de isso acontecer a própria direção do MAIS não tomaria esse rumo?




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