Mundo Operário

MUNDO OPERÁRIO

Movimento operário e comissões de fábrica durante a década de 1970 em São Paulo

Após o golpe militar-burguês de 1964 com perseguição aos ativistas, militantes, dirigentes operários e sindicatos, registrou-se um breve recuo das atividades sindicais e políticas no país, este recuo se estendeu até 1966. Deste ano em diante, até 1968, registraram-se novas atividades contestatórias à ordem militar e ao patronato. Em Osasco e São Paulo formaram-se chapas de oposição contra os interventores da ditadura e pelegos.

sexta-feira 7 de outubro| Edição do dia

Em Osasco, a partir de comissões de fábricas, a Chapa Verde vence e conquista o Sindicato Metalúrgico da cidade em 1967. Em Minas Gerais, Contagem, uma onda grevista foi desencadeada por cerca de 15 mil operários em abril de 1968. Na sequência, em Osasco, a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos organiza o operariado para intervir na comemoração Primeiro de maio de 1968 na Praça da Sé e expulsar Abreu Sodré e os sindicalistas pelegos que colaboravam com a ditadura(Confira: http://www.esquerdadiario.com.br/O-Primeiro-de-maio-de-1968-na-Praca-da-Se-rebeldia-operaria-no-dia-do-trabalho). Em julho de 1968 deflagram greve e ocupação na Cobrasma (Confira: http://www.esquerdadiario.com.br/O-1968-operario-no-Brasil-a-greve-dos-operarios-da-Cobrasma). Após essa onda de mobilizações o governo militar responde às mobilizações com uma nova fase repressiva.

O ciclo da luta sindical da classe operária paulistana passou por dois refluxos significativos: o primeiro foi imposto no imediato pós-golpe militar (1964-1966). O segundo refluxo seguiu-se em consequência do AI5 decretado em dezembro de 1968, estendendo-se até 1973. As atividades públicas e massivas do movimento operário sofreram um declínio importante, mas mesmo sob a fase mais persecutória e sangrenta da ditadura militar-burguesa, os operários protestavam, realizavam pequenas paralisações e greves parciais nos locais de trabalho.

A Oposição Metalúrgica de São Paulo

Em São Paulo a Chapa Verde não vence as eleições sindicais de 1967, mas constitui um núcleo de operários que se organizaram progressivamente durante a década de 1970 criando a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, que foi uma frente de trabalhadores fabris que se inspirou diretamente no exemplo dos operários de Osasco. Incorporando àquelas experiências, criaram comissões e grupos clandestinos que realizaram paralisações, operação tartaruga, greves parciais e disputa pela direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.


Figura 1: Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo

A Oposição em São Paulo dá seus primeiros passos entre 1967 e 1972, sua aglutinação inicial foi motivada pelas disputas eletivas para o Sindicato de São Paulo. A partir de 1974, além de criar dezenas de comissões de fábricas clandestinas, criou também as interfábricas, espécie de conselhos operários que interligava militantes de diversas fábricas da cidade. No entanto, a expressão maior da Oposição Sindical Metalúrgica é verificada em sua terceira fase 1975-1980. Dentre as forças políticas que compunham a Oposição estavam: Ala Vermelha, Ação Popular, POLOP, POC, PORT, PCdoB, Grupo 1º de Maio, membros da Pastoral Operária, militantes independentes, entre outros. O ponto de convergência entre estas diversas correntes políticas era a organização no chão de fábrica, com base nesta convergência se formava uma frente de trabalhadores. Conforme nos relatou Stanislaw Szermeta, que foi operário e militante da Oposição e do POC:

"Mas aí, esse processo todo, se dá uma coisa que se chama, no processo de atuação nas fábricas, se dá uma ideia que se chama: Frente de Trabalhadores. Esse é o cerne da construção das lutas dentro das fábricas. O que é a Frente de Trabalhadores? É onde está organizado, dentro da fábrica, a garantia da unidade. Não tinha vários grupos dentro da fábrica, tinha um grupo dentro da fábrica. Esse grupo se organizava no processo da construção da luta das reivindicações específicas e garantia a unidade. E garantia o programa, e garantia, por exemplo, as reivindicações. Não era uma coisa fácil, você tinha que organizar, chamar os trabalhadores, reunir, fazer, por exemplo, um boletim. Esse boletim era distribuído dentro da fábrica. Quem fazia isso? A Oposição. Aí você tinha um setor organizado da Oposição que fazia esse boletim, que era distribuído. Não pela gente, mas pelos trabalhadores, que iam lá e distribuíam. Aí era cacete, cacete nos patrões, cacete na Diretoria [do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo], cacete no governo... E você tá no meio da ditadura. Então não era também fácil distribuir. A questão foi, depois, melhorando, entende? Mas por exemplo, tinha lugar que você tinha que distribuir e cair fora, porque os caras chamavam a polícia. Você começava a distribuir o material e o cara chamava a polícia. Você tinha 5 ou 10 minutos, para distribuir o material. Depois de 1978 é que a coisa foi ganhando... Mas não tinha muita moleza". (Entrevista - Stanislaw Szermeta).

Neste período do "milagre" econômico (1969-1973), que foi um processo de sobreacumulação de capital baseado na superexploração do trabalho e no endividamento externo, nas fábricas registrava-se acelerado ritmo de trabalho, baixos salários e milhares de acidentes. Sendo que em 1974 e 1976 o Brasil foi campeão mundial de acidentes de trabalho. Nesse terreno desenvolve-se a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, opondo-se ao colaboracionismo da diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, dirigido por Joaquinzão pelego, a Oposição atuava denunciando as precárias condições de trabalho, ajustes salariais em atraso, mas também as violências perpetradas pela chefia autoritária, atrasos de pagamentos, insalubridade, falta de banheiros, falta de refeitórios, péssima qualidade da comida servida nos restaurantes e cantinas das fábricas, falta de equipamentos de segurança etc.

Todas estas demandas imediatas do local de trabalho serviam como pontos de partida para abaixo-assinados, reuniões, boletins clandestinos e formação de grupos, com isso articulavam-se paralisações por seções e "operações tartaruga", que consiste na diminuição organizada do ritmo de trabalho como forma de protesto. Essa variada gama de atividades sindicais (para além das conquistas econômicas) servia também para aprofundar a coesão entre os operários. Pois as lutas específicas, com demandas imediatas, funcionam como pólo de aglutinação, troca de ideias, de experiências e desenvolvimento de laços de confiança. Os operários podiam fazer experiências e saber em quem podiam confiar politicamente. Ao mesmo tempo fortalecem a confiança em si mesmos e na categoria. Já as correntes, tendências políticas e partidos, atuando nesses espaços, podiam identificar os principais contatos de seu interesse, dividindo-os entre militantes sindicais e políticos. Alguns desses podiam ser convidados para reuniões em separado, junto àquelas organizações e tornarem-se membros delas. Os operários mais experimentados tornam-se base para construção de processos de luta que demandam "quadros mais sólidos", com maior acúmulo político e teórico. Será por meio desse trabalho que se formará uma camada de dirigentes operários ligados às bases fabris.

Nesse processo, a Oposição Metalúrgica de São Paulo chegou a reunir 68 metalúrgicos em um congresso clandestino realizado em 1971. Nessa primeira fase de formação da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (de 1967 até 1972), sua importância é maior como pólo de aglutinação de militantes do que como uma força política com capacidade de influência no cotidiano operário. Para essa aglutinação inicial, foi central a perspectiva de construção de grupos de fábrica, comissões clandestinas e ampliação das bases para além dos operários sindicalizados. Conforme relatou Cleodon Silva, que era operário, militante da POLOP e da Oposição Sindical:

"Em 71 nós participamos, fizemos a Chapa Verde em 72, mas era assim... a Oposição não tinha...a organicidade se dava mais em véspera de eleição, 72 foi bem isso e era assim, a organização ainda não era por setor, era mais por trabalho existente, era assim, tinha a turma do [Waldemar] Rossi, a turma do Dantas, a turma do Aurélio e tinha também a turma do Silva, inventaram a turma do Silva que a gente reunia com o conjunto de trabalhadores na fábrica e a gente já tinha uma certa expressão naquele momento. Isso em 72. Passou a Chapa Verde, ficou de 73 a 74 era muito...a gente se encontrava, mas o movimento ainda estava muito nessas articulações isoladas. O Aurélio [Peres] com a turma dele lá que veio da depois da AP e os grupos se encontravam mais assim na campanha salarial ou antecipação salarial, algumas campanhas do sindicato, mas a organicidade ainda em termos de São Paulo não existia, era muito frágil". (Entrevista - Cleodon Silva, concedida ao IIEP, 2007).

Hamilton Faria (1986), no trabalho A experiência operária nos anos da resistência: a oposição metalúrgica de São Paulo e a dinâmica do movimento operário (1964-1978) registrou a formação de um grupo de 5 operários na fábrica Passini, organizado por Raimundo de Oliveira coordenador da União Metalúrgica de Luta (que era um núcleo clandestino da Oposição Sindical). Um grupo de 15 operários foi formado na Fábrica de Motores Carmos S/A, sendo dirigido pelo operário Crispim, membro da coordenação da Oposição. Na Lorenzetti foi formado mais um grupo com 10 operários, articulados por João Chile, que era coordenador da União Metalúrgica de Luta, esses chegaram inclusive a fazer uma greve em 1971 nessa empresa. Na Arno havia outro grupo de 30 operários. Na Massey Ferguson registrou-se um grupo de 5 operários dirigidos por Hélio Bombardi. Na Villares, um grupo de 6 operários articulado por Anízio Batista. Na AMF, um grupo de 15 operários articulados por Waldemar Rossi. Na Hobart Dayton havia outro grupo de fábrica com mais de 10 operários organizados por Elias Stein. Com base neste trabalho de base a Oposição disputa a direção do Sindicato Metalúrgico de São Paulo, sua chapa recebeu 5.500 votos. A chapa de Joaquinzão pelego venceu com 18.000 votos.


Figura 2 - panfleto da Oposição Sindical

Entre as debilidades da Oposição nessa primeira fase (1967-1972), conforme podemos conferir na publicação do POC, Problemas de organização do movimento operário brasileiro, a oposição não se constituiu como alternativa suficiente na luta contra os pelegos representantes dos interesses da patronal e da ditadura: "Apesar de nas eleições de 1972 muitos operários da oposição compreenderem essa perspectiva de auto-organização, na prática a oposição sindical constituiu-se uma alternativa insuficiente ao ’peleguismo’. (POC, 1977). Isso porque, de acordo com o balanço do POC, a oposição sindical: "limitava-se a denunciar a traição dos pelegos sem, no entanto, procurar saídas práticas por fora da estrutura integrada". (Idem).

Com o inicio da crise do "milagre", a Oposição Sindical se expande

A Oposição Sindical ganha maior densidade a partir de 1973, sobretudo por conta da nova fase de ativismo operário que se inicia. As correntes políticas e sindicais que passaram a organizar-se em São Paulo por causa da expansão econômica e industrial, viam na Oposição um espaço possível de atuação. Com um grande parque produtivo, o movimento operário paulistano torna-se um grande atrativo para as correntes de esquerda organizada em uma variedade de grupos políticos que "giram" militantes para inserirem-se nas fábricas, para compor a Oposição Sindical Metalúrgica, mas também as comissões clandestinas, as interfábricas, sociedades amigos de bairro etc. Como nos relatou Sebastião Neto, que era operário e militante da Oposição:

"(...) Pouco a pouco, foi ficando claro que o sindicato mais importante do Brasil, operário, era o Metalúrgico de São Paulo. Então todo mundo que podia, queria militar em São Paulo, todo mundo botou gente aqui. Depois, você tem que pensar que a luta armada começa a se esgotar no começo da década de 1970, também, muita gente falou: ’Puta, luta armada, não é por aqui’, vieram ajudar [na Oposição]... As vezes nem na Oposição, mas no bairro, porque o cara estava queimado, tinha saído da cadeia, a companheira... Então esse pessoal... Então assim, não dá pra separar muito a Oposição metalúrgica do trabalho de bairro que é outra característica nossa. Quer dizer, a Oposição ela nasce... Ela nasce não, ela cresce muito igual ao movimento popular, né... Então você vai encontrar até hoje velhos que vão dizer: ’Não, eu fui da Oposição’, o cara nunca trabalhou numa fábrica, mas na cabeça dele, foi da Oposição. A Dona Chica, lá da zona sul, ela diz algo espetacular, ela fala assim: ’A gente era da Oposição né, aí a gente criou o PT, aí a gente fundou a CUT, aí a gente ganhou o Sindicato dos Químicos’... ’A gente’, ’a gente’, a gente para ela é um povo que fazia tudo junto... Isso é o [movimento de] ’custo de vida’, é tudo isso. Mas é um sentimento comum a pessoa que nem foi da Oposição, mas hoje orgulhosamente... Inclusive, tem companheiro, companheiro até de fábrica que ao te dar entrevista fala assim: ’Eu fui da Chapa 2’, não é que ele foi um dos 24, mas ele foi ’Chapa 2’, ’eu sou do MOMSP’, ’eu sou da Oposição’ e insiste até hoje ’Eu fui da chapa’, ’eu estava naquela chapa lá’, é um sentimento que nem... Sei lá... Nessa época era ser petista, uma coisa deste tipo, ’Ah, eu sou do PT’, vai ver o cara não é do diretório, nem é filiado, mas ’Eu sou PT’, na cabeça dele ele é um cara... E ele vai em reunião, ele dá palpite, ele discute, entendeu... Com toda a propriedade". (Entrevista - Sebastião Neto).

Junto às correntes políticas, também os militantes da esquerda católica, com a criação da Pastoral Operária no início da década de 1970, darão cada vez mais importância à construção da Oposição. De acordo com relato de Cleodon Silva:

"(...) o movimento operário cristão antes de 64 fazia a crítica ao populismo, mas muito...Vinha ainda carregado de um ranço forte anticomunista. Esse anticomunismo do movimento cristão, principalmente católico, ele vem sendo abandonado com o surgimento da Ação Popular dentro da própria igreja, que depois ela vai cada vez mais a passos largos assumir a luta pelo socialismo e influindo na igreja de uma forma geral, inclusive na questão da Teologia da Libertação. E alguns grandes representantes que batalharam nisso, que estiveram juntos nas lutas operárias, de resistência popular, como alguns bispos importantes, vários, que tiveram nessa linha e ajudaram muito mesmo no processo de organização do movimento operário e que foi trabalhando a questão da organização de base. Na medida em que se afastaram do anticomunismo foram se aproximando do socialismo, permitiu essa junção. A nossa experiência que vinha da esquerda possibilitou um bom diálogo com as lideranças católicas e o Waldemar [Rossi] é um grande exemplo dessa aproximação. Até hoje o Waldemar esteve junto com a gente em todos os momentos, inclusive até hoje tem uma posição bem mais radical do que no passado. O Rossi é um exemplo ao contrário, dizem que a juventude é radical né, e ele faz o caminho inverso, vai do conservador ao radical". (Entrevista - Cleodon Silva, concedida ao IIEP, 2007).

Como podemos observar no relato de Cleodon, mesmo setores que eram caracterizados como mais conservadores em relação às correntes do campo da esquerda marxista, buscam superar limites político-ideológicos e convergir com aspectos do marxismo. De acordo com Cleodon:

"(...) aos poucos com a Pastoral Operária foi tendo abertura com a experiência que veio da Ação Popular dentro da igreja, foi abrindo e criando uma vanguarda operária mais comprometida com o pensamento operário e aí ele se encontrava com o pensamento socialista. Então foi possível num determinado momento a necessidade de organizar os trabalhadores dentro das fábricas, combater o populismo, combater todas aquelas experiências de manipulação dos trabalhadores. Foi aproximando essa vanguarda, uma vanguarda do movimento operário católico com o movimento operário socialista. Nós fomos avançando cada vez mais, inclusive com a própria experiência da esquerda, da derrota e da autocrítica da esquerda armada. Vários militantes que passaram por essa experiência também se aproximaram da Oposição. Foi havendo uma aproximação e um clima de debate, começou a avançar dentro da gente a necessidade, primeiro a tolerância de reconhecer posições diferentes que pouco tempo atrás não existia, cada um era colocado quase que como inimigo, então dentro da Oposição foi havendo uma aproximação e reaproximação de companheiros dentro de uma perspectiva de uma Frente de Trabalhadores e foi consolidado todo o período mais fértil da Oposição Metalúrgica que se deu com a prática da Frente de Trabalhadores. Deixamos de respeitar qualquer tipo de acordo de cúpula e organizações e começamos a basear todo o processo de organização a partir dos trabalhos existentes e a representação do trabalho fabril. Essa relação do conjunto desse trabalho foi o que começou a fundamentar um pensamento da Oposição em termos de Frente de Trabalhadores". (Entrevista - Cleodon Silva, concedida ao IIEP, 2007).

O ambiente interno da Oposição Sindical funcionou efetivamente como uma frente de trabalhadores que permitiu compartilhar experiências, construir atuações conjuntas e fusionar idéias teóricas e políticas nas bases operárias. A convivência de múltiplas tendências políticas fez com que a Oposição fosse se transformando desde as eleições sindicais de 1967 e constituindo um programa de ação básico.

A própria conjuntura política, com investida estatal-burguesa, obrigou os operários a entrarem em uma fase de luta clandestina no interior das fábricas, como forma de resistência à intensificação do ritmo de trabalho e a proibição de organizarem-se politicamente. Assim, de acordo com depoimentos que colhemos com operárias e operários que militaram no período 1969-1973, equivocam-se os que só enxergaram passividade dos operários nesse período. Ainda que duramente reprimidas, a auto-organização e paralisações não cessaram, por exemplo, operários da Mercedes interrompem o trabalho no dia 26 de março de 1969, motivo pelo qual a empresa demitiu 80 operários. Também nesse ano, registrou-se mobilizações na Aliperti, em fábricas do grupo Matarazzo, na Arno e na Alfa.

Conforme registro da Ação Popular, no boletim Libertação (1969): "Os valentes companheiros da Mercedes fizeram uma greve em 27 de março último sem ligar para a lei que proíbe a greve e perto de 700 a mil operários, entre 10 mil da Mercedes, pararam reivindicando 50% de reajuste salarial". (AÇÃO POPULAR, 1969, p. 273). No mesmo boletim acrescentam que: "Depois do Ato 5 já houve pelo menos seis greves parciais no ABCD: na Resil, na Multibrás, na ferramentaria da Volks, duas paradas em duas seções da Chrysler e agora essa parada maior de várias seções da Mercedes Bens". (Idem, p. 275). Também em 1969 registrou-se greve na Villares e na Hobart Dayton. De acordo com publicação da Oposição: "Na Arno, o pessoal fez algumas paralisações em 1968, 69 e 70, com prisões em seguida" (GET-Urplan, 1982, p. 30). Também o jornal Voz Operária (PCB) registrou atividade operárias em 1972:

"E em São Paulo, em 1972, eclodiram onze greves somente na área da Grande São Paulo, sendo oito no setor metalúrgico e outras no setor gráfico, alimentação e construção civil. (...). E três greves foram efetuadas por cima da lei antigreve, sendo duas na Aço Villares (2.600 operários) e uma na Cerâmica, todas em São Caetano, plenamente vitoriosas na reivindicação do pagamento em dia". (VOZ OPERÁRIA, 1973, p. 90).

Em 1973, em duas das fábricas onde a Oposição desenvolvia trabalho, Villares e Arno, são organizadas paralisações e operações tartaruga. Também, conforme nos relatou Elias Stein, operário que foi militante da Ala Vermelha e membro da chapa da Oposição de 1972, em 1973 os operários da Hobart Dayton, onde trabalhava Elias, decidiram fazer uma "greve de hora-extra" até receberem reajustes salariais.

No segundo semestre de 1973, são deflagradas novas greves na indústria automobilística de São Bernardo: Volkswagen, Chysler e Mercedes Benz, fazem "operação tartaruga" e "operação zelo" (nesta a produção é reduzida com argumento de fazer peças perfeitas). Foram todas greves sem a participação do Sindicato do ABC.

O Jornal Voz Operária, no artigo Greves em São Paulo, registrou a sequência de greves em 1973 centradas no eixo industrial paulistano. De acordo com o Jornal, apenas no primeiro semestre ocorreram 15 paralisações. No segundo semestre, nova sequência de 19 greves foi registrada. As greves são motivadas pelas precárias condições de trabalho, insalubridade, opressão da chefia, intenso ritmo de trabalho e por reajustes salariais.

Em 1973 registrou-se greves parciais na Villares, fábrica localizada no Cambuci-SP, com cerca de 2.500 operários. Anízio Batista, que era operário nesta fábrica, participou da comissão clandestina que organizou paralisações por seções, foi a chamada de "greve pipoca", um movimento onde alternavam-se as seções paralisadas. Os operários desta fábrica chegam a realizar uma assembleia com 1.500 operários no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Ainda, depois de encerrarem a greve, voltam a fazer uma operação tartaruga. Essas mobilizações de 1973 na Villares foram vitoriosas. Conforme relatou Anízio:

"Nesta época, a gente formou a comissão de fábrica [clandestina] na Villares, isso já porque também nós tínhamos a organização da Oposição Sindical Metalúrgica também em cima disto aí... E, talvez você não se lembre, mas na época do Regime Militar, o Delfin Neto, que era o Ministro da Fazenda na época, da economia... Então nós estávamos reivindicando na época, mesmo nas assembleias sindicais, não me lembro direito quanto era, sei que nós tínhamos uma perda salarial enorme... Então o que aconteceu, nós negociamos na época com a patronal, naquela época por exemplo, a FIESP era na Avenida Rio Branco, entendeu... E o Sindicato, quando nós tínhamos assembléia, tirava uma comissão da assembleia dos metalúrgicos para acompanhar as negociações junto com o sindicato, e eu, sempre, por várias vezes, eu acompanhei realmente as negociações do sindicato. Eu sei que na época foi 5% que nós conseguimos de aumento, que a empresa deu... Deu não, era uma determinação do Governo Federal né, e nós não concordamos com aquele aumento. A gente não concordou. O que a gente fez, porque a Villares tinha antecipado essa parte para nós já, então o que que aconteceu... Aí a nossa organização interna por exemplo, na Villares, que naquele tempo você fazer uma greve só numa empresa só era muito difícil... O que nós planejamos da greve nossa na Villares foi uma novidade: a greve pipoca. A greve pipoca era o seguinte, nos parávamos de manhã uma hora, começava a trabalhar, parava uma hora a tarde, começava a trabalhar, dia seguinte era a mesma coisa, parava de manhã e parava a tarde. Então a greve pipoca era assim, nós parávamos de manhã, parava à tarde e com isso nós negociávamos com a empresa o não-desconto da antecipação que eles tinham dado e mais 10% do salário né. (...). E aí com todos... Depois de uma semana, nós fazendo essa greve aí, aí a Villares acabou cedendo na verdade. Ela cedeu mais 5 ou 6%, não me lembro bem direitinho, na época... Então nós conseguimos essa vitória. (...). Nós tínhamos uma organização muito bem feita dentro da empresa. Então, em cada seção, nós tínhamos uma liderança que discutia com a gente". (Entrevista - Anízio Batista).

Esta greve na Villares, em 1973, marcou o inicio de uma nova fase de atuação operária. Isso porque foi uma demonstração de resistência e um desafio às imposições patronais. Desse ano em diante, marcado pela desaceleração da economia e esgotamento do "milagre" econômico, novas ações serão realizadas progressivamente. É este trabalho persistente e orgânico que garante a formação inicial e construção de pólos de militantes dentro das fábricas. De acordo com o relato de Stanislaw Szermeta:

"Então a partir do final de 1973, começo de 1974, começa... A grande crise começa a girar em torno do petróleo, uma crise internacional, e começa a despontar grupos e resistência dentro da fábrica, com a proposta de grupos de fábrica. E aí que se dá o início do processo da resistência dos trabalhadores, que é grupo de fábrica. Isso é assim... Uma coisa muito difusa, que precisaria ter um... Eu não tenho uma visão... Mas era uma proposta, a gente pode dizer assim... Nacional nos núcleos, nos lugares onde houve um crescimento econômico, nas grandes concentrações de grandes empresas. Então você vê Osasco, você vê São Paulo, Guarulhos, São Bernardo, Santo André, Rio de Janeiro. O conjunto desses lutadores começa a gestar uma ideia da construção de grupos de fábrica, mais ou menos final de 1973 e início de 1974. (...). Só foi se recuperar... A luta só foi se recuperar porque era um crescimento tão violento, mas tão violento que, por exemplo, os acidentes dentro das fábricas... Criaram um clima. O brasileiro era campeão mundial de acidente de perda de olho na produção, soldador, torneiro. Não era só precário, é que o ritmo era tão intenso que (...). Vai melhorar mesmo no final de 1973 e 1974, que começa a luta, e começa as ideias de implantação dos grupos de fábrica. Aí é que começa a luta dos grupos de fábrica". (Entrevista - Stanislaw Szermeta).

Embora o número de operários organizados na Oposição Sindical seja certamente pouco expressivo no que tange à organização de todo operariado paulista, é necessário considerar que essa militância clandestina nas fábricas assumiu importante protagonismo no ascenso das lutas operárias de 1978-1980. Os militantes desta fase foram os que despontaram como as principais lideranças operárias durante a segunda metade da década de 1970. Então, não se pode tomar o período 1969-1973, como uma fase de "silêncio e imobilismo", mas sim como uma fase de organização da militância clandestina fabril.

1969-1973: organização operária clandestina dentro do refluxo

Para Anízio, ao invés de considerar o período 1969-1973 como um período de refluxo, o mais preciso seria considerá-lo como um período de articulação orgânica dos operários e militantes sindicais: "E aí pode ser que alguém ache que foi um certo refluxo. Eu acho que não. Eu acho que foi a parte mais orgânica". (Entrevista - Anízio Batista). Segundo seu relato, neste início de 1970 a Oposição já havia constituído comissões clandestinas em várias fábricas importantes de São Paulo:

"Nós tínhamos na MWM, nós tínhamos na mesma fábrica que o Waldemar trabalhou, não me recordo o nome, a que o Waldemar trabalhou... Nós tínhamos a Arno, na empresa Arno, por exemplo. Na Lorenzetti (...). A Ford aqui em São Paulo tinha, na Ford aqui no Ipiranga. (...). Muitas comissões de fábricas... Era bastante. (...). Na zona sul era Villares, Carterpillar, MWM. Ali na Nações Unidas, ali tinha uma infinidade de metalúrgicas, ali era muito grande, metalúrgicas grandes..." (Entrevista - Anízio Batista).

Conforme apontam os relatos, os grupos e comissões clandestinas eram as principais formas de agregação de militantes no chão de fábrica, a exemplo de Waldemar Rossi que relatou: "Ah, em toda fábrica que eu passei, sempre formei grupos. Sempre formei. Mas aí, era bastante observado, seguido né". (Entrevista - Waldemar Rossi). Esta mesma forma de atuação constituída como "linha chave", era seguida como orientação principal da Oposição Sindical Metalúrgica, nas palavras de Waldemar: "A marca da Oposição era a organização no local de trabalho". (Entrevista - Waldemar Rossi). Além de se organizar por fábricas, os militantes e ativistas da Oposição, chegaram a conclusão de que era preciso articular-se para além dos locais de trabalho. Fazia-se necessário colocar os operários das diferentes fábricas em contato. Surgiu assim a interfábricas.

Interfábricas: embriões de conselhos operários

Dentro desse processo de organização por fábrica, ganha expressão, a partir de 1973-1974, as reuniões clandestinas chamadas de interfábricas, das quais participavam operários de várias fábricas e deliberavam por ações conjuntas. Desta forma, as interfábricas começaram com simples encontros de operários para discutir problemas nos locais de trabalho e militância, mas ganhou característica de fórum auto-organizado pelos trabalhadores de várias fábricas para deliberação de políticas sindicais conjuntas. As interfábricas constituíram reafirmação da necessidade operária de organização pela base e construção de fóruns comuns de articulação da luta coletiva.


Figura 3 - Forma de funcionamento da Interfábricas
“Comissões de Fábrica”. Cadernos publicados pela Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo em 1982. In: Investigação operária: empresários, militares e pelegos contra os trabalhadores. 2014 – São Paulo.

Conforme nos relatou Stanislaw Szermeta, as reuniões interfábricas eram formas de reunir os militantes mais ativos de cada fábrica, tanto para organizar uma base para a Oposição, fortalecendo a luta contra a gestão do peleguismo, como para articular o operariado nos locais de trabalho para greves e demais atividades sindicais:

"Interfábricas era quando a gente reunia várias fábricas. Era praticamente um conselho, só que não era um conselho, não tinha esse nome, e também não tinha esse entendimento. Mas era, a ideia, você tinha que animar, você tinha que animar, mostrar para esses trabalhadores que não era só eles que estavam lutando. Eles não podiam ter a sensação de que só eles estavam fazendo. Tinha que ter a sensação de que a Diretoria, o Sindicato, não fazia esse papel. Esse papel das interfábricas era um papel tirado para animar, para dar motivação para as lutas ganharem mais unificação. Você tinha trabalho tanto na zona sul, na zona oeste, como na sudeste, zona leste, Mooca, você tinha um conjunto, toda uma estrutura, organizada pela base. Inclusive, o pessoal do Lula, esse pessoal todo, nos acusavam de ser um partido. Porque eles falavam que a gente fazia isso mas não atuávamos no sindicato. E não é verdade isso. Quando tínhamos condições nós íamos para o sindicato, como foi feito em 1978 e 1979. Não procede, entende?". (Entrevista - Stanislaw Szermeta).

Quantas reuniões tiveram do interfábricas?

"Centenas, centenas, centenas. Era um período, era um período que a gente se reunia. Sei lá, Carterpillar, tinha Metal-leve, as fábricas se reuniam em separado, fazia processo de luta. Agora, em determinados momentos era que se fazia, mas na proximidade das lutas mais gerais é que a gente se reunia. Mas as reuniões por fábrica..." (Entrevista - Stanislaw Szermeta).

As interfábricas eram articuladas a partir de chamados clandestinos, reunindo-se em Igrejas às escondidas, funcionavam como um organismo de base para articulação da luta operária, servindo tanto para organizar as lutas econômico-sindicais, como a luta política anti-ditatorial. Das reuniões interfábricas participavam também militantes de correntes políticas e partidárias que haviam estruturado trabalhos no interior das fábricas. Hélio Bombardi, operário que trabalhava na Massey Ferguson, e começou a militar em 1973, denota o papel que cumpria as interfábricas:

"(...) começam a acontecer final de 74, 75 o que eu acho que é o marco, pelo menos na minha vida, que é a Interfábrica da zona sul, que é onde as pessoas de várias fábricas diferentes da zona sul começam a sentar pra discutir suas experiências e tinham diferentes níveis de experiência, desde pessoas que estavam em fábricas pequenas, fábricas médias, fábricas que eram muito difíceis, complicadas, fábricas que eram extremamente repressivas e até algumas que eram fábricas bem maiores pra época e pro contexto, naquela região eram fábricas de ponta de linha que era a Caterpillar, que era a Villares, que era a Massey Ferguson e que a gente começou a fazer essas reuniões e tinha um método que eu achava muito legal: “Como está sua fábrica, com quantas pessoas conseguiu conversar, que tipo de discussão vocês têm lá dentro, que tipo de problemas, vocês estão pensando em fazer alguma coisa?”. Então cada um colocava como era a fábrica, qual era o grau de organização, qual era o grau de problema, qual era o grau de repressão e qual a saída. Esse coletivo, essas pessoas que participavam da Interfábricas acabavam, de certa forma, um contribuindo com o outro pra dizer: “Olha, por que você não tenta fazer isso? Você não acha que ainda é cedo pra ir pro enfrentamento? Não acham que é cedo fazer um abaixo-assinado? Vocês já vão começando pedindo um aumento de salário? Será que não é melhor começar mais leve, pedindo um bebedouro, ou uma bota, alguma coisa de segurança?” Era uma riqueza muito grande porque você não pensava sozinho, estava pensando com uma equipe de companheiros e já na época, de alguns companheiros que tinham vindo de outras experiências tipo o Stanislaw, que era uma experiência, ele já tinha sido preso, já tinha sido solto, ao mesmo tempo o Nelson [Coquite] Japonês, ao mesmo tempo o Rodrigues, então eram experiências diferenciadas, pessoas diferenciadas com experiências diferenciadas. Eu acho que a riqueza da interfábricas naquele momento foi essa. Eu particularmente gostava bastante e acho que foi uma escola, vamos dizer assim, de discussão e de prática, porque as pessoas tinham de dizer mais ou menos o que estavam encaminhando, o que podiam fazer, o que estavam fazendo tal (...)". (Entrevista - Helio Bombardi, concedida ao IIEP).

Assim, as interfábricas funcionavam como uma forma construir a unidade operária pela base, discutindo os problemas do local de trabalho e os níveis de organização interna. A partir disso podia-se ter uma caracterização das principais fábricas, de como se movimentava a patronal e repressão. E assim construir ações conjuntas e unificadas. O relato de Hélio Bombardi elucida como se davam as ligações entre os grupos clandestinos e as reuniões interfábricas:

"Bom começar a fazer um grupo de fábrica, começar a discutir, ver as seções que a gente tem, conversar em horário de almoço, cada um almoçar em locais diferentes com pessoas diferentes, e esse grupo foi crescendo. Quando esse grupo começa a crescer bastante, também está acontecendo a Interfábrica, uma coisa vem junto com a outra e começa a Oposição Metalúrgica a ter zona leste, zona sul, Ipiranga. Você começa a ter um campo de atuação bem maior. Você começa a pegar uns companheiros na fábrica e levar pras assembleias do sindicato. Alguns desses companheiros você já levava pra participar da Interfábrica, tirava um companheiro ou outro pra ir pra Interfábrica, ia pra assembleia do sindicato e levava alguns companheiros pra sentir como era a assembléia, que era barra dentro do sindicato e algumas reuniões da Oposição, já começava em 75 a ter algumas reuniões da Oposição, levava esses companheiros e na verdade a Oposição tinha muito essa ideia da fábrica". (Entrevista - Helio Bombardi, concedida ao IIEP).

As interfábricas ampliavam a perspectiva de domínio do campo de batalha para os sindicalistas e militantes. Burlava a censura à qual estava submetida à luta sindical e política, possibilitando colocar em evidência a organização e a luta cotidiana para além do grupo de fábrica onde adentrava um operário. O organismo possibilitava ampliar a consciência da organização intestina em várias fábricas por meio de vários trabalhos e experiências em curso no chão de outras fábricas, das condições em que eram feitos e dos obstáculos que enfrentavam. Mas é também espaço de politização que permanece em disputa, uma vez que as correntes e tendências políticas encontram ali um ambiente para intervenção e mediação da classe em si e a classe para si. Conforme relatou Hélio Bombardi:

"O que me marca muito é a experiência da Interfábricas, acho que aquilo é um papel extremamente educativo pra classe, pros operários, é uma coisa que fazia com que convivessem no mesmo espaço gente com diferentes tendências o que era uma coisa difícil porque na época era assim, se o cara era de uma tal organização eu não tinha nem que conversar com ele, não é da minha organização não fica conversando muito, inclusive a organização não gostava que se conversasse. Mas quando ia pro movimento sindical de certa forma, não que isso não era quebrado, se tinha condições de fazer uma conversa porque era uma frente única, era a Frente dos Trabalhadores e acabava todo mundo trocando ideia do que estava acontecendo. Óbvio que quem era organizado voltava com aquilo pra discutir no partido o que fazer e quem não era organizado ou os que só estavam na metalúrgica discutiam dentro da Oposição. Diziam: “Isso ta acontecendo dentro da minha fábrica. Dá pra ir pra luta? Não da pra ir, como vocês estão vendo?” Esse movimento permeou 78, 79". (Entrevista - Helio Bombardi, concedida ao IIEP).

Conforme destacou Hélio Bombardi, a convivência de variadas tendências na frente de trabalhadores, nas reuniões interfábricas, acabou por funcionar como meio construir coesão para ação conjunta. Desta forma, explicita-se a relevância desse fórum conjunto. Por outro lado, em publicação do POC - Partido Operário Comunista, que atuava na Oposição Sindical, embora se reivindique a importância das interfábricas, apontou-se que os seus dirigentes ainda não reconheciam completamente a importância daquele fórum:

"O ano de 1974 mostrava uma das primeiras experiências de organismos interfábricas baseados na ideia das comissões operárias. Mas, apesar de seu pioneirismo - devemos lembrar que as interfábricas eram de várias categorias profissionais - o movimento mostra muitas debilidades, não reconhecendo inclusive sua própria importância. A participação na campanha salarial de 1974 não mostra nenhuma grande inovação ou avanço comparada com a de 1973". (POC, 1977, p. 203).

Os pequenos núcleos operários nas fábricas, comissões clandestinas e as interfábricas, ganham maior densidade e amplitude a partir da nova fase de ativismo operário que converge com da crise política e econômica vivida pelo país após a falência do "milagre" econômico. Além do ativismo operário, o fim do "milagre" produziu divisões entre as frações da burguesia e crise da dominação ditatorial, o que por sua vez abriu espaço para o fortalecimento da luta operária.

As jornadas de greve de 1978 em São Paulo

Durante a primeira metade da década de 1970 registrou-se uma fase de temperamento de quadros operários, sindicais e políticos, onde se forjaram, em pequenas "escolas de luta", organizadores, agitadores, propagandistas e militantes revolucionários. Durante a segunda metade da década de 1970, em meio à retomada das lutas operárias públicas, o acúmulo de experiências pela Oposição de São Paulo lhe possibilitará experimentar um salto em sua construção. Parte significativa desta camada atuará de forma qualitativa no ascenso operário de 1978-1980. A organização na base operária percorreu toda a década de 1970 em São Paulo. Onde destaca-se numa fase clandestina, de enraizamento no chão de fábrica (até 1974/1975) e tendo como ponto alto as mobilizações e a onda de greves de 1978-1980. Este trabalho clandestino veio à tona em 1978. Conforme relatou Hélio Bombardi:

"De 72 até 78 quando explodiu a greve, foram seis anos de conversa, de discussão, de organização, de passar material pros companheiros, e passar material era aquilo: um recorte, uma noticia, pega alguma coisa interessante que saiu no jornal e leva pra eles lerem, era um trabalho de formiguinha no começo mas era aquele trabalho diário". (Entrevista - Helio Bombardi, concedida ao IIEP).

Em 1977, o BIRD divulga os dados inflacionários de 1973, denunciando a falsificação dos mesmos pela ditadura militar brasileira, que levou a perda de 34,1% nos salários. Essa manipulação causou grande revolta na classe trabalhadora e fomentou ainda mais a reorganização operária no chão de fábrica. A reivindicação pela reposição dessa perda é levantada por dezenas de sindicatos que passam a compor o Movimento pela Reposição Salarial. Conforme relatou Hélio Bombardi:

"O ano de 1974 mostrava uma das primeiras experiências de organismos interfábricas baseados na ideia das comissões operárias. Mas, apesar de seu pioneirismo - devemos lembrar que as interfábricas eram de várias categorias profissionais - o movimento mostra muitas debilidades, não reconhecendo inclusive sua própria importância. A participação na campanha salarial de 1974 não mostra nenhuma grande inovação ou avanço comparada com a de 1973". (POC, 1977, p. 203).

Os pequenos núcleos operários nas fábricas, comissões clandestinas e as interfábricas, ganham maior densidade e amplitude a partir da nova fase de ativismo operário que converge com da crise política e econômica vivida pelo país após a falência do "milagre" econômico. Além do ativismo operário, o fim do "milagre" produziu divisões entre as frações da burguesia e crise da dominação ditatorial, o que por sua vez abriu espaço para o fortalecimento da luta operária.

As jornadas de greve de 1978 em São Paulo

Durante a primeira metade da década de 1970 registrou-se uma fase de temperamento de quadros operários, sindicais e políticos, onde se forjaram, em pequenas "escolas de luta", organizadores, agitadores, propagandistas e militantes revolucionários. Durante a segunda metade da década de 1970, em meio à retomada das lutas operárias públicas, o acúmulo de experiências pela Oposição de São Paulo lhe possibilitará experimentar um salto em sua construção. Parte significativa desta camada atuará de forma qualitativa no ascenso operário de 1978-1980. A organização na base operária percorreu toda a década de 1970 em São Paulo. Onde destaca-se numa fase clandestina, de enraizamento no chão de fábrica (até 1974/1975) e tendo como ponto alto as mobilizações e a onda de greves de 1978-1980. Este trabalho clandestino veio à tona em 1978. Conforme relatou Hélio Bombardi:

"De 72 até 78 quando explodiu a greve, foram seis anos de conversa, de discussão, de organização, de passar material pros companheiros, e passar material era aquilo: um recorte, uma noticia, pega alguma coisa interessante que saiu no jornal e leva pra eles lerem, era um trabalho de formiguinha no começo mas era aquele trabalho diário". (Entrevista - Helio Bombardi, concedida ao IIEP).

Em 1977, o BIRD divulga os dados inflacionários de 1973, denunciando a falsificação dos mesmos pela ditadura militar brasileira, que levou a perda de 34,1% nos salários. Essa manipulação causou grande revolta na classe trabalhadora e fomentou ainda mais a reorganização operária no chão de fábrica. A reivindicação pela reposição dessa perda é levantada por dezenas de sindicatos que passam a compor o Movimento pela Reposição Salarial. Conforme relatou Hélio Bombardi:

"(...) nós fizemos uma greve na Toshiba, ai eu fui escolhido na Toshiba para compor a chapa, depois, na assembléia geral é que me escolheriam para ser o presidente da chapa e o Santo Dias vice-presidente (...). Então, a greve do ABC deu um potencial, por exemplo, para deslanchar também São Paulo. Ai, um dia eu cheguei numa reunião da Oposição, depois que as eleições todas tinham passado, a coisa ai... Ai eu falei para a coordenação: ’Essa semana eu paro a Toshiba!’. O pessoal se assustou né: ’Vai parar como?’. ’Não, nós vamos parar a Toshiba’. Aí ninguém acreditava né, aí nós paramos a Toshiba uma semana. (...). Mas 1978, por exemplo, a greve da Toshiba, nós não aceitamos que o Sindicato [Metalúrgico de São Paulo] negociasse com a empresa (...) foi junho de 1978, porque tinha pipocado em maio no ABC, mais ou menos por aí, maio por aí... em junho pipocou aqui em São Paulo, ai pipocou São Paulo inteira..". (Entrevista - Anízio Batista).

De acordo com Sofia: "E a partir desses panfletos nós discutíamos dentro da fábrica. A gente fomentava a discussão, a gente provocava a discussão dentro da fábrica a partir desses panfletos". (Entrevista - Sofia). A organização que se desenvolvia durante a década de 1970 no interior da Philco foi ainda mais estimulada com as greves deflagradas a partir de maio de 1978, conforme relatam Maria José, que também era operária na Philco e militante da Oposição:

Maria José: (...) Foi onde estourou a Scania em 1978, aí foi estourando Toshiba, várias... Aí quando foi em junho a gente teve condição de combinar uma greve. Ai nas comissões... E organizar a greve...
Sofia: mas porque já existia o grupo de fábrica... Porque já tinha um grupo de fábrica discutindo os problemas.
Maria José: já tinha uma base...
Sofia: já tinha um grupo de fábrica discutindo os problemas.

Então não se pode dizer que foi assim, que tirou do nada a greve?

Sofia: Não! Para você parar uma fábrica de 8.000 funcionários...
Maria José: A maioria mulheres... Casadas...
Sofia: Vários horários. Tinha horário de turno, horário de 17:05, horário noturno... Organizar uma fábrica de 8.000 funcionários em vários prédios, em plena ditadura militar, precisa ter um trabalho de base consistente, senão não conseguiria. E com fundamentos, você fundamentando o trabalhador adere, o trabalhador não é levado a fazer por fazer, ele faz porque ele tem confiança e sabe porque que está parando...
Maria José: Sente na pele...
Sofia: É muito emocionante parar uma fábrica. Uma greve é uma emoção muito grande porque você tem o chefe, o subchefe, o chefinho, você tem um monte...
Maria José: Tem segurança...
Sofia: Tem segurança... Um monte de gente em cima de você, observando você, dedo duro observando...
Maria José: E os infiltrados né Sofia, que é sempre...
Sofia: Aí é muito chefe em cima de você, é uma hierarquia na fábrica, muito grande, para reprimir mesmo. Então você romper... Na greve você rompe com toda essa estrutura, é muito emocionante. É muito (...). Precisa ter coragem. Coragem porque se não você não pára a máquina. Você tem que ter muita coragem, mais consciência política...

Não teve piquete?

Sofia: Não, essa foi de ocupação. Em junho de 1978 foi ocupação.
Maria José: Por exemplo, a militância que entrava às 6 da manhã já combinava não ligar as máquinas. Aí quem, por exemplo, eu trabalhava das 2 às 10, a Sofia eu não sei, eu entrava às 2 horas...
Sofia: Eu entrava às 7.
Maria José: Aí quando a gente chegava já tinha noticias. A Rádio peão funcionava: "Oh, o pessoal da manhã não trabalhou gente!". Tal e tal... Eu me lembro quando veio...
Sofia: Porque a nossa turma acho que foi 9 horas, foi marcado... 9 horas pára as máquinas...
Maria José: Quando nós chegamos às 2 horas já estava parado. Aí é fácil né...

Já tinha começado o movimento...

Maria José: Aí começa a pressão. A chefia vem, vem gerente, vem tudo em cima. Eu me lembro que as minhas pernas batiam uma na outra. Tremia, tremia, tremia e segurando (...). E eles sabiam muito bem, eles tinham o mapeamento das lideranças.
Sofia: O mapeamento todo. A gente não sabia, mas eles sabiam. Nós não sabíamos que eles sabiam do mapa das lideranças...
Maria José: Aí eles chegavam em cima da gente né: "Mas é o pessoal, nós chegamos aqui já estava parado... Né, então não vamos trabalhar (...)". E todos nós tínhamos a pauta de reivindicação nas mãos. Todos os trabalhadores tinham acesso àquilo, já tinha sido feito. Aí: "A nossa reivindicação é isso, isso e isso". Nós ficamos 4 dias dentro da Philco sem trabalhar e comendo. Aí, o ultimo dia, não sei se foi na Philco ou foi na Bosch, que eles cortaram a comida. Acho que foi na Bosch... [risos]. E comendo, almoçando e voltando para o pátio.

Alguém trazia o almoço?

Maria José: Não, ia para o restaurante [da fábrica].

Vocês tomaram o restaurante e começaram a cozinhar?

Maria José: Não. Nós trabalhadores dizíamos assim: "O pessoal da cozinha tem que garantir a nossa alimentação". Eles trabalhavam, mas claro que era trabalhar para alimentar a greve.

Uma vez decretada a greve de braços cruzados, as operárias continuavam a se reunir dentro e fora da fábrica para decidir os rumos daquele movimento, realizaram assembleias no refeitório para discutir suas pautas, criaram uma comissão com 90 pessoas para negociar as reivindicações. Chegaram a realizar assembleia com a presença de 6 mil mulheres. O Sindicato Metalúrgico de São Paulo tentou desmobilizar a greve mas falhou.

As comissões clandestinas da Villares, Barbará, Jurubatuba, Filtros Mann, Gutman, General Elétric são expressões deste inverno quente brasileiro. Também essas comissões não eram homogêneas ideologicamente, todos os partidos, tendências e correntes políticas procuram influenciá-las. Isso porque as comissões de fábrica, as Comissões Internas de Prevenção de Acidentes - CIPAS, bem como os cargos de delegados sindicais, são posições políticas importantes para as correntes que atuam no meio sindical e operário, podem funcionar como tática de construção das tendências e correntes, como órgão de agregação operária no chão de fábrica e mesmo como uma tribuna operária.

As comissões e grupos de fábrica ganham ainda mais importância naquele 1978, momento em que amplas camadas do operariado se mostram dispostas à luta sindical e política. Em São Paulo, os setores nucleados na Oposição Sindical Metalúrgica são alçados à crista daquela onda grevista. Conforme nos relatou Anízio Batista:

"(...) E aí pipocou, não só em julho, né, aí as greves nossa duraram muito tempo, porque todos os locais que nós tínhamos as comissões de fábrica, por exemplo, foi feito greve né... Todas, Massey Ferguson, que era grande, tinha um cara na chapa, que era o Hélio Bombardi (...). Então eu fui fazer reuniões, por exemplo, várias empresas, por exemplo, para colocar a experiência da Toshiba, né, e como o pessoal tinha que fazer as coisas aí... Massey Ferguson foi uma delas que a gente foi. Depois, tinha a Philco, aqui na zona leste, tinha... Um monte de empresa... Aí pipocou fábrica pequena, o pessoal parava a fábrica e, por exemplo, e vinha para o sindicato, não tinha nem coordenação, não tinha nem comissão na verdade...". (Entrevista - Anízio Batista).

Na Philco, no dia 25 de junho, 8 mil operárias e operários, com pautas específicas, deflagram greve. Conforme nos relatou Sofia, que era operária na Philco, militante da Oposição e uma das organizadoras daquela greve:

"(...) A Philco é uma fábrica com, em torno de 8.000 funcionários na época, 80% mulheres. É uma fábrica de referência na Leste porque é a maior, fabricava televisores, rádios. E nessa fábrica havia muitos militantes atuantes, mas na surdina, não era declarado, clandestino... E a gente se encontrava. Nos encontrávamos uma vez por semana para discutir os problemas da fábrica (...). Éramos um grupo de fábrica da Philco". (Entrevista - Sofia)

Nessa fábrica a greve de braços cruzados estendeu-se durante 4 dias. Sua realização foi precedida por um longo processo de organização interna. No ano de 1978 são deflagradas dezenas de greves em São Paulo, neste ano o jornal O Metalúrgico, órgão do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo registra a eclosão de greves em 132 empresas metalúrgicas envolvendo 117.231 trabalhadores. Destas derivaram 103 acordos salariais, sendo a maior parte efetivada via grupo ou comissão de fábrica. (Cf. Jornal O Metalúrgico. Nº. 266/agosto/78).

As greves em São Paulo retroalimentam o surgimento das comissões e o clima geral de insubordinação operária na cidade, coroando-a com uma greve geral em outubro de 1978, acabaram por paralisar todo o parque produtivo, enterrando a lei de greve e colocando em questão a política salarial da ditadura. Conforme nos relatou Jorge Preto (operário que trabalhava na Villares de Santo Amaro em 1978), este ano marcou o despertar da consciência de classe no operariado:

"Então, esse ano de 1978 foi o ano, assim... Aonde o despertar da consciência de classe, principalmente da classe operária que é a classe que produz, começou a despertar e aí que começou a abrir fissuras no Regime Militar, porque até a época, assim, o forte era o movimento estudantil. Que aí, ia lá, brigava, fazia uma manifestação, mas, assim, não arranhava o sistema. O que começou a arranhar o sistema, começou a quebrar a muralha do sistema, praticamente, é a produção, parou a produção, aí se questiona o sistema. Porque, o que que acontece, no despertar da consciência de classe? Como eu falei para você, a gente começa com coisas pequenas, você vai reivindicar assim: ’a comida está ruim, então vamos fazer um movimentozinho para melhorar a porra dessa comida que está uma merda, esse banheiro está sujo pra caralho’. Aí, para o operário aquilo é normal, quando ele vê essas pequenas reivindicações, o que que aparece, qual é a primeira coisa que aparece? O que aparece é que (...), você acha que vai negociar com o patrão, mas, quando você vê, você não está mais negociando com o patrão, você está conversando com o Estado. Porque, a primeira coisa, o que que o Estado fazia? Era um movimento, por menor que seja, aí eles já mobilizavam a polícia e já montava uma barreira na porta da fábrica para proteger a empresa. Aí, o que que o operário pensava? ’Pô, mas eu não estou fazendo nada demais, eu estou trabalhando, estou querendo só que melhore um pouquinho o local de trabalho, eu quero no mínimo uma comida que eu possa comer. Por que que a polícia está aqui?’ Aí já abria assim: ’está aqui para proteger o patrão’. Aí, quando você já ia indo, assim, no processo de negociação, não era mais o patrão, já era o sindicato, depois já não era o sindicato, era o Ministério do Trabalho e já era o Estado. Aí é o despertar da consciência de classe. Aí você fala: ’oh, eu não estou lutando só contra o (...) Luiz Villares [proprietário da fábrica], eu estou lutando contra o Luiz Villares, contra a direção do sindicato dos metalúrgicos, contra o governo do Estado e aí tem o Ministério do Trabalho que é o Governo Federal. Sim! Aparece primeiro para nós a fábrica, só que, quando assim, no enfrentamento você vê que é muito além da fábrica. O enfrentamento, assim, aí o despertar da consciência de classe vem por aí... É nos primeiros enfrentamentos. Então, assim, não há consciência sem enfrentamento. Porque se não há enfrentamento, assim, o pessoal vai e se limitar ao fazer no dia a dia... Tá ruim mas tá bom... Aí um dia fala assim, ’um dia vai melhorar’, aí vêm todas as crendices e tudo mais. Mas, assim, a partir do enfrentamento, o operário, ele só se conscientiza de fato, no enfrentamento de fato, que aí ele vai ver toda a máquina que ele está enfrentando. Ele não está enfrentando o chefinho dele que fica lá enchendo o saco dele lá, o encarregadozinho ou o diretor da empresa, ele vê que a coisa é bem maior, por isso que 1978 foi um ano assim, que marcou na história do movimento operário a consciência de classe. E isso, assim, se espalhou, se espalhou assim, para todas as regiões fabris de São Paulo e para várias regiões do Brasil. É tanto que, muitos militantes nossos... E eu faço um parêntese nesse patamar de espalhar o movimento, os setores progressistas, principalmente da pastoral operária, da JOC, da Igreja Católica, ajudou bastante". (Entrevista - Jorge Preto).

Em meio à onda grevista, de um "despertar" massivo da consciência de classe, em oposição ao patronato e as forças repressivas do Estado militarizado, os trabalhadores buscam formas de se organizar para se contrapor a um poder que é evidentemente muito maior do que o de cada operário individual. Nesse momento, buscam auto-organização dentro e fora dos locais de trabalho, grupos de fábrica, comissões e sindicatos. Frente a tal demanda, os militantes nucleados em torno da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo encontram condições mais favoráveis para divulgar as mobilizações, mas também a necessidade de criação de mais comissões de fábricas, isso porque compreendiam que era desta forma de organização que emanava o maior poder de auto-organização operária. Conforme nos relatou Waldemar Rossi:

"Em 1978, naquela greve das fábricas, nós soltávamos material divulgando as greves, pegando recorte de jornal, formando folheto e mostrando onde estava havendo greve. Soltávamos nas fábricas em grande quantidade e isso foi gerando outras greves, e sempre colocando entre as reivindicações a importância das comissões de fábrica: ’É onde os trabalhadores vão ter a sua força, etc’. Foi isso que a FIESP registrou, naquele ano de 1978 na cidade de São Paulo, o conhecimento 200 comissões de fábrica, isso, declaração da FIESP, [comissões] que não tiveram vida longa, morreram em seguida porque não tinha nem estrutura para isso, mas algumas ficaram, como a da MWM, na Massey Ferguson e algumas outras. E, essas, inspiraram a comissão de fábrica da ASAMA, que é a mais evoluída politicamente (...), muito interessante, muito rica". (Entrevista - Waldemar Rossi).

Também no mês de maio de 1978, realizaram-se eleições para o Sindicato Metalúrgico de São Paulo. Joaquinzão novamente lançou sua chapa pró-patronal. Nesse ano a Oposição vive a primeira divisão importante que marcará seus os próximos anos. Um setor de sindicalistas ligados ao PCB, dirigido por Cândido Hilário (o Bigode), ao invés de compor com a Oposição, lança chapa própria. A Oposição lançou sua chapa apoiando-se sobre as comissões clandestinas já existentes, nas interfábricas, nos trabalhos nos bairros, mas sobretudo no ascenso grevístico deflagrado desde maio de 1978 no ABC paulista. No entanto, durante as votações, a chapa de Joaquinzão viola e frauda as urnas e consegue tomar posse com a intervenção do Ministério do Trabalho. (Veja o documentário Braços cruzados, máquinas paradas).

Novembro de 1978: a primeira greve geral pós-golpe militar

Em 1978 a Oposição, que se fortaleceu desde 1975, será a responsável pela decretação da primeira greve geral pós-golpe militar. Organizando sua base de apoio, em uma assembleia com cerca de 20 mil operários na Rua Do Carmo, conseguiu aprovar a decretação da greve em 27 de outubro de 1978. Formou-se uma Comissão de Salários, que chegou a contar com 100 operários. No entanto, ao final da assembléia que decretou a greve geral em 1978, os dirigentes da Oposição sentaram com Joaquinzão para redigir o boletim da greve, informando que "toda e qualquer informação a respeito da greve" deveria ser buscada no Sindicato. Assim, não conferiram qualquer autonomia à Comissão de Salários formada na assembléia, ou mesmo à interfábricas como direção alternativa do processo grevista. Deixaram que o poder deliberativo se concentra-se nas mãos da diretoria pelega.

A greve geral, realizada em 30 e 31 de outubro, colocou-se como um grande desafio para a Oposição, que estava adaptada aos trabalhos miúdos no chão de fábrica. Em apenas dois dias, a greve envolveu cerca de 300 mil operários, englobando São Paulo, Guarulhos e Osasco. Essa greve influenciará objetivamente as bases operárias do ABC e na decisão da Diretoria de São Bernardo para a decretação da greve geral em 1979.


Foto 4- Greve geral metalúrgica de 1978 em São Paulo

As mobilizações em São Paulo refletem o ânimo geral do operariado paulista, que tem como pauta unificadora o reajuste de 70% nos salários. Essa primeira greve geral metalúrgica coroará aquele ano com a unificação operária e o fortalecimento da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo. Conforme relatou Jorge Preto, que militou ativamente naquele 1978, a Oposição estava determinada a decretar a greve geral em assembléia:

"(...) E, a partir daí, com a continuidade do movimento, aconteceu greves localizadas em várias fábricas, chegou o mês de novembro, porque era outubro que era o mês de campanha salarial, como já tinha essa força acumulada por fábrica, a Oposição já tinha militantes em toda São Paulo e já teve a experiência da chapa, tinha tido a eleição em maio de 1978, no meio do ano (...). A Oposição ganhou a eleição, foi constatado várias fraudes, foi anulada, depois o Ministro do Trabalho Arnaldo Pietro, foi ele pessoalmente no sindicato e empossou a Diretoria, aí já tinha essa experiência acumulada de fardo do trabalho de Oposição e na campanha salarial nós mobilizamos os que nós podíamos para ir para o sindicato. Porque assim, mesmo contra nós, o sindicato tinha a premissa da categoria, e o que que nos fizemos: ’Vamos mobilizar a categoria e vamos forçar o sindicato a decretar greve na categoria’. Então essa foi uma decisão em reuniões paralelas que a gente fazia nos bairros, principalmente nas Igrejas, né... Tinha as Igrejas aí, o setor progressista da Igreja, eles davam muito espaço para a gente, se reunia, a gente ia para dentro do sindicato com essa posição". (Entrevista - Jorge Preto).

A Diretoria de Joaquinzão prezava pelos acordos com a patronal, buscando obstruir a participação direta das bases operárias, mas, frente às mobilizações massivas, a Diretoria ficou encurralada e aceitou a decretação da greve. Essa seria a oportunidade para a Oposição provar-se em meio ao ascenso operário. No entanto, como analisa Cleodon Silva, um dos principais dirigentes da Oposição Sindical, no que tange à direção dos rumos daquele confronto, a Oposição falhou, pois não conseguiu de fato implementar uma orientação alternativa para aquele processo:

"Eu mesmo que fui para a sede do sindicato, junto com outros companheiros da Oposição, vi e contatei grupos e comissões de muitas fábricas que chegavam com os nomes de operários eleitos. Os trabalhadores não foram ali atrás do sindicato, porque confiassem em sua diretoria. Precisavam de uma direção, de guia para o que fazer diante da situação. Queriam conseguir 70% de aumento e fazer a greve. E qual era a nossa orientação? Não tínhamos nem material próprio nosso para organizar e articular as comissões e continuávamos insistindo: tirem comissões! Hoje acho que isto foi pura demagogia. Ajudamos a confundir a massa operária. Somos responsáveis por isto. Não aparecemos para os trabalhadores como Oposição, com outra proposta alternativa. Não demos direção! Perdemos uma chance de sermos a direção independente". (Entrevista - Cleodon Silva ao GEP/Urplan: Apud: BATISTONI, 2001, p. 244 - grifos da autora).

Conforme nos relatou Sebastião Neto, que também era operário e dirigente da Oposição:

"Tinha alguma coisa por dentro, por baixo, tá... E tinha uma ideia, você perguntou sobre as comissões, é uma pena que na época não tinha vídeo e tal, assim, os nossos comitês na época da greve, chegavam centenas de operários de dezenas de fábricas: ’Queremos comissão de fábrica’, uma loucura, você não sabia... Fazia uma lista mal feita, a mão ali... ’Qual que é a sua fábrica? Vamos fazer uma lista aqui’, por que? Porque sabia que a greve acabaria um dia e você manter... Perdeu essa porra toda, não tinha organização para isso. Quer dizer, foi uma onda, uma onda assim... Comissão de fábrica, estou falando de 1978 para 1979...". (Entrevista - Sebastião Neto).

A Oposição nutria um dilema em seu âmago: dar ou não sustentação ao Sindicato. Um setor hegemônico da Oposição acreditava que as comissões de fábrica deveriam substituir o Sindicato. Outro setor acreditava que o sindicato era imprescindível e deveria ser tomado. Um terceiro setor, mais oportunista (PCB, PCdoB e MR8) optou por compor com Joaquinzão pelego para chegar ao aparato Sindical. Em 1978, os operários vão aos milhares à procura de seu Sindicato, com isso, o Sindicato de São Paulo é posto no centro da luta de classes e a Oposição não consegue cercar esse sindicato de uma base militante, influindo de forma diretiva nos rumos da greve geral.

No momento da ação qualitativa, em meio ao ascenso, essas indefinições prejudicaram sobremaneira sua prática. A falta de coesão político-estratégica e programática, impunha uma forma de atuação caótica no momento crucial da greve geral. Acostumada com os pequenos trabalhos organizativos no chão de fábrica, mas sem enfrentar os debates estratégicos, não pôde dar um salto de qualidade em sua atuação na hora do ascenso da luta operária. Não atuou como uma organização preparada realmente para dirigir a classe operária. Com isso, quem venceu foi a máquina sindical dirigida pela burocracia pelega serviçal do empresariado industrial e da ditadura.

Além disso, as comissões de fábrica não eram células ou núcleos da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo. Surgiram centenas de comissões autonomamente, dispersas, muito além da iniciativa e capacidade de organização e construção da Oposição. As comissões que surgiram em 1978, por seu próprio caráter, não puderam atuar de comum acordo político-estratégico com a Oposição. Sobretudo porque a Oposição não tinha tais definições.

A Oposição não era um movimento revolucionário que formou centenas de comissões em centenas de fábricas com o mesmo objetivo estratégico, como um todo orgânico e que podia, a partir disso "bater como um punho só", organizando uma greve geral que envolvesse os 400 mil operários de São Paulo, por exemplo. As centenas de comissões surgiram "espontaneamente" em 1978-1979 como células dispersas. Surgiram por múltiplas determinações sem constituírem-se como síntese organizada. Embora funcionassem como elemento de mediação entre operários e patrões, não eram parte de um todo orgânico articulado que pudesse efetivamente colocar-se como direção alternativa. As comissões representavam a multiplicidade do diverso, contando inclusive com grande nível de caoticidade. Findado o ciclo grevista de 1978, a Oposição repetiria os mesmos erros fundamentais no ano seguinte.

Ao invés da Oposição se centrar no papel do Sindicato, buscando cercá-lo e obrigá-lo a trabalhar para as greves, focou-se nas negociações por fábrica e na institucionalização das comissões que surgiram. Ao invés de uma investida decidida para tomada do Sindicato, despenderam muitas energias para a legalização das comissões como forma de isolar a ação do Sindicato. A Oposição, com variadas tendências, não pôde oferecer um programa coeso para a ação operária naquele ascenso, pois seu único ponto programático era a formação de comissões.

Novembro de 1979: nova greve geral metalúrgica em São Paulo

No ano seguinte, 1979, a Oposição organiza outra greve geral na categoria metalúrgica. Dessa vez será uma greve mais longa que a de 1978. Essa greve será o ponto alto da organização do operariado de São Paulo. Em marcha, os operários conquistam as ruas, formam os "piquetões", piquetes móveis que iam de fábrica em fábrica parando a produção e convidando mais operários para aderirem ao movimento paredista, chegam-se a organizar 15 mil operários. Todo o processo grevista dura 12 dias, encerrando-se apenas no dia 10 de novembro.

Com a efervescência operária em São Paulo, marcada por mobilizações no chão de fábrica, formação de comissões, grupos clandestinos e assembléias da campanha salarial, construiu-se uma nova greve geral decretada no dia 28 de outubro de 1979. Na madrugada, véspera de início da greve, o governo ditatorial prende 343 operários dos Comandos de Greve. Mesmo assim, foi impossível contê-la. O movimento avança, conquista cada vez mais adesões, ganha auto-confiança e mais coragem para enfrentar-se com os patrões e o regime ditatorial.

Diferentemente da greve de 1978, na greve de 1979 a Oposição trabalhou com material próprio, com o jornal Luta Sindical. Também, em assembleia, deliberou-se pela formação de uma Comissão de Mobilização que foi composta por 260 operários eleitos a partir das diferentes regiões. Formaram-se Comandos Regionais de Mobilização, que contavam com independência organizativa, garantindo a implementação das resoluções votadas em assembléia. Pois ganhar a assembleia não implicava convencer a Diretoria do Sindicato a construir a greve e batalhar para que a luta dos trabalhadores contra os patrões fosse vitoriosa. Os comandos formados nas regiões de maior mobilização operária, eram abertos a participação de qualquer força política que atuasse no interior das fábricas.

Em Santo Amaro os operários se auto-organizaram em piquetões, que eram piquetes móveis que marchavam de fábrica em fábrica parando a produção, conquistando as ruas e convidando mais operários para aderirem ao movimento paredista. Eram piquetes multitudinários, independentes, que se auto-denominavam “corrente de trabalhadores” ou “piquetões”, que chegaram a contar com até 15 mil operários.


Foto 5 - Piquetão na zona sul em 1979

No segundo dia de mobilizações, dia 30 de outubro, enquanto a repressão dissolve com pancadas e tiro um piquete na frente da Indústria Sylvânia, o soldado da Polícia Militar Herculano Leonel atira e assassina Santo Dias da Silva. O operariado, que vinha impondo-se se contra as determinações da ditadura, já atuando em massa, responde ao assassinato de Santo Dias com um protesto no dia seguinte (31 de outubro), que reúne 30 mil operários. A greve continua a crescer e chega a paralisar 80% da categoria.

Esta greve geral metalúrgica de 1979 apresentou como principal avanço organizativo os comandos regionais, que permitiam a organização nas bases operárias nas diferentes regiões de São Paulo, descentralizando e possibilitando expandir a auto-organização operária para além da influência da diretoria do Sindicato. No entanto, embora melhor organizada do que a greve de 1978, os comandos de greve acabaram por atuar de forma desarticulada, não se conseguiu constituir um comando geral que articulasse uma direção alternativa para o processo, o que por sua vez tornou-se ponto fraco da greve. De acordo com relato de Cleodon Silva:

"Se a organização dos comandos foi um grande avanço, tivemos problemas em relação à negociação durante a campanha salarial e preparação da greve. Não conseguimos estabelecer um comando geral. Ele se dava ainda "dentro" do sindicato, com a representação regional da categoria, militantes das oposições, mas ainda com forte participação da ala do Joaquim e cia, que quando perdia na votação, encaminhava as decisões com atraso, com manobras, levando a um funcionamento bastante precário e capenga. O funcionamento de fato, com a representação direta a partir dos comandos regionais só aconteceu no fim da greve e já não respondia mais às necessidades". (Entrevista - Cleodon Silva, GEP/Urplan, apud BATISTONI, 2001, p. 282).

A não existência de um Comando Geral foi uma das principais debilidades organizativas que impediu a articulação orgânica daquele movimento. Conforme destacamos, a auto-organização operária ao longo da década de 1970, como formação de comissões clandestinas e frente de trabalhadores, desempenhou importante papel na organização operária no chão de fábrica. As greves gerais metalúrgicas em São Paulo em 1978 e 1979 constituíram ápice da atuação operária. Dentro deste processo, a oposição encontrou condições para ampliar seu alcance e influência. No entanto, seus erros táticos e debilidades estratégicas impediram que fosse completamente vitoriosa em seus objetivos.

Entre 1978-1979, surgiram centenas de comissões autônomas, dispersas, muito além da iniciativa e capacidade de organização e construção da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo. No entanto, as comissões e as correntes que compunham a Oposição não podiam formar um todo orgânico e a partir disso "bater com um punho só".

Assista os documentários:

Cidadão Boilisen: mostra a articulação entre industriais, empresário e os militares.
A luta do povo: destaca a interligação entre as luas operárias e mobilizações nos bairros.
Braços cruzados, máquinas paradas: sobre as eleições sindicais de 1978 em São Paulo.
O apito da panela de pressão: sobre a luta estudantil em 1977.

Referências

BATISTONI, M. R. Entre a fábrica e o sindicato: os dilemas da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (1967-1987). Tese de doutorado. PUC. 2001.
FARIA, J.B.H. A experiência operária nos anos da resistência: a oposição metalúrgica de São Paulo e a dinâmica do movimento operário (1964-1978). SP. Dissertação de mestrado. PUC. 1986.
GET/URPLAN. Nas raízes da democracia operária - a história da oposição sindical metalúrgica de São Paulo. Cadernos do Trabalhador, nº 4. PUC. São Paulo, 1982.
IIEP - OPOSIÇÃO SINDICAL METALÚRGICA. Investigação operária: empresários, militares e pelegos contra os trabalhadores. 2014 – São Paulo. Projeto Memória, 2014.
MOURA, A. O 1968 operário no Brasil: a greve dos operários da Cobrasma. Esquerda Diário. 2016.


. O Primeiro de maio de 1968 na Praça da Sé: rebeldia operária no dia do trabalho. Esquerda Diário. 2016.
PARTIDO OPERÁRIO COMUNISTA - POC. Problemas de organização do movimento operário brasileiro. 1977. In: FREDERICO, C. (Org). A esquerda e o movimento operário: 1964-1984. Vol. II. Oficina de Livros. Belo Horizonte. 1990.




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