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Luna tucumana: o canto latino-americano de todos os tempos

Gilson Dantas

Brasília

domingo 30 de dezembro de 2018| Edição do dia

[Imagem: Atahualpa Yupanqui e sua companheira Nenette]

Luna tucumana [lua de Tucuman] é um canto, poético e profundamente atravessado pela dialética entre a lua “que se lança no negro profundo do espaço a iluminar” e o caminhante, que vai “andando e cantando, que é meu modo de iluminar”.

Atahualpa Yupanqui [nome Héctor Chavero], falecido aos 85 anos em maio de 1992, foi um cantor, profundamente inspirado na música folclórica argentina e que, naqueles anos 1960-70 em especial, no período convulsivo brasileiro, nos embalou.

Com nove anos de idade, sua família mudou-se para Tucuman. Antes dos dez anos teve aula de violino e de violão. Quando tinha 19 anos, compôs a canção: "Camino del Indio", que se tornou um hino da identidade indígena na Argentina. Foi autor de músicas do mais tradicional gênero argentino, tipo zambas, milongas, chacareras, vidalas etc.

Adotou nome artístico de lideres do império inca, identificado que sempre foi com os povos originários contra o invasor europeu. Viajou muito pelas culturas indígenas do interior e, de conjunto, deu visibilidade no seu país ao tema da Argentina indígena, empobrecida e marginalizada.

Foi filiado ao PC argentino, stalinista, do qual se desfiliou poucos anos depois [1951]. É considerado o primeiro músico folclorista argentino de esquerda. E viveu intensamente o impacto do maior ascenso operário de seu país, nos marcos do peronismo, logo em seguida à II Guerra mundial.

Don Ata, como o chamavam, foi decisivo para o surgimento de movimentos musicais na Argentina, Chile e de vários lados da América Latina, de extração folclórica mas de perspectiva libertária ou diretamente de esquerda, músicas que se estenderam amplamente na América Latina daqueles anos de movimentos de massas e operários.

O pai de A Yupanqui era quíchua [origem indígena], operário ferroviário e sua mãe, de descendência vasca. Em sua juventude participou de rebeliões populistas e por isso foi exilado. Sua enorme sensibilidade social e aos povos originários e contra a opressão nos deixou como legado mais de mil canções e vários livros.

Nenette, sua companheira, foi fundamental em sua obra [como compositora] e em sua vida; francesa, ela foi uma mulher adiante do seu tempo.

De sentido poético profundo, Luna tucumana é de 1968, e é um hino à garra e ao otimismo de quem pode se perder nas estradas sem fim, da vida, na neblina, mas que quando a lua sai, canta; e lhe canta não apenas porque ela ilumina mas porque ela sabe do meu modo de caminhar, diz. Como declarou certa feita Atahualpa, o homem é “a Terra que anda”.

Você pode conferir Luna tucumana, apenas um dos seus notáveis cantos, a seguir, seu canto, solo, com violão [música e letra].

Agora, novamente Atahualpa e seu violão, em clip musical, Luna tucumana:

Finalmente, don Ata [A. Yupanqui] e Mercedes Sosa [com letra]:

Como bônus, se lhe interessar, outra bela canção de Atahualpa, inesquecível e combativa daqueles anos convulsivos, Los Hermanos:




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